A arrancada inicial do Milan fez muita gente imaginar em uma luta pela liderança quase imediata. Fazia sentido: o time estava jogando bem, Ricardo Oliveira estreou apavorando e Inzaghi fazia gols até quando tomava água San Pellegrino. O velho ‘trend’ milanista estava em plena forma.

Sinceramente, bem poucos imaginavam que o time entraria numa fase obscura onde o problema fosse marcar gols. De repente, o time que se notabilizou nos últimos anos pelo futebol mais ofensivo da Itália encalhou e agora já não anota um gol mísero há três partidas.

Culpa dos atacantes? Não dá para não negar uma parte do problema à dupla de avantes Ricardo Olveira-Gilardino. Ancelotti está dando espaço aos dois porque sabe que precisa fazer crescer a auto-confiança de dois atletas que estão sendo colocados em dúvida. Nessas, Pippo Inzaghi fica de fora, quando poderia estar deixando sua cota tradicional de tentos.

Ricardo Oliveira era um problema esperado. Todo jogador que faz a rota Espanha-Itália sofre para se adaptar e nem sempre consegue. O futebol espanhol é uma baba de moça para qualquer atacante de razoável categoria. Chegando na Itália com a marcação infinitamente mais dura, zagueiros muito melhores e um ritmo mais lento que dificulta os contra-ataques, e os atacantes se vêem em apuros.

Mas Gilardino está sofrendo de uma falta de confiança inexplicável. Depois de uma temporada de estréia boa (17 gols em 34 partidas), o atacante italiano pena para provar que é o que pareceu ser: um goleador ‘world class’. O problema talvez seja exatamente que ele tenha se convencido disso (quem não se lembra da comemoração tocando violino no gol contra os Estados Unidos na Copa?), mas agora, na seca, a máscara virou insegurança.

Só que não é tudo: o meio-campo milanista está sofrendo para impor seu ritmo, muito provavelmente porque deve ter tido uma pré-temporada pesada, para chegar com fôlego no fim de maio. Kaká e Seedorf alternam bons e maus momentos e até o maratonista Gattuso se cansa de vez em quando.

Qual a saída? Bem, o time deve começar a fazer gols mais cedo ou mais tarde e para sorte da torcida ‘rossonera’, a maior rival é a Inter – onde confiança não é a palavra de ordem. O maior problema é a seca ofensiva se estender e se transformar e vontade de transferência para algumas peças-chave (Kaká na primeira fila). Se Carlo Ancelotti perder a afeição do grupo, tudo ficará mais difícil.

Palermo: a surpresa positiva

Enquanto o Milan tem uma surpreendente crise ofensiva, a Inter mantém sua sina de decepcionar, dois times saíram com o pé direito. O primeiro é a Roma. Contudo, mesmo com os bons resultados no Olímpico, quem está com os holofotes é o Palermo.

E é uma surpresa? Médio. Na verdade, a posição palermitana é uma soma da superação do próprio time com a crise de resultados interista. Dava para imaginar que o clube siciliano iria bem nesta temporada, mas não no passo atual.

Com Francesco Guidolin no comando, o Palermo indicava uma volta à utilização de um futebol bastante italiano. O regente Eugenio Corini, criticadíssimo no começo da temporada passada com o 4-4-2 de Luigi Del Neri, voltou a ter o ambiente ideal para seu jogo cadenciado. Mesmo também adotando um 4-4-2, o Palermo de Guidolin joga com uma linha de meio-campistas onde somente Bresciano tem natureza ofensiva, o que não obriga Corini a correr mais do que pode.

No Bologna e antes na Udinese, Guidolin já mostrara suas qualidades como treinador (embora tenha fracassado redondamente no Monaco). Sua Udinese era menos ‘italiana’ do que o Bologna de três anos atrás, mas ainda assim, carregava ‘guidolinismos’.

Mas um alerta aos ‘rosanero’ que estão entusiasmados: os times do treinador também têm o hábito de fazer uma preparação física que dá empuxo inicial, mas que sofre no fim. Não será surpresa se o Palermo perder o gás no segundo turno, e tanto menos se o seu presidente, Maurizio Zamparini, ameaçar trocar de técnico.

Torino: a surpresa negativa

Na outra parte da tabela, o Torino decepciona. Ninguém esperava um futebol devastador do time de Turim – que vive uma temporada de glória com a Juventus na Série B – mas é bem certo que se esperava mais do que foi apresentado até agora.

Depois de suas más experiências em Lazio e Inter, o técnico Alberto Zaccheroni resolveu deixar o seu esquema 3-4-3 de lado. E até agora, imagina-se que ele esteja se arrependendo. Seu Torino foi classificado como “difícil de ver” pelo Corriere Dello Sport e os dois pontos coletados até agora não dão margem para muita discussão

Zaccheroni trabalha novamente com Abbiati, que é um goleiro sabidamente seguro, ainda que não dado a defesas fantásticas (nem a frangos incríveis) como Dida. Sua retaguarda também tem nomes experientes, como Pancaro, Comotto e Di Loreto. Mas então por que não vai?

As críticas maiores recaem sobre um meio-campo de três volantes (Barone, Gallo e De Ascentis). O sistema sacrifica o ataque, onde somente um jogador tem de se bater entre os zagueiros. Ainda segundo os críticos mais freqüentes, um módulo com dois atacantes é necessário para dar dinâmica ao time.

A verdade é que o Torino precisa reencontrar o melhor Fiore, e para tanto, vem à lembrança a Udinese de Francesco Guidolin. O meia, que vem de temporadas ruins no Valencia e Fiorentina, age melhor quando parte de trás. Ele próprio diz que seu melhor futebol aparece quando joga como meio-campista puro, mais pela esquerda.

As perspectivas não são boas para o Torino. Já se gala em troca de treinador e isso seria a morte quase que certa (embora a temporada passada tenha visto algumas trocas de técnico darem certo). Para Zaccheroni, o momento é ainda mais duro, Se ele fracassar no Torino, seus momentos de Série A terão ido para o buraco.

Esta é a lista de convocados por Roberto Donadoni para as partidas contra Ucrânia e Geórgia.

Goleiros: Buffon (Juventus), Abbiati (Torino), Amélia (Livorno).

Defensores: Zaccardo (Palermo), Barzagli (Palermo), Cannavaro (Real Madrid – ESP), Grosso (Inter), Zambrotta (Barcelona), Nesta (Milan), Oddo (Lazio), Materazzi (Inter), Pasqual (Fiorentina).

Meio-campistas: Camoranesi (Juventus), Pirlo (Milan), Gattuso (Milan), De Rossi (Roma), Perrotta (Roma), Mauri (Lazio), Delvecchio (Sampdoria).

Atacantes: Del Piero (Juventus), Di Michele (Palermo), Di Natale (Udinese), Iaquinta (Udinese), F. Inzaghi (Milan), Toni (Fiorentina).

Enquanto o Milan precisa de Shevchenko, Shevchenko não marca mais sem o Milan.

Mas o ucraniano mandou avisar: não volta mais à Itália.

Seleção Trivela desta semana:

Manninger (Siena); Tonetto (Roma), Barzagli (Palermo), Dainelli (Fiorentina) e Oddo (Lazio); Jorgensen (Fiorentina) Morrone (Livorno), Pizarro (Roma) e Di Natale (Udinese); Mutu (Fiorentina) e Rocchi (Lazio)