Não importa a época, a circunstância ou o momento. Sempre que o Milan perder em casa para o Empoli, uma luz vermelha terá de, obrigatoriamente, se acender no vestiário ‘rossonero’. Pode ser que algum dos três aspectos acima sirva para explicar ou até justificar o incidente. Mas a investigação tem de ser feita.

No caso da derrota do último domingo, a luz vermelha permaneceu acesa. E assim deve ficar, pelo menos até que técnico e elenco diagnostiquem e resolvam as causas das más apresentações recentes. Contudo, a verdadeira raiz do problema não é só esportiva e, pelo que tudo indica, só poderá ser atenuada em janeiro, quando reabrir a janela de contratações.

O Milan veio para esta temporada depois de mais um mercado equivocado. O ‘mais um’ serve como agravante, porque o mesmo deslize aconteceu na temporada anterior, mas naquela ocasião, a incerteza da entrada ou não na Liga dos Campeões (que poderia limitar a verba de contratações) era um atenuante. Agora, nem isso.

Não, o Milan não perdeu nenhum de seus campeões europeus no último mercado e, teoricamente, até ganhou um, já que Ronaldo não estava naquele elenco (só podia jogar pelo campeonato). ‘E se deu certo no ano passado, por que não agora?’. Ledo engano.

O Milan errou em achar que sempre poderia contar com um Kaká estratosférico duas vezes por semana. Kaká ainda está jogando bem, assim como Seedorf, por exemplo. Mas o time tem lacunas demais para que seus craques possam decidir sozinhos. As fases do brasileiro e do holandês na reta final da última LC eram alienígenas. Agora, eles estão jogando “só” como ótimos jogadores.

Agora, remendar o time não dá. Some-se a isso o imbróglio com a lesão muscular de Ronaldo e a má fase de Dida e o panorama que já era arriscado em junho transforma-se em uma roubada.

Os pontos fracos do time

Antes de mais nada, é preciso lembrar que o adjetivo “fracos” cabe para um time que tem a pretensão de vencer, como o Milan, tudo o que disputa. Posta a observação, sim, o Milan tem buracos no seu time que não deveria ter e que poderiam ter sido resolvidos com uma certa facilidade no mercado.

O início é mesmo no gol. Dida voltou a passar por uma fase insegura e irregular. A trapalhada de Glasgow, que lhe custou uma suspensão, só reforça isso. O que aperta o calo do Milan é o fato de que em julho, o clube estava acertado com o goleiro Buffon, de longe o melhor do mundo e a transação não foi adiante por intervenção de Silvio Berlusconi (que achou o valor, €30 milhões, muito alto). Na brincadeira, o Milan ainda renovou com Dida, por €4 milhões ao ano e por 4 anos. O problema é difícil de se resolver, tanto pelas opções, que são poucas, como pela dificuldade de se livrar do salário alto do brasileiro.

O setor defensivo, apesar de mais velho do que o desejado, não é o problema mais sério. Com Nesta, Kaladze, Simic e Bonera (além do veterano Maldini, que não se poupará durante a temporada), a zaga central está razoavelmente coberta. Pelas laterais, não há um drama sério, com Oddo e Jankulovski de titulares e Cafu e Favalli de opção. A situação poderia ser mais tranqüila, com menos nomes idosos (Cafu, Favalli, Serginho e Maldini têm todos mais de 35 anos), mas é contornável.

O meio-campo é o único setor sem ressalvas. Para o esquema que o Milan joga, sem jogadores de faixa no setor (as incursões de inlha de fundo cabem aos laterais), o elenco é inigualável. A linha titular é uma das melhores do mundo (Gattuso, Pirlo, Seedorf e Kaká), com uma gama de alternativas excelente (Ambrosini, Emerson, Gourcuff e até o limitado, mas versátil, Brocchi).

A coisa fica realmente séria é no ataque. Na última temporada, o Milan perdeu Shevchenko e cometeu o erro de iniciar a temporada com Gilardino, Inzaghi, Ricardo Oliveira e Borriello. Desses, só Inzaghi segurou a bronca como devia. Neste ano, os dois últimos deram lugar a Ronaldo – nitidamente um jogador à altura – mas que tem se lesionado mais do que devia. Para piorar, Inzaghi não está no seu momento mais brilhante e Gilardino, sem confiança, está em péssima fase (quase deixou o clube meses atrás). Ah, sim, tem Pato, mas o ex-colorado só poderá atuar em janeiro.

Resumindo, não tem quem empurre a bola para dentro. Especialmente quando Kaká não joga, a capacidade de conclusão do Milan é próxima de zero. Gilardino é um fantasma e a volta de Ronaldo para ele é urgente. Para ele? Sim, para ele: com Ronaldo como centroavante, ‘Gila’ fica com a incumbência de puxar a marcação para fora da área, que é a sua vocação.

O Milan volta a falar em “voltar ao mercado” em janeiro, mas até lá as chances do clube podem estar definitivamente comprometidas. Ter pensado que a capacidade de superação do ano passado seria suficiente mais uma vez foi um erro crasso. Faltam pelo menos três jogadores no elenco – e três titulares – para a falha se resolver. Agora, Carlo Ancelotti tem de se virar com o que tem. Dá? Ninguém sabe.

Uma Fiorentina sob medida

Hoje a quatro pontos da liderança, a Fiorentina afinal faz uma campanha à altura do investimento, elenco e capacidade que se encontram no Artemio Franchi. No domingo, o 3 a 0 sobre o Siena – um rival fraco, é verdade – foram uma prova de força. Nem tanto pelo resultado quanto pelo volume de jogo.

Depois de várias tentativas, Cesare Prandelli achou o esquema tático mais adequado ao seu time, A vocação ofensiva de seu elenco moldou um 4-3-3 que tem um centroavante (Pazzini) e dois externos ofensivos, outrora chamados ‘pontas’, que ao contrário destes, retornam ao meio-campo para marcar e iniciar as jogaras de ataque.

Boa parte do sucesso da Fiorentina se sustenta no modo como os toscanos se defendem. Prandelli tem usado dois medianos (no domingo, Liverani e Donadel) diante da defesa que se movem para cobrir os avanços dos laterais e impedir que os zagueiros saiam no mano-a-mano com os atacantes. Com a bola, os dois sabem impor o jogo e avançam puxando o time todo para a frente com um passe refinado.

A armação do jogo fica a cargo de Riccardo Montolivo, provavelmente o melhor armador jovem italiano. Montolivo faz uma função similar à de Andrea Pirlo na seleção, distribuindo a bola para o ataque. Nesta tarefa, ele tem o auxílio do romeno Mutu, que parte do meio para a lateral, visando abrir a defesa adversária. Como Mutu pode jogar de armador também, a Fiorentina ganha em criatividade. Do outro lado, um externo (Semioli ou Jorgensen) adiciona menos criação, mas mais velocidade e jogadas de fundo.

O trabalho ofensivo culmina no centroavante. Este centroavante é Pazzini, que faz a ‘Fiore’ não lamentar a saída de Luca Toni. Pazzini aind anão tem a cancha do campeão mundial, mas é até mais versátil, podendo fazer a ‘torre’ como Toni, mas com mais agilidade para vir com a bola da intermediária.

Pelo tamanho do elenco, é possível apostar em uma permanência da Fiorentina entre os quatro que vão à LC do ano que vem. Prandelli é inteligente o bastante para gerenciar suas forças até o fim do campeonato e o alcance do time ‘viola’ depende muito de quanto seus jogadores mais promissores (Montolivo, Pazzini, Kuzmanovic, Osvaldo) evoluirão. O começo de temporada foi excelente. Aguardemos para ver o desfecho.

A turma da corda no pescoço (Livorno, Reggina, Siena, Parma)

Com apenas oito rodadas, alguns times já se acotovelam por uma vaga na zona vermelha da tabela – ou para sair dela, dependendo de como você quer ver. Quatro clubes, juntos, fizeram até aqui, somente 18 pontos – menos do que a líder Inter e só um ponto a mais do que a Juventus segunda colocada.

A situação mais dramática é a do Livorno. Além dos dois míseros empates em seis jogos, o clube toscano não aparenta ter força para um empuxo extra antes de janeiro, quando poderá contratar reforços. Exceção feita ao goleiro Amelia (que ficou de fora por algumas rodadas por estar “deprimido” pela sua permanência no clube), todo o elenco parece mesmo de segund alinha. O novo técnico, Alberto Camolese, é um ótimo profissional, mas precisará ter uma ajuda externa (leia-se contratações) para não precisar fazer milagre).

A Reggina, protagonista de uma ‘salvezza’ incrível no último campeonato (onde saiu com uma punição de 11 pontos), também está em maus lençóis. Um bom treinador (Ficcadenti) não é o suficiente para compensar a saída de um técnico que já tinha um liame com o clube (Mazzarri, hoje na Samp) e de nomes como Rolando Bianchi, hoje na corte de Eriksson no Manchester City-ING. Quatro empates não são um bom augúrio e o elenco também não dá aquela empolgação. Alguns jogadores, como Missiroli, Tullberg e Alvarez talvez possam vir a render mais, mas não há uma expectativa sensacional sobre eles.

No Siena, a frágil presa da Fiorentina deste final de semana, as expectativas também não são espetaculares. Jarolim, Maccarone, Galloppa e Locatelli, pelo menos, são nomes que podem segurar um time na Série A, mas precisam de um melhor rendimento de apostas como Grimi (que não tem ido mal), Corvia e Forestieri. O técnico Mandorlini é freqüentemente acusado de dar menos atenção à defesa do que deveria. Este pode estar sendo o caso.

Por fim, o Parma, o último na ‘tropa dos desesperados’, é o que ainda tem mais potencial para desenvolver. Todo o meio-campo titular, por exemplo (Dessena, Cigarini, Morrone e Gasbarroni) é tido como muito promissor e de fato jogou muito mais bola no final de temporada passado. O ponto-chave para o técnico Domenico Di Carlo (autor de uma campanha excepcional com o Mantova na última Série B) é a utilização de Domenico Morfeo. Di Carlo não gosta de usar ‘trequartistas’, mas não tem como deixar o rebelde armador no banco. Se conseguir acertar um esquema defensivo que concilie a entrada de Morfeo no time, Di Carlo deve ver o seu time engrenar até com certa facilidade.

Curtas

– Esta é a seleção Trivela da 8a rodada:

– Balli (Empoli); Siviglia (Lazio), Grygera (Juventus) e Comotto (Torino); Di Natale (Udinese), Mutarelli (Lazio), Conti (Cagliari), Inler (Udinese) e Adriano (Atalanta); Pazzini (Fiorentina) e Amauri (Palermo)