Quando uma seleção campeã do mundo se apresenta em Torshavn, capital das pequenas Ilhas Faroe, espera-se, na pior das hipóteses, uma vitória tranqüila. Para se ter uma idéia a Geórgia, que jamais disputou uma Copa do Mundo, fez 6 a 0 no selecionado local.

Vendo por esse prisma, quando se constata que a Itália conseguiu sim, vencer o combinado nórdico – composto por amadores – mas com um modestíssimo 2 a 1 (garantido por uma defesa de Buffon nos segundos finais), percebe-se que o rendimento da ‘Azzurra’ de Roberto Donadoni está para lá de insatisfatório. “Se eu tivesse sofrido um segundo gol, teria feito minhas malas e ido embora”, afirmou o goleiro Buffon.

Se não fosse o onipresente Inzaghi, recém-coroado campeão europeu, tendo feito dois gols na final da Liga dos Campeões com o Liverpool, talvez a Itália pudesse ter viajado para a Lituânia (onde joga na quarta-feira) com uma derrota épica, equivalente à sofrida em 1966 para a Coréia do Norte de Pak-Ik Dok. E haja preocupação.

Donadoni, é verdade, não tinha vários titulares para a partida em Torshavn. Nesta (se casou no dia da convocação), Grosso (contundido), Totti (não sabe se volta à seleção), Iaquinta (contundido), Zambrotta (contundido), Ambrosini (contundido) e Gilardino (contundido) não estavam disponíveis. Ainda assim, o mau futebol mostrado pela Itália assustou.

O treinador italiano tentou fazer um esquema super-ofensivo, com Inzaghi apoiado por três incursores (Del Piero, Rocchi e Diana), mas contra um time quase que puramente físico, talvez tivesse sido melhor mandar a campo um meio-campo ainda mais forte com somente Del Piero e Inzaghi na frente.

O jogo contra a Lituânia, em Kaunas, nesta quarta-feira, é desesperadoramente decisivo para a Itália. Com o sucesso francês sobre a Ucrânia, os ‘Bleus’ abriram dois pontos de vantagem que têm de ser, na pior das hipóteses, mantidos até o confronto direto em 8 de setembro, em Milão.

Em Kaunas, Donadoni terá as voltas de Ambrosini e Zambrotta, que possibilitarão um time mais técnico e experiente. A presença do milanista (ao lado do companheiro Gattuso) daria uma maior posse de bola à Itália, enquanto o jogador do Barcelona seria uma segurança aliada à maior pressão em descidas pela esquerda.

O uso de um 4-3-1-2, com três volantes excelentes (Gattuso, De Rossi e Pirlo), atrás de um armador (Totti?) soa, no momento, como a alternativa mais segura para a seleção ideal da Itália neste momento. O problema é saber se os jogadores estão a fim a de ajudar o técnico ou se querem puxar o tapete dele. A resposta virá em setembro com o confronto de Milão.

Ilhas Faroe 1 x 2 Itália

Gols: Inzaghi aos 13min e aos 48min; Jacobsen aos 77min.

Ilhas Faroe (4-4-2): Mikkelsen; Danielsen, Johannessen, J.Jacobsen, Djurhuus; Borg (Samuelsen), Olsen, Thomassen, Ch.Jacobsen R. Jacobsen, Flotum (Holst )
Técnico: J.M.Olsen

Itália (4-2-3-1): Buffon; Oddo, Materazzi (Barzagli), Cannavaro, Tonetto; Gattuso, Pirlo; Diana, Rocchi (Quagliarella), Del Piero; Inzaghi (Lucarelli).
Técnico: Roberto Donadoni

Drama sem fim

Intervalo das partidas da penúltima rodada da Série B no domingo passado. Naquele momento, Genoa e Napoli cravavam a asseguração matemática de suas promoções e poderiam deixar a última partida da temporada – exatamente entre ambos – como um simples dias de festa para a celebração de uma suada vaga na Série A que vem.

Mas não era para ser assim. Um gol do Piacenza nos últimos minutos do jogo contra o Vicenza e principalmente um tento realizado pelo Mantova, em cima do Genoa aos 94min fizeram a situação do clube lígure ficar dramática. Para garantir a vaga sem ter de correr o risco de enfrentar um playoff, o Genoa precisa bater, em casa, exatamente o seu concorrente Napoli – para quem basta um empate.

A situação do Genoa é dramática porque se o time na terceira posição não terminar a temporada com pelo menos dez pontos de vantagens sobre o quarto colocado, a última vaga na divisão máxima é disputada em um playoff – no qual tudo pode acontecer.

Hoje, o Napoli tem 78 pontos e o Genoa um a menos, seguidos pelo Piacenza que está a dez pontos de distancia. O incômodo para napolitanos e genoanos é que dependendo do resultado da partida do estádio Marassi, em Genova, o clube piacentino pode encerrar o campeonato a menos de dez pontos do terceiro colocado, fazendo com que o playoff envolva o terceiro colocado (Genoa ou Napoli), Piacenza e o quinto e sexto colocados (hoje, Rimini e Mantova).

