No dia da final da última Copa do Mundo, quando David Trezeguet mandou a bola por cima da trave de Buffon – seu companheiro de Juventus – na disputa de pênaltis, provavelmente já deveria pressentir que a sorte não lhe sorria. A temporada seguinte começaria marcada para ele e seria dura. Muito dura.

Trezeguet tentou sair da Juventus, que tinha sido rebaixada no escândalo Moggi, Conseguiu até que o Lyon fizesse uma oferta de €15 milhões por seu futebol, só que os piemonteses não aceitaram. Trezeguet esperneou, chorou, brigou e ameaçou mas não teve jeito. Ele ficou em Turim e pronto.

Não acabou aí: o atacante logo de cara sofreu uma contusão que o afastou por seis semanas. Tendo renovado o contrato um ano antes, indo até 2010, o franco-argentino começou a se dar conta que sua situação era delicada. Uma relação áspera (ainda que franca) com o então técnico juventino Didier Deschamps não ajudava muito a sua situação.

Tudo já estava ferrado? Não. O artilheiro juventino também estava para perder a sua vaga na seleção francesa, porque o técnico ‘Bleu’, Raymond Domenech, argumentava que não tinha como convocar um jogador que atuava na segunda divisão. Na realidade, a escolha era conveniente para Domenech porque sabidamente o astro Henry não gosta de jogar com Trezeguet. Deschamps saiu em defesa de Trezeguet, mas o jogador ficou de fora de várias convocações.

Mesmo tendo encerrado a temporada no inferno da Série B com 15 gols em 31 jogos (sua terceira melhor marca em sete anos de Juventus), Trezeguet estava em xeque no clube que não aceitava suas reivindicações para um novo contrato. No último jogo no time na segunda divisão, Trezeguet comemorou um gol de maneira polêmica dizendo à torcida “querem me mandar embora mesmo fazendo 15 gols”. O presidente juventino, Giovanni Cobolli Gigli chegou a dizer que a situação era “irremediável”.

Pois é. O quadro não poderia parecer mais obscuro para o francês, mas ele foi ficando. Foi ficando e quem deve estar comemorando é a Juventus. Isso porque Trezeguet começou a temporada em forma arrasadora, marcando sete vezes em seis jogos e se firmando como artilheiro do campeonato.

O francês é, sem dúvida, o melhor atacante do elenco da Juventus. Sim, a compra de Iaquinta também foi excelente, mas o ex-jogador do Monaco tem um repertório maior e conhece mais seus companheiros de clube. A marca de 146 gols em sete anos (mais esse início de campeonato) dão a ele a condição de estrangeiro com maior número de gols pela Juventus, superando seu compatriota Platini.

A boa fase do jogador passa pela orientação do técnico Claudio Ranieri. O italiano monta o ataque em torno do francês porque lhe garante uma variação de jogadas ofensivas que podem desestabilizar o adversário, permitindo a inserção de meio-campistas, dando liberdade a Del Piero ou viabilizando gols em chutes de fora da área. Trezeguet, mesmo tendo sido uma contratação feita há quase oito anos, é o melhor reforço da Juve para este campeonato e é um sério candidato à artilharia do campeonato, caso não se contunda.

Murro na mesa
É curioso falar em auto-afirmação de um time que ganhou os dois últimos títulos. Porém, em se tratando de um título vencido no tapetão e um outro contra adversários enfraquecidos, talvez seja esse mesmo o caso. E essa auto-afirmação – da Inter – veio neste final de semana.

O sucesso interista sobre a Roma, no Olímpico, foi a primeira mostra de força do time lombardo sem nenhuma ‘ajuda’ externa. Pela primeira vez nos últimos dois anos, o time de Roberto Mancini foi à casa de um rival direto pelo título e o venceu em igualdade total de condições.

A Inter soube neutralizar as jogadas romanistas originadas pelos externos ofensivos Mancini e Giuly com o avanço de Figo e César. A medida matou a Roma que depende demais do capitão Totti e este não estava na sua noite mais inspirada.

A vitória interista não deve ser creditada a uma fraqueza da Roma e sim a um conjunto sólido e onde as individualidades reforçavam o trabalho de equipe. Julio Cruz, o jogador mais subvalorizado desta Inter, mais uma vez foi o homem-chave, fazendo gol, assistência e chutando bola na trave.

É verdade que a expulsão de Giuly desmontou a equipe da Roma, mas até isso a Inter soube explorar com inteligência. Sem o incômodo homem na lateral, Mancini – o técnico da Inter, não o atacante da Roma – rearmou o time num 4-4-2 tradicional e com um homem a mais ganhou o jogo na substituição (a entrada de Crespo e Cruz).

Nada de campeonato decidido, veredictos ou conclusões: a vitória da Inter é um só (e já é muito) um passo importante de um time que tenta se confirmar como um favorito legítimo e não um clube beneficiado por circunstâncias. Tanto o clube como o técnico Mancini ainda são vistos com desconfiança no que diz respeito a peitar os ‘grandes’ sem questões extra-campo. Um 4 a 1 em Roma era a injeção de ânimo necessária para moldar um grupo campeão mesmo.

O Milan não vence e nervosismo aperta

A saída de Kaká de San Siro no último domingo foi uma cena sintomática: o meia-atacante batendo boca com o técnico Carlo Ancelotti, que tinha passado boa parte do jogo reclamando para que ele abrisse o jogo pela direita, enquanto o brasileiro se postava mais ao centro. “Então o problema sou eu, né”, resmungou Kaká.

O elenco se fechou em torno da questão; Seedorf teria sido o mediador na discussão e quando perguntado, Ancelotti não negou a divergência. “É um problema nosso, não de vocês [a imprensa]”, disse o técnico de Reggiolo. Aparentemente, não é nada sério (no ano passado, Kaká já tinha tido diferenças com Ancelotti também por causa de posicionamento e no fim, os dois foram campeões europeus), mas revela uma tensão na casa milanista.

O presidente do clube, Silvio Berlusconi, disse que acha que o Milan está com sua fome “saciada” de títulos por causa das recentes conquistas e é bem possível que ele não deixe de ter razão. Mas além disso, o início de temporada também serve para explicar muita coisa, uma vez que a melhor forma física do time costuma vir depois de dezembro.

Além disso, a forma pífia de Gilardino também não ajuda. O atacante está tímido e inseguro, sem saber como reagir às vaias e sentindo o peso da herança deixada por Ronaldo – que está machucado. Inzaghi é bom, mas sua idade (34 anos) não permite carregar um clube como o Milan nas costas.

As próximas semanas são decisivas para o futuro do Milan. Se o clube quer manter as ambições domésticas, precisa começar a vencer, ainda que com um futebol questionável. Se não arrecadar pontos agora, depois dificilmente conseguirá tirar a diferença para Inter, Juve e Roma. O mercado milanista foi equivocado (pelo menos mais um atacante e um defensor eram necessários) e é certo que em janeiro o elenco receberá reforços. O mesmo erro tinha sido cometido no último campeonato e o Milan conseguiu compensar. Resta saber se um raio cai duas vezes no mesmo lugar.

Curtas

– Sem Jorge Andrade, machucado, é certo que a Juventus buscará outro defensor. Já desponta o nome de Kompany, belga do Hamburgo-ALE, que não convenceu totalmente na Bundesliga.

– Ainda na casa Juventus, o capitão Del Piero pode estar em sua última temporada no clube.

– A renovação de contrato do jogador está lenta e tudo aponta para um divórcio, pois ‘Ale’ não aceita ser um reserva de luxo.

– Talvez o Milan tenha de buscar até mais de um defensor em janeiro. Simic já avisou que não quer mais ser reserva, assim como Kaladze tinha feito no fim da última temporada.

– Esta é a seleção Trivela na sexta rodada do Campeonato Italiano:

– Buffon (Juventus); Kolarov (Lazio), Zapata (Udinese), Campagnaro (Sampdoria) e César (Inter); Edusei (Catania), Vannucchi (Empoli) e Santana (Fiorentina); Osvaldo (Fiorentina), Julio Cruz (Inter) e Trezeguet (Juventus)