Mesmo com o triste histórico de escândalos que tem o futebol italiano nos últimos anos, a semana passada provavelmente começou a assistir o maior deles. Uma série de interceptações telefônicas flagrou uma rede de corrupção que escolhia árbitros, comprava e vendia jogadores, forçava clubes a vender jogos e por aí afora. Já seria uma hecatombe se o principal envolvido não fosse Luciano Moggi, o homem mais forte do futebol italiano no passado recente.

O ministério público de Turim autorizou uma escuta telefônica nos aparelhos de Moggi (e de outros envolvidos) há dois anos e desde então vem coletando material contra o dirigente. E nas conversas do cartola, se teve de tudo. Ele decidindo árbitros de partidas da Juventus (inclusive nas competições européias), jurando vingança contra juízes não amistosos, armando tramas para forçar a saída de jogadores de outros clubes, acertando favores com comentaristas de televisão. O conteúdo das gravações é tão estarrecedor que Moggi praticamente não teve quem o defendesse.

Não foi só o ‘capo’ juventino que apareceu atolado até o pescoço. Nas suas conversas, o dirigente fala inúmeras vezes com os designadores de arbitragem Pierluigi Pairetto e Paolo Bergamo, que decidiam a lista de árbitros para cada partida até ano passado. E eles não falavam de receita de bolo. Moggi ordenava abertamente qual devia ser o nome para cada jogo e referências a manipulação de resultados não faltam, embora não haja uma menção direta.

A radiação do acidente nuclear piemontês bateu forte na Uefa e na Fifa. Na Uefa, porque Pairetto simplesmente fazia parte do comitê arbitral da entidade e decidia nomes para jogos da Liga dos Campeões. A Fifa foi afetada porque um dos juízes que vai à Copa, Massimo De Santis, está diretamente ligado a um dos jogos mencionados e sua escalação está em risco. Segue a tradução de uma das dezenas de gravações.

As conversas abaixo são antes de Sampdoria-Juventus, 21/9/2004.

Moggi: Mas o sorteio dos árbitros é hoje?
Pairetto: Sim, é agora. Mas já acertamos tudo. Estamos terminando. Tudo ok. Até mais
(uma hora depois)
Funcionária da federação: Saíram os árbitros para quarta-feira.
Moggi: Eu já sei. Nós temos Dondarini.
Funcionária: Dondarini, exato.
(no dia seguinte)
Pairetto: Donda, por favor, faça uma bela partida. Você sabe que eles são sempre…
Dondarini (árbitro italiano): …particulares…
Pairetto: Isso, particulares. Fique com cinqüenta olhos abertos. Para ver até o que não acontece, às vezes. Sei que apitará muito bem.

Vitória da Juve por 3 a 0, com um pênalti inexistente no primeiro gol.

GEA: escândalo também nas contratações

O tsunami também pegou forte no mundo dos empresários de futebol. O filho de Moggi, Alessandro, sempre estava no meio das acusações com a sua empresa, a GEA, que representa os jogadores mais importantes do país. Junto com Chiara Geronzi, filha de outro mastodonte do futebol italiano (Cesare Geronzi, presidente do banco credor de quase todos clubes do país), Alessandro é acusado de ter poder graças à influência de seu pai na Juve, lhe dando informações privilegiadas e ditando que jogador fica em qual clube.

Mas nos últimos meses, surgiram acusações ainda mais pesadas contra a GEA. O ex-jogador do Siena, Stefano Argilli, disse que a GEA manda no Siena de cabo a rabo e que até os árbitros dos jogos eram decididos pela tenebrosa empresa. Acusação que as gravações só ajudaram a reforçar. E agora, a GEA deve ser submetida a uma devassa sem precedentes.

Moggi pai dizia para Moggi filho que jogador ele deveria representar para conseguir as negociações mais gordas do mercado. Além disso, Moggi pai ensinava ao filho como fazer os atletas nos quais a Juve tinha interesse a se desvencilharem dos clubes com quem tinham contrato: instigando-os a brigar em seus clubes e forçar as negociações – prática que a Fifa pune severamente. Moggi jogava dos dois lados do balcão e a concorrência não tinha chances. Outras transcrições reveladoras, referentes ao mercado juventino. Só algumas porque são realmente muitas.

(As conversas são em agosto de 2004, quando a Juve está atrás de Cannavaro – então na Inter – e Ibrahimovic – então no Ajax)

Moggi telefona para Cannavaro e lhe diz: Telefone para o Facchetti e diga que não quer ficar porque o treinador não lhe dá chances.
Moggi (falando com o outro dirigente da Juve, Antonio Giraudo): Falei com o Cannavaro e pedi ao Ferrara para falar também (n. do r: Ferrara é ex-companheiro de Cannavaro dos tempos de ambos no Napoli). O Cannavaro vai criar problema e depois de alguns dias, o Paco Casal (n. do. r: empresário do zagueiro) intervém.
Moggi para um jornalista: Ibrahimovic tem colhões. Arrumou uma briga dos infernos no Ajax, claro, a gente deu uma forcinha…

As conseqüências

As vozes dos representantes da situação travestidos de jornalistas vieram com a seguinte frase para “justificar” o escândalo: “Mas isso todo mundo já sabia”. Incrível! Ainda querem explicar. Ninguém sabia de nada. Se comentava, mas tudo na base do boato Não havia prova de manipulação. Até agora.

Nenhuma das gravações prova que um jogo tenha mudado de resultado numa das negociações, mas com um pouco de bom senso, não é preciso. Está claro que a Juventus estava mesmo levando vantagem nas arbitragens – mesmo tendo sempre bons times. E a pergunta agora é: somente Moggi deve ser punido ou a Juve também?

O problema para a Juve é que no ano passado, por um problema semelhante, o Genoa foi rebaixado da Série B para a Série C1. Verdade que o presidente do Genoa foi burro o suficiente para admitir isso num telefonema (“Isso não foi o que combinamos”), mas a distinção entre o caso de um ano atrás e o da Juventus é muito tênue. Se é que existe alguma diferença.

O precedente ‘favorável’ à Juve é que um escândalo semelhante, ocorrido no início dos anos 80, não foi suficiente para sobrepujar o ‘superpoder’ da esquadra piemontesa e tudo acabou numa pizza horrenda. Apesar da Juventus estar sem falar com a imprensa, já se sabe que a cabeça de Moggi vai rodar. E também a de Giraudo. Pierluigi Pairetto já foi excomungado da comissão arbitral européia e De Santis pode perder sua vaga na Copa do Mundo. Mas a navalha deve cortar bem mais fundo do que somente os seus nomes.

Só não vê quem não quer. A Juventus merece ser punida e, conforme as apurações, até mesmo perder os títulos que conquistou no período e eventualmente, ser rebaixada. O problema é que rebaixar a Juve não é só uma punição administrativa. Seria uma bomba nuclear nos alicerces do que há de pior no futebol italiano: uma oligarquia cleptocrata que rouba mesmo quando tem time pra ganhar. Para tanto, uma bomba não basta. São necessárias pelo menos mil outras.

E além disso, tem futebol

Para que ninguém se levante da mesa – justamente – a gente volta a falar de futebol. Sim, ainda há futebol, apesar de tanto horror causado pelos mesmos caras de sempre: a cartolocracia. Sem eles, o Italiano segue duríssimo e será decidida somente na última rodada: um feito entre as grandes da Europa.

A Juventus de verdade, aquela que ganha e convence, manteve-se fiel à tradição e bateu o Palermo em casa, no provável último ponto de tropeço possível. Agora, um ponto contra a Reggina é tarefa mais do que factível. Aliás, a Juve só perde o ‘scudetto’ por uma desgraça. Contra o Palermo, uma Juventus decidida deixou isso bem claro.

O Milan fez um bom jogo contra o Parma e venceu merecidamente, mas na última rodada tem uma tarefa inglória. Esperar uma vitória calabresa contra a líder e vencer a Roma, que ainda está na luta pela Liga dos Campeões. Possível? Claro. Isso já aconteceu outras vezes. Mas o pêndulo está 90% Juve-10% Milan.

– Quando Ballack e Sagnol ainda negociavam com o Bayern de Munique, o dirigente alemão Rumenigge classificou Luciano Moggi de “mafioso” em relação às suas táticas de contratação.

– Na época, parecia dor-de-cotovelo, mas agora…

– O herdeiro dos Agnelli, John Elkann, foi à partida da Juventus contra o Palermo, “para prestar solidariedade ao técnico e jogadores”.

– O silêncio em relação a Moggi e Giraudo diz tudo: condenação.

– A negociação agora é diretamente com Capello para mantê-lo no clube.

– Uma saída de Shevchenko do Milan continua soando possível.

– O atacante se encontrou com Silvio Berlusconi na mansão do ex-primeiro ministro, num encontro reservado.

– Sheva jurou a Berlusconi que só deixa o Milan com o seu consentimento, em gratidão ao suporte que o presidente milanista deu quando seu pai esteve internado gravemente e precisou de tratamento médico de urgência.

– Esta é a seleção Trivela da 37ª rodada:

Zancopé (Treviso); Jankulovski (Milan), Ujfalusi (Fiorentina), Felipe (Udinese) e Pasqual (Fiorentina); Camoranesi (Juventus), Nedved (Juventus), Di Natale (Udinese) e Marchionni (Parma); Corradi (Parma) e Toni (Fiorentina)