No final da partida contra o Mantova, o atacante Marco Di Vaio, do Genoa, chorava como uma criança ao se dar conta de que a derrota inesperada para os adversários colocava em risco toda a temporada. Tivesse vencido, Genoa e Napoli estariam a salvo, mas agora têm de se enfrentar numa partida em que o perdedor pode por todo o ano em risco.

O Piacenza pega, em casa, uma Triestina que ainda precisa de pontos para evitar o playout (que define o último rebaixado). A semana promete uma imensa tensão para o termino de uma Série B que esteve entre as melhores de todos os tempos.

Genoa e Napoli merecem subir para a primeira divisão não somente pelas suas significâncias históricas, mas por uma campanha na qual estiveram sempre um passo à frente dos rivais, senão em pontos, em qualidade de jogo. Se houver playoff, certamente aquele que o enfrentar surge como favorito, mas nunca se sabe. Além de Mantova e Rimini, Bologna e Brescia ainda podem conseguir as vagas no playoff, que seria uma pedreira para qualquer time.

Nasce a Juventus de Ranieri

Nesta segunda-feira, a Juventus fechou contrato com o treinador que deve conduzir a equipe nas próximas três temporadas. Claudio Ranieri, 56 anos, romano de nascença, ganhará €800 mil por ano (bem menos do que Vanderlei Luxemburgo recebe do Santos). E o que isso quer dizer?

Primeiro, que a Juve não está a fim de fazer experiências. Na mídia, surgiram boatos sobre a possibilidade de se contratar ex-juventinos como Antonio Conte, Ciro Ferrara ou Gianluca Vialli (este último, sempre pródigo em plantar notícias de uma possível contratação sua). A diretoria quer alguém que já tenha rodagem para reconstruir o clube na Série A.

Mas mais importante do que isso é a sinalização do clube de que a idéia não é sair logo apostando no título, mas sim na montagem de um grupo sólido visando o futuro. Ou seja: não espere uma enxurrada de contratações de impacto, promessas de título ou declarações desafiadoras seguidas do bordão “porque somos a Juventus”. A idéia da ‘Vecchia Signora’ é se reestruturar. No que faz muito bem.

A troca de divisão para qualquer clube – mesmo uma potência como a piemontesa – é traumática. Não basta a contratação de dois ou três craques. Todo o elenco é redimensionado e é preciso um ganho de qualidade em todas as posições. Na realidade, só jogadores jovens que possam melhorar é que têm um futuro.

Verdade: uma parte do elenco que caiu e permaneceu com a Juventus na Série B tem nível para voltar à divisão máxima. São os casos de Buffon, Chiellini, Nedved, Del Piero, Camoranesi, Marchionni, C. Zanetti, Giannichedda, Bojinov, Trezeguet e alguns outros. Mas muitos desses, como Nedved e Del Piero, já tem uma certa idade e não ficarão em alto nível por muitas temporadas mais.

Apostando na segurança

Assim, a direção juventina aposta na direção correta: ao invés de enganar a torcida e correr riscos grandes gastando os tubos, indica-se o caminho de uma reconstrução gradual, que pode levar duas ou três temporadas para voltar ao vértice – mas daí, para ficar definitivamente (segundo Ranieri, a Juventus disse que pretende voltar ao ápice em cinco temporadas).

O planejamento seguro da direção do clube vai além da chegada de Ranieri. Vale lembrar que a Juventus está construindo um estádio próprio, com cerca de 40 mil lugares, que deve dar um empuxo ainda maior à sua estabilidade econômica. Nesse ponto é que o técnico deve dar a sua contribuição.

Ranieri tem uma carreira bastante longa. Tendo passado por Napoli, Cagliari, Fiorentina, Valencia, Chelsea, Atlético Madrid e Parma, ele já dirigiu clubes de diferentes portes – exceto um realmente de ponta. A Juventus, ainda que vindo de uma temporada na Série B, fecha esta lacuna.

Apresentação infeliz à parte (Ranieri disse que “dava as boas vindas ao Torino”, quando na verdade ocorre o contrário), o romano é um treinador de recursos. Ele pegou a Fiorentina na Série B, a promoveu e venceu uma Copa Itália duas temporadas depois; no Valencia, revelou uma baciada de bons jogadores (Mendieta, Angulo, Albelda) e, pegando o time na zona de rebaixamento em 1997, deixou o clube na Liga dos Campeões (seu sucessor, Hector Cúper, chegaria à final da LC duas vezes em seguida).

Quando chega a um time, Ranieri prefere montar a equipe iniciando pela parte defensiva. Dado que a Juve tem uma retaguarda com bons nomes e marcadores igualmente eficientes, é de se esperar que, com o entrosamento, o time venha a ser uma das melhores defesas do campeonato.

Os escolhidos

E esta, finalmente, é a Seleção Trivela do Campeonato Italiano

Frey (Fiorentina); Ujfalusi (Fiorentina), Zapata (Udinese), Chivu (Roma); Oddo (Milan e Lazio), De Rossi (Roma), Cambiasso (Inter), Stankovic (Inter); Kaká (Milan); Totti (Roma) e Ibrahimovic (Inter).

Reservas: Manninger (Siena), Raggi (Empoli), Tonetto (Roma), Barzagli (Palermo), Perrotta (Roma), Mauri (Lazio) e Suazo (Cagliari).