Na semana passada, o internauta acompanhou pela mídia a saída de Luigi Del Neri do posto de treinador da Roma. Bruno Conti, seu sucessor (acompanhado de Ezio Sella, o assistente), é o quatro técnico da temporada. Estatística de time que vai para a segunda divisão. E de certa forma, foi mais ou menos que o demitido Del Neri falou – não à imprensa, mas a amigos – do que achava do elenco romanista.

“Se trata de um bando de viciados”, disse Del Neri, de acordo com o diário Corriere della Sera, não se referindo ao uso de entorpecentes, mas à inexistência de ordem dos vestiários de Trigoria. As desavenças de Del Neri com Cassano eram sabidas, mas só agora se sabe o nível em que anda a coisa. Duas semanas atrás, o atacante, depois de ter dado entrevistas dizendo que tinha saudade de Capello, tomou uma dura pública do resto do grupo. “Vