Sob uma chuva torrencial, o Milan conseguia um empate no Celtic Park que, numa Liga dos Campeões, não estava saindo mal. Dentro de casa, o time escocês é sempre um adversário tinhoso e na Europa, um pontinho fora nunca é ruim. Foi quando o zagueiro Caldwell bateu na bola, especulativamente, em direção ao gol do Milan. Com o terreno molhado, Dida concedeu o rebote e este caiu nos pés do australiano Scott McDonald. Daí não teve jeito: gol do Celtic e frenesi dos ‘Bhoys’.

A festa merecida do Celtic só não se completou porque um torcedor invadiu o campo e foi tirar um sarro de Dida, dando-lhe um tapinha no ombro. Mas o brasileiro, irritado com o gol estilo “morte súbita”, fez uma das maiores besteiras de sua carreira. Primeiro ameaçou correr atrás do torcedor. Daí, num ato de extrema burrice, imaginou que talvez pudesse enganar alguém simulando uma contusão, que teria sido causada pelo toque do torcedor escocês.

No começo, pareceu até um episódio mais sério: na dúvida, todo mundo ficava se perguntando se tinha ocorrido algo mais, que não tivesse sido captado pelas câmeras. Dida saiu de maca e foi substituído por Kalac, segundos antes do jogo acabar. Porém, não era nada. Foi só uma presepada causada por uma soma de estupidez e falta de esportividade.

Temeroso de uma punição, o Celtic aproveitou que o torcedor se entregou e o baniu de entrar em qualquer jogo do time – para sempre. O Milan percebeu rápido que Dida tinha feito uma pataquada e disse que não recorreria da decisão que a Uefa tomasse. Mas o vexame estava feito.

A palhaçada de Dida valeu a todos os brasileiros a ressurreição momentânea do estereótipo brasileiro de ‘trapaceiro’. Não houve quem não se lembrasse de outro vexame igualmente protagonizado por um brasileiro (Rivaldo contra a Turquia, Copa de 2002), além dos comentários sardônicos e risinhos com o canto da boca. Ou seja: Dida não passou somente por desonesto – fez com que todos os brasileiros fossem colocados no saco junto com ele.

Logo depois, a Uefa deu início a uma investigação para apurar o que aconteceu com Dida para que o Milan trocasse Dida por Kalac. Na realidade, a entidade máxima do futebol europeu quer mesmo é uma assunção de culpa do goleiro para poder lhe dar uma punição exemplar.

Uma punição exemplar seria o que Dida merece. Uma das piores facetas do brasileiro é aquela que estimula as pessoas a ‘tirarem vantagem’ das situações, ainda que por meio de trapaças ou mentiras. O ato do goleiro, assim como o de Rivaldo em 2002, não têm rigorosamente nada de positivo. Se eventualmente trazem alguma vantagem em resultados, tanto pior. Ganhar roubado não só não é melhor (como já sugeriu Zagallo, entre outros), como mancha os méritos da vitória.

Depois da vergonha de Glasgow, Dida deve pagar caro, mesmo que não seja punido. O goleiro já foi criticado abertamente por Kaká e Carlo Ancelotti – dois nomes que raramente criticam colegas. Além disso, o gesto confirmou na Itália a sensação que já era óbvia para todos há algum tempo: a de que Dida não tem mais condições de ser o titular do clube.

O problema da janela de transferências adia a solução para janeiro, salvo uma recuperação fantástica do goleiro com seqüências de defesas milagrosas. Morgan De Sanctis (Sevilla – ESP), Marco Amelia (Livorno) e Gigi Buffon voltaram a ser nomes mencionados para a vaga do gol milanista. Até mesmo Angelo Peruzzi, recém-aposentado, surgiu como opção. A ‘malandragem’ de Dida pode ter selado sua carreira na Itália. Se isso acontecer, terá sido absolutamente merecido.

Redenção milanista e Super-Cruz

Na mesma semana em que Dida deixou o Milan vermelho de vergonha, um outro goleiro ajudou a fazer com que os ‘rossoneri’ conseguissem um resultado que reverteu a sensação de caos que reinava em Milanello. Diante de uma Lazio que vinha de um bom empate com o Real Madrid pela LC, o Milan conseguiu um 5 a 1, no Olímpico de Roma, que não esperava nem nas hipóteses mais otimistas.

O encarregado de dar uma ajuda ao milan foi o goleiro uruguaio Muslera, da Lazio. Recém-contratado no time da Lazio (era a sua quinta partida oficial), Muslera fez dois pênaltis (um deles não marcado) e tomou dois gols por baixo das pernas que deixam a indelével sensação de carreira comprometida no clube. O resultado não é fiel ao jogo, que poderia ter tido um sucesso dos visitantes, sim, mas por uma margem menor. A incerteza no gol fez com que todo o time ruísse e anunciasse uma crise provável vindo por aí.

Além do time como um todo, o jogo também serviu como bênção para Dida (que fez algumas defesas seguras, deixando de lado o papelão da Escócia), mas principalmente reabilitou Gilardino, que não anotava um gol desde abril. O atacante teve várias triangulações boas com seus companheiros e foi autor de dois gols (um deles um golaço) que devem lhe dar alguma paz para jogar até a volta de Ronaldo e a chegada de Patom, quando poderá ter uma cobrança um pouco menor.

Na outra parte de Milão, um outro atacante também se destacou, mas como sempre, pouco se fala dele. Julio Cruz sempre é decisivo para a Internazionale, mas usualmente é considerado como o elo fraco do ataque ‘nerazzurro’.

Em cinco temporadas, ‘O Jardineiro’ marcou 56 gols em 138 partidas. Se levarmos em conta que Cruz quase sempre vem do banco de reservas, quase sempre é o segundo atacante (jogando em função de um centroavante), jamais reclama e freqüentemente decide quando a Inter precisa, não dá para não tirar o chapéu.

Diante do Napoli, um jogo que era sabidamente difícil, o argentino fez os dois gols que deram à Inter uma posição ainda melhor do que a que os atuais campeões ocupavam na sétima rodada de 2006/07. Ibrahimovic é o craque do ataque interista, mas já há algum tempo, Cruz é o atleta sem o qual o técnico da Inter (seja ele quem for) não pode passar sem.

Azzurra

Poucas novidades na convocação de Roberto Donadoni para pegar a Geórgia, em Genova, pelas Eliminatórias da Euro 2008. Com a novela Totti encerrada, ainda sem Nesta (que muitos acham, voltará à seleção) e com Cannavaro suspenso, o CT deixou Del Piero e Inzaghi de fora da lista causando o enésimo burburinho em torno da forma do juventino.

Nenhum dos dois jogadores (que já fizeram a dupla de ataque titular da Juventus) está em forma espetacular e uma não-convocação não é anormal. Há várias opções e Donadoni tem a volta de Luca Toni, cuja forma no Bayern é fantástica. Del Piero já ficou desagradado com a decisão de Donadoni e a questão é saber se a tensão é momentânea ou trará conseqüências.

A boa nova é a primeira chamada de Montolivo, um armador consistente da Fiorentina que já estrelou a seleção sub-21. O italiano de Caravaggio é uma ótima opção para compor um meio-campo mais robusto com Gattuso e Pirlo, mas mantendo uma técnica refinada e visão de jogo, aliás, bastante similares às do armador milanista.

Curtas

– Na esteira da vacilada de Dida, a Gazzetta Dello Sport revelou que o Milan já tinha acertado termos com Buffon em junho passado, quando Silvio Berlusconi interveio e bloqueou a operação que ele considerou “cara”.

– Seriam €25 milhões para a Juventus mais € 30 milhões para Buffon por cinco anos de contrato.

– Se isso for mesmo verdade, Berlusconi terá feito uma grandicíssima burrada.

– Abaixo, a lista de convocados por Roberto Donadoni para enfrentar Geórgia e África do Sul:

– Goleiros: Amelia (Livorno), Buffon (Juventus), Curci (Roma).

– Defensores: Barzagli (Palermo), Bonera (Milan), Chiellini (Juventus), Gamberini (Fiorentina), Grosso (Lyon – FRA), Oddo (Milan), Panucci (Roma).

– Meio-campistas: Ambrosini (Milan), De Rossi (Roma), Gattuso (Milan), Mauri (Lazio), Montolivo (Fiorentina), Pirlo (Milan).

– Atacantes: Di Natale (Udinese), Foggia (Cagliari), Iaquinta (Juventus), Lucarelli (Shakhtar – UCR), Quagliarella (Udinese), Toni (Bayern Munique – ALE).

– Esta é a seleção Trivela da sétima rodada:

– Buffon (Juventus); Lorini (Siena), Konko (Genoa) e Carrozieri (Atalanta); Kaká (Milan), Corini (Torino), Ambrosini (Milan), Mutu (Fiorentina); Borriello (Genoa), Gilardino (Milan) e Julio Cruz (Internazionale)