Na quarta-feira, no Pacaembu, o menino dourado do Santos, Neymar, deu a sua primeira prova de maturidade. Sim, foi a primeira. Em nenhuma outra partida realmente decisiva e relevante do Santos, Neymar havia sido o que se espera de um jogador com suas ambições.  Mesmo reconfortado de jogar ao lado de Ganso, Neymar jogou como o jogador que se espera dele. Isso não é pouco.

Não, Ganso não chegou nem perto da performance de protagonista que Neymar teve. O meia está há bem mais de um ano sem uma sequência de jogos. Mal assessorado, ele está tendo sua carreira encaminhada para encher o bolso do grupo DIS e nada mais;  está envolvido num furacão de rumores há meses e ainda assim, conseguiu jogar muito bem. Mais que isso: deu segurança para Neymar jogar o que sabe.Crescendo...Ganso e Neymar

Cabe uma outra observação: a segurança que Neymar tem quando joga com Ganso não indica que ele seja uma fraude nem que seja um fracassado. Significa que ele tem 19 anos. Neymar não é o novo Pelé, por mais talentoso que seja. Se consolidar tudo o que pode fazer e chegar ao nível de Messi, por exemplo, seria absolutamente fabuloso, mas ainda não é a realidade. Sempre que jogou sem Paulo Henrique, Neymar esteve abaixo de sua capacidade. Se era contra um adversário mais fraco, brilhava mais; contra um mais forte, menos. Algo rigorosamente normal, mas que deve servir para os gestores de sua carreira avaliarem se é a hora de jogá-lo na panela de pressão que é ir para Real Madrid ou Chelsea. Neymar ainda é jovem e ainda precisa ser tutelado. Aos santistas, vale lembrar que o carnaval feito ao redor do jovem Robinho não era menor do que o em torno de Neymar.

Falando sobre a Libertadores, a prova de maturidade não foi só de Neymar e de Ganso. Foi do Santos como clube, que abriu mão da bobagem de falar de DNA ofensivo; foi do time, que jogou preocupado em manter a bola mais do que dar show; foi de Muricy, que controlou os próprios nervos para fazer o time render o que podia numa final tão importante. A Libertadores não é absolutamente um torneio de grande técnica. Com a falência de River e Boca Juniors nas últimas duas décadas, é um torneio duríssimo, mas sob o ponto de vista psicológico. Não deve haver ninguém que consiga argumentar que o Cerro Porteño ou o Peñarol são esquadrões geniais, nem que o Once Caldas meta medo em quem quer que seja. Muricy sabia disso e fez o que precisava fazer – deu calma ao time. Tecnicamente, o Santos era melhor do que qualquer rival sulamericano, mesmo tendo um time limitado em vários pontos. Bastava organização, firmeza psicológica e dois jogadores estrondosamente acima da média.

Os méritos da conquistas são inequívocos: o time resolveu suas falhas mais gritantes, recuperou seu jogador mais importante coletivamente (Ganso), doutrinou Neymar a jogar mais dentro dos objetivos do time, controlou os nervos no momento crítico em que corria risco de não se classificar na fase de grupos, buscou um técnico mais competente que os outros (e que por burrice dos cartolas de outros clubes, estava sem emprego) e não permitiu que o DIS determinasse sozinho o futuro de Ganso. Talvez o torcedor santista, no afã da vitória, queira uma glorificação verbal similar ao do Barcelona de Messi. Ele tem direito, porque em sua paixão, tudo é possível. Na prática, não existe comparação.

Contudo, para o confronto de dezembro entre Peixe e Barça, o Santos tem chances – e muitas. Numa partida seca, qualquer coisa pode acontecer. Havendo dúvidas, basta perguntar aos torcedores do Internacional sobre o Mazembe. O São Paulo bateu um Liverpool muito melhor, o Velez bateu um Milan superior, isso só citando embates do Mundial. Defendendo-se bem, marcando Messi e rezando para o argentino acordar menos inspirado, Neymar e Ganso em forma têm todas as chances de derrubar um dos melhores times de todos os tempos. E se isso acontecer, quem entra para a história é o Santos. E não importará que Elano, Durval e Arouca não se comparem a Piqué, Iniesta e Xavi.