"Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma nao é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor."
(O Mar Português - Fernando Pessoa)

Seis vitórias consecutivas na Premier League. Após um início de temporada cercado por críticas, o Manchester United demonstra em campo que suas contratações mais caras foram acertadas, e que a mais importante delas, o técnico português José Mourinho, segue muito lúcido.

Tal qual os outros clubes da Premier League, o United se submeteu às duas últimas rodadas do torneio, que ocorreram entre a última sexta-fera e a última quarta-feira. Noutras palavras as rodadas 19 e 20 do torneio aconteceram ininterruptamente, nos últimos seis dias.

Os red devils viraram o turno ainda na sexta colocação, agora com 39 pontos. Na décima nona rodada a equipe bateu o Middlesbrough de virada (2×1) e na última segunda-feira pela vigésima rodada, o time venceu o londrino West Ham por 2×0. É preciso lembrar que durante o primeiro turno, cogitou-se até uma “falta de sorte” por parte de Mourinho.

Entretanto com a equipe tendo força para virar uma situação adversa contra o “Boro” nos últimos minutos da segunda etapa, e a vida facilitada contra o West Ham que teve Sofiane Feghouli expulso com apenas 13 min de jogo, parece que competência e sorte, estão andando juntas.

Mourinho não blefava, nem contava vantagem que não havia quando ironizou a situação que o United vivia por volta de dezembro, afirmando que o time “jogava bem” e por isso “as cabeças ainda não haviam rolado”. No ocasião, os red devils selavam a classificação para a fase 16-avos de final da Europa League.

Daqui ao fim da temporada

O título da Premier League ainda se vê distante, detalhe que o próprio Mourinho já assumiu enquanto conquista muito difícil, no começo de dezembro. Chelsea (líder) e Liverpool (vice-líder) não perderão o boost físico, uma vez que estão privados de disputas das copas continentais europeias. Seus elencos sofrerão menos desgaste.

Acima de sua colocação o United vê o Tottenham Hotspur (terceiro), o rival municipal City (quarto) e o Arsenal (quinto) em situações inconstantes. Os três e o próprio United dividirão as atenções com a liga nacional e Champions League/Europa League, o que garantirá possíveis indisponibilidades por lesões e desgaste físico.

Mata (ao centro de branco) no lance do seu gol contra o West Ham.  (Reuters)

Mata (ao centro de branco) no lance do seu gol contra o West Ham. (Reuters)

Uma suposta lua de mel entre a torcida do City e Pep Guardiola não mais há, cessando quaisquer comparações entre os rivais de Manchester. O nível competitivo da Premier League acima de qualquer outra liga nacional mundial se materializa, com Guardiola e Mourinho vivendo temporadas muito difíceis. Em relação a Guardiola, Mourinho possui uma rodagem muito maior e vitoriosa no futebol inglês.

O elenco do United contém peças superiores às do Tottenham, além de um sistema defensivo mais confiável que o do Arsenal, que por sua vez começou a demonstrar a irregularidade que o acomete antes do turno virar, já a alguns anos. A defesa gunner sofreu 22 gols até o momento, ao passo que a do United foi vazada 19 vezes.

Apesar dos problemas de lesões entre defensores com os quais Mourinho teve de lidar entre setembro/novembro de 2016, a defesa do United é terceira menos vazada da Premier League. Está atrás apenas dos 15 gols sofridos pelo Chelsea e dos 14 tentos que vazaram a meta do Tottenham.

Fora isso, a tendência é a de que o elenco numeroso dos red devils faça a diferença na reta final da temporada, em relação aos citados adversários de Londres. O Manchester City pode ter que lidar com um desgaste físico e mental, uma vez que possui condições plenas de avançar pelo mata-mata da Champions League.

A nau red devil

A sequência de seis vitórias consecutivas se dá dentro de um quadro que engloba onze partidas sem derrotas. São quatro empates e sete êxitos na Premier League. A última derrota foi em outubro, diante do Chelsea. Desde o início José Mourinho sabia para qual rumo sua nau vermelha estava indo.

Quando deixou o Chelsea no fim de 2015, Mourinho passou a impressão de ser um treinador em fim de carreira. Porém, hoje é fácil pressupor que tipo de vestiário o lusitano tinha em Cobham. De um lado, diretoria e velhos pupilos (Cech, Terry, Mikel, Lampard, Drogba) acatavam as suas vontades.

De outro atletas responsáveis pelas conquistas blues da Champions League em 2012 e Europa League em 2013, êxitos de um período sem ele Mourinho, eram preponderantes (Torres, Mata, David Luiz, Oscar, Hazard). Mou tinha um vestiário rachado e a desavença com a médica Eva Carneiro no início da temporada 2015/2016, fora o estopim. Carneiro era também um ícone do pós-primeira gestão de Mou, trazida entre 2011 e 2012 pelo técnico André Villas Boas.

No United para além da artilharia de elite (Ibrahimović, Pogba, Rooney), Mourinho reabilitou marujos sem confiança e/ou que poderiam deixar a tripulação (Jones, Darmian, Rojo). Deu moral a um marujo de glórias passadas que pode estar em sua última jornada (Carrick), assim como a um jovem tripulante que pode ser uma bandeira no futuro (Rashford). Confiou ainda num suposto desertor/desafeto dos tempos de Chelsea (Mata). Não parece haver desarmonia nos vestiários de Old Trafford.

Se por um lado vencer a Premier League é algo remoto, por outro Europa League (a equipe enfrentará o francês Saint-Étienne em fevereiro), FA Cup e Capital One Cup (copa da liga), são êxitos perfeitamente possíveis.

Nas próximos dias o United e os times ingleses se dedicarão à FA Cup e a copa da liga. Os red devils enfrentam o Reading em Manchester no sábado, pela terceira rodada da FA Cup. Na próxima terça-feira 10/01 a equipe receberá o Hull City, em partida de ida das semifinais da copa da liga.

A Premier League só volta a ter partidas no próximo dia 14 de janeiro.

Imagem de Mourinho: Rui Vieira/AP