Muito provavelmente o internauta tem acompanhado o escândalo no futebol italiano e já se deu conta que é algo grande, mas esta coluna fará nesta semana uma pequena observação. Não é algo grande. Estamos assistindo o maior escândalo na história do futebol mundial em todos os tempos. E não se trata de exagero.

Quando falamos de mutreta na Itália logo lembramos do caso das apostas no começo da década de 80, quando também a Juventus foi engolfada por uma grande crise e só não foi rebaixada porque teve cacife político para se segurar. Mas a crise de 2006, como um dirigente italiano disse nesta semana, “faz o escândalos das apostas parecer uma brincadeira de criança.”

Chamar o “Calciocaos” de hecatombe é adequado. O rombo é tão grande que não se tem certeza de nada. Não dá para saber o que vai acontecer com nenhum time, quantas pessoas estão envolvidas e como o futebol italiano vai ficar depois de tudo isso.

Mas você sabe o que está rolando? Se não sabe ou não tem certeza, a Trivela desta semana tenta esmiuçar o assunto para você. Claro que nem todas as respostas estarão aqui, mas naturalmente você pode enviar as perguntas que quiser e aquelas que forem comuns a vários internautas terão resposta na semana que vem.

O que aconteceu?

Resumindo, a justiça italiana grampeou o telefone de Luciano Moggi e de seu filho Alessandro (empresário de jogadores, dono da GEA) e constatou que ele vinha manipulando os resultados da Série A através de um conluio com os designadores dos árbitros, Pierluigi Pairetto e Paolo Bergamo. Mas não só: Moggi pai – com a ajuda do filho – forçava clubes a contratar e vender jogadores, isolava inimigos e mantinha as aparências com a ajuda de jornalistas pilantras. Moggi filho ganhava com as contratações e os jogadores de peso preferiam tê-lo como agente porque sabiam que ele tinha os canais.

Mas não é só: além do ‘Moggigate’, também se descobriu uma rede de apostas ilegais que envolveria muita gente do mundo do ‘calcio’- incluso o goleiro Buffon, que se tiver mesmo apostado quando não poderia, perderá a Copa do Mundo. E para fechar, também há uma acusação de fraude no balanço da Juventus. Formalmente, os inquéritos vão adiante com as acusações de “arbitragem falseada”, “fraude esportiva” e “concorrência ilícita e ameaça”.

Quem estava envolvido?
Não dá para ter certeza de todos. Até agora são 41, com Luciano Moggi como nome central. Na seção “Palonetto”, você tem uma lista completa (ao lado).

Até agora, quais foram as conseqüências?
A bomba já explodiu. A Juventus demitiu a famosa “Tríade” Bettega-Moggi-Giraudo; Carraro e Mazzini se demitiram; De Santis perdeu a autorização para ir à Copa. Todos os árbitros e auxiliares envolvidos foram suspensos.

Quem está investigando?
Cinco promotorias abriram inquérito: Turim, Genova, Roma, Nápoles e Perugia. As investigações são paralelas, mas não são iguais, embora estejam colaborando umas com as outras – espera-se…

Quantos jogos foram falseados?
Não se tem certeza, mas encontraram-se indícios de mutreta em incríveis 29 rodadas da 38 do campeonato passado, mas “somente” 19 estão sendo investigados. Até um jogo apitado por Pierluigi Collina veio à baila (Siena 2 x 1 Milan). Naturalmente que se imagina que muitas outras partidas possam ter sido enterradas na lama, mas ninguém tem uma idéia completa do problema até agora.

Está havendo negociação política para uma pizza?
Claro que sim. Quem tem poder está fazendo de tudo para se safar, mas o escândalo é tão gigantesco que nem os maiorais estão achando saídas. Muito provavelmente agora as autoridades estão vendo como seria possível punir tanta gente sem exterminar o futebol – e nesse ínterim, quem tem culpa no cartório como, está tratando de sumir.

O que pode acontecer com os envolvidos?
Teoricamente, todos os envolvidos podem ser punidos, mas Aa situação da Juventus certamente é a mais delicada. Como Moggi tinha poder de assinar documentos pelo clube, não dá para limpar a barra da saia da Velha Senhora. Assim sendo, rebaixamento e perda dos dois últimos títulos italianos não estão descartados – embora muita gente duvide que a poderosa Juve seja submetida a tal humilhação.

Lazio e Fiorentina também aparecem bem enroladas e o Milan surge envolvido perifericamente – mas também como “vítima”. As duas primeiras podem ser punidas, mas certamente não com o mesmo rigor que a Juventus. O Milan, de acordo com a imprensa italiana, também corre risco se algo mais sério aparecer (um funcionário do clube é mencionado numa das gravações).

Em relação aos personagens, a grande maioria deles está enterrada no mundo do futebol. Luciano Moggi in primis. Legalmente, os dirigentes podem tomar um gancho de três meses a cinco anos. A GEA dificilmente sobrevive à tempestade. Atletas como Cannavaro, Ibrahimovic e Buffon tiveram suas imagens bastante arranhadas.

Uma hora a casa cai

O ‘Calciocaos’ que deixa a Itália estarrecida, na verdade, é uma suspeita que todo mundo sempre tem: de que os times maiores ao favorecidos. É assim em qualquer lugar do mundo. Contudo, quando você consegue pegar o chefe dos infratores falando no telefone tão abertamente é o seu gancho para puxar tudo para baixo.

Mesmo que toda a lama esteja fedendo, o processo é uma prova de que, se houver um mínimo de seriedade, uma hora o sistema se limpa sozinho. Claro que Moggi só caiu do cavalo porque certamente alguém o traiu, mas não era de se esperar que alguém que deixa um rastro de inimigos acabe incólume.

A grande dúvida que todo o processo traz é: o que vai ser da Juventus? Legalmente, ela teria de perder seus dois últimos títulos italianos e ser rebaixada para a Série B, na melhor das hipóteses. Este é o ‘x’ da questão para o futebol italiano. Enterrar a Juventus e seu poderio oligárquico seria um rompimento com um passado histórico e a prova de que ninguém fica impune – nem a Juventus. É mais ou menos como a ONU condenar os Estados Unidos a trocarem de presidente – e eles aceitarem.

O ‘Calciocaos’ é salutar. Corrupção existe em todo lugar, mas ela só vem à tona quando as instituições são fortes o suficiente para agüentar o parto. Será que o ‘calcio’ agüenta dar a luz a sêxtuplos feitos de lama podre? Saberemos em agosto próximo, quando começa a próxima Série A.

A Juventus é campeã…

Sim, a Juventus bateu a Reggina com um tranqüilo 2 a 0 e se sagrou campeã. Mas como essa informação vem só aqui na rabeira da coluna? É o sinal de protesto possível desta coluna contra a vergonha desse ‘scudetto’ amargo da Velha Senhora. Quando o título for confirmado, a Trivela, como todos os anos, trará um balanço completo do time que venceu. Mas…será que venceu mesmo?

…e Lippi convocou a Itália sem surpresas

Em meio a tanta amargura, a Itália foi convocada nesta segunda-feira, sem nenhuma grande surpresa. O técnico Marcello Lippi chamou Iaquinta, da Udinese, e deixou Lucarelli de fora. Buffon, sob suspeita de ter feito apostas ilegais, está na lista. Um comentário especial sobre a convocação italiana? Pode deixar que nas próximas semanas todas as colunas da Trivela.com que têm países na Copa farão o seu apanhado.

Os chamados por Lippi você vê aqui
Goleiros: Buffon (Juventus), Peruzzi (Lazio), Amelia (Livorno)
Defensores: Zambrotta (Juventus), Nesta (Milan), Cannavaro (Juventus), Grosso (Palermo), Zaccardo (Palermo), Barzagli (Palermo), Materazzi (Inter), Oddo (Lazio)
Meio-campistas: Camoranesi (Juventus), Pirlo (Milan), Gattuso (Milan), De Rossi (Roma), Perrotta (Roma), Barone (Palermo)
Atacantes: Totti (Roma), Toni (Fiorentina), Gilardino (Milan), Del Piero (Juventus), Inzaghi (Milan), Iaquinta (Udinese)
Reservas: De Sanctis (Udinese), Bonera (Parma), Marchionni (Parma), Semioli (Chievo)

– O internauta há de desculpar o colunista se a coluna desta semana não abordou tudo sobre o escândalo, mas até os jornais italianos estão com problemas para dar conta de tudo.

– A Gazzetta Dello Sport até desistiu de fazer uma matéria por episódio e colocou uma espécie de “ao vivo” do lamaçal.

– Como era de se esperar, as ações de Lazio e Juventus na Bolsa estão em forte queda.

– Até este domingo, os indiciados nos processos das cinco promotorias eram esses – alguns, mais de uma vez:

Luciano Moggi (diretor da Juve),
Antonio Giraudo (administrador da Juve)
Alessandro Moggi (sócio da GEA)
Franco Carraro (presidente da Federcalcio)
Paolo Bergamo (ex-designador de árbitros)
Pier Luigi Pairetto (ex designador de árbitros)
Tullio Lanese (presidente a associação de árbitros)
Innocenzo Mazzini (vice-presidente da Federcalcio)
Francesco Ghirelli (secretário da Federcalcio),
Massimo De Santis (árbitro)
Maria Grazia Fazi (funcionária da Federcalcio)
Gennaro Mazzei (assistente da Federcalcio)
Pasquale Rodomonti (árbitro)
Duccio Baglioni (auxiliar de linha)
Ignazio Scardina (Jornalista da RAI)
Carmine Alvino (auxiliar de linha)
Francesco Attardi (funcionário da Guardia di Finanza)
Fabio Basili (funcionário da Questura di Roma)
Paolo Bertini (árbitro)
Enrico Ceniccola (auxiliar de linha)
Gabriele Contini (auxiliar de linha)
Andrea Della Valle (presidente Fiorentina)
Diego Della Valle (dono da Fiorentina)
Paolo Dondarini (árbitro)
Marco Gabriele (árbitro)
Giuseppe Foschetti (auxiliar de linha)
Silvio Geminiani (auxiliar de linha)
Alessandro Griselli (auxiliar de linha)
Marco Ivaldi (auxiliar de linha)
Giuseppe Lasco (capitão da Guardia di Finanza),
Claudio Lotito (presidente Lazio)
Leonardo Meani (dirigente do Milan)
Sandro Mencucci (administrador da Fiorentina)
Domenico Messina (árbitro),
Narciso Pisacreta (ex-auxiliar, dirigente da comissão de arbitragem)
Claudio Puglisi (auxiliar de linha)
Gianluca Rocchi (árbitro)
Salvatore Racalbuto (árbitro)
Paolo Tagliavento (árbitro)
Stefano Titomanlio (auxiliar de linha)
Pier Luigi Vitelli (funcionário da Questura di Roma)

Clubes: Juventus, Fiorentina, Lazio, Messina, Udinese, Siena, Arezzo, Crotone e Avellino.