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A vitória da vocação para a derrota

O desastre brasileiro no Mineirão já vai longe – mais de duas semanas – mas ainda é tempo de se falar dele. Na verdade, apesar da maioria das pessoas não se dar conta, o jogo dos 7 a 1 é um evento histórico que gerará documentários, dissertações, livros e outras abordagens. Raramente as testemunhas de um evento histórico se dão conta de sua relevância na mesma hora. A história se consolida somente quando se transforma em passado e pode ser vislumbrada com um certo desprendimento.

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Felipão, e agora?

Um ninho de ratos nunca deixa de ser um ninho de ratos. A escolha do novo treinador da Seleção Brasileira não teve nada a ver com futebol e tudo a ver com política. O clamor popular só é envolvido nos discursos porque a massa gosta de pão e circo. Vibrei com a ida de Scolari em 2002, mas não estou certo de que em 2014 ele terá um caminho mais sereno. Apesar de ser um técnico com pedigree (em itálico, porque ele não é um cão), Scolari acabou tendo a pior campanha da sua vida premiada com a Seleção. Imagine se Ronaldinho Gaúcho, o das festas, baladas e noites em claro, no pior de sua forma, ganhasse convocação para a Copa como voto de confiança na recuperação de seu melhor futebol. A escolha de Felipão é, tecnicamente, mais ou menos a mesma coisa.

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A volta de Felipão

Brasil

Dez anos depois, Felipão volta à Seleção Brasileira. Foi um avanço em relação a Mano Menezes – até porque muitos outros nomes seriam – mas certamente não é garantia de tranquilidade. Felipão não consegue realizar um bom trabalho desde que saiu de Portugal e, tanto Chelsea quanto Palmeiras tiveram na sua insistência no mesmo grupo de colaboradores o seu maior inimigo. Scolari sabe que lealdade é decisiva num mundo onde os ratos campeiam (tanto no gramado como atrás dos microfones), mas seu grupo de assistentes, que há uma década foi eficiente, hoje não é o que existe de melhor. Além de ter de rever velhas escolhas baseadas na amizade, Scolari, que  é indiscutivelmente experiente e disciplinador o suficiente para o cargo,  agora precisará conseguir mais que resultados imediatos – precisará conquistar o apoio popular. A Copa será aqui e uma Seleção sem o apoio do torcedor não poderá embarcar num confortável vôo para a Ásia para escapar da pressão. O gaúcho já enfrentou muita pressão, mas nem em seus sonhos mais delirantes pode ter imaginado a pressão que enfrentará agora – a da obrigatoriedade de tirar do Brasil um trauma de 64 anos e que a maioria das pessoas nem sabe que tem. Scolari, boa sorte. Todos nós vamos precisar muito. Ainda que a CBF seja ocupada pelo mesmo tipo de insetos de sempre, ao menos Andrés Sanches agora terá de viver de favores de seus colegas do governo (ao que tudo indica, nós paulistanos teremos um secretário de esportes que não só não sabe chutar uma bola como não consegue falar português direito). Mas, afinal, se sustentamos tantos Sarneys, o que é um Andrés a mais?

 

Um Palmeiras abandonado

Ontem, ao saber do resultado do massacre sofrido pelo Palmeiras, me lembrei de uma imagem sintomática: a do Parque Antártica semidemolido, com o mato campeando e todos os fantasmas da história palmeirense arrastando suas correntes nuam das áreas mais nobres de São Paulo. O palmeirense tem por que chorar: sua diretoria tem a competência de um aglomerado de moluscos, seu patrimônio está jogado às traças e todo tipo de sanguessuga (incluindo as “oficiais”) estão arrancando a vida do Verdão.

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Pobre Palmeiras

Fazia tempo que não acontecia uma derrota tão dolorida em São Paulo. O Palmeiras assinou um atestado de óbito da incompetência generalizada no clube. Tem um elenco risível. Mesmo os jogadores considerados bons são supervalorizados. Não têm envergadura para defender um clube com as ambições do Palestra. Perder para um time do Goiás patético, que do rebaixamento não pode se lamentar em absolutamente nada, foi a pá de cal que o Palmeiras mão precisava num ano doído. Triste de ver – mesmo para não-palmeirenses. Tudo foi errado – posicionamento, talento, disposição, garra. Tudo.

A gestão de Belluzzo – lamento muito dizer – fracassou de verde e amarelo (a expressão aqui cabe como uma luva). É terra arrasada. Ou Situação e oposição se unem em torno de um projeto sólido (que hoje só pode ser personificado em Scolari – ainda que ele mesmo também tenha fracassado retumbantemente em seu retorno ao clube), ou 2011 tende a ser uma luta entre diretores medíocres brigando por espaço e o clube servindo como estacionamento de jogadores medíocres antes de uma transferência para um clube árabe ou japonês sem expressão.

Palaia, Tiririca e Brecht

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo”.

Bertolt Brecht, dramaturgo alemão

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Cartas marcadas

Um amigo que costuma ser bem informado sobre o que acontece dos dois lados de um muro na Barra Funda, me disse uma coisa sobre Scolari e o São Paulo. Já se suscitou a possibilidade de ele de fato ir ao São Paulo, mas a novidade está no que ele disse a mais. Há algo verde que pode interferir na tentativa Tricolor de substituir Ricardo Gomes.

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Scolari e a linguagem do medo

Todo mundo há de falar agora sobre a demissão de Scolari (até este blog). Especialmente no Brasil. Aparentemente o gaúcho foi enredado por uma trama de intrigas entre seus jogadores e acabou caindo por causa da falta de comprometimento deles. Mas não foi isso. Scolari caiu por sua própria responsabilidade.

Não, não há nenhuma crítica à competência de Scolari aqui. O ponto é que trairagem de jogador, o bicampeão da Libertadores já deve ter visto de todas as cores: desde o Grêmio até o Chelsea, duvido que Felipão tenha sido surpreendido por alguma atitude que ateste a falta de confiabilidade dos atletas.

O erro de Scolari aconteceu na assinatura de seu contrato. Apesar de ser um treinador excelente, Luiz Felipe subestimou alguns fatores culturais do futebol inglês, deixando alguns itens ao acaso ou sem a devida atenção.

O primeiro e mais óbvio diz respeito às contratações. Felipão herdou um time mais fraco do que em anos anteriores e nos nomes que ele queimou cartuchos, levou jogadores de sua confiança, como Deco e Bosingwa. Só que Deco não é jogador para carregar um time nas costas (especialmente se o time não quiser jogar) e Bosingwa bem menos que isso. Ao mesmo tempo, levava um nome multi-famoso para um setor que já tinha dois medalhões supervalorizados, Ballack e Lampard – este último, com o agravante de ter forte influência no vestiário. Pior ainda foram os “remendos” feitos por Felipão, como Mineiro e Quaresma. O primeiro não tem como jogar como titular nem no Wolfsburg (imagine no Chelsea); o segundo, é um jogador que aos 23 anos, já “flopou” como promessa em quatro clubes.

Segundo, Scolari tentou partir de um elenco montado. Um elenco que ganhava salários muito maiores do que suas capacidades mereciam, com muitos jogadores para várias posições e poucos para outras. Exemplos: Terry e Ricardo Carvalho fazem uma dupla defensiva excelente. Mas como ficam Alex e Ivanovic? Como fazer conviver Drogba e Anelka, dois goleadores, mas de características muito similares e com um caráter abaixo da crítica?

Taticamente, Scolari teria obrigatoriamente de fazer Ballack e Lampard esquentarem o banco, se era o caso de Deco jogar como titular, para assim poder armar o jogo com dois pontas abertos “a la Euller” e dois marcadores vorazes. Mas Scolari sabia desde o começo que não dava para colocar Ballack e muito menos Lampard no banco. E a tentação de tentar fazer o que não pode ser feito venceu.

Terceiro: Scolari, por não conhecer suficientemente a Inglaterra, acreditou que levar seu assessor de imprensa para a Grã-Bretanha fosse suficiente, mas não era. A assessoria de imprensa do técnico é muito mais famosa pelos atritos que consegue com jornalistas ao marcar entrevistas para seus “assessorados” do que outra coisa. E a mídia inglesa é um assunto à parte.

Dar certo na Premier League teria sido muito difícil, mesmo com o cuidado necessário: um tradutor desde o primeiro dia e principalmente uma assessoria de imagem, que todas as estrelas na Inglaterra têm. Não se trata de marcar entrevistas, mas mapear cuidadosamente os perigos (leia-se inimigos) que Scolari poderia fazer para diminuir a quantidade de ataques sofridos. Para lidar com a mídia brasileira, a assessoria de imprensa de Scolari basta, mas com a inglesa, não dá mas nem de MUITO longe.

Scolari teria de ter imposto algumas condições no Chelsea, além do supersalário: refazer o elenco, vendendo pelo menos 30/40% do grupo, um ano de “carência” de títulos e aposta em jogadores mais novos e fortes técnica e fisicamente do que Deco e Mineiro. O seu estilo pautado em comprometimento e caráter dá certo com jogadores que o conhecem – e mais que isso, o temem e que depois, podem vir até a ter uma relação de amizade. Caras como Terry, Lampard e Drogba acham que o gaúcho é um zero à esquerda e que nada pode atingi-los.

Felipão, como Luxemburgo, fracassou na Europa dos clubes porque não exigiu o suficiente: poder total para poder impor o terror e enquadrar quem fosse necessário sem ter de dar satisfação a ninguém. Luxa é respeitado no Palmeiras porque seus jogadores sabem que ele pode ferrar as suas carreiras. No Chelsea e no Real Madrid, os dois treinadores estavam “tendo uma oportunidade”. No Brasil, eles mandam. E essa diferença, é a única linguagem que 90% dos jogadores respeitam. A linguagem do medo, no futebol, é a única que leva a algum lugar quando o assunto é não ser trairado.

PS: e como escreveu Lédio Carmona no seu blog, Dunga que se cuide…

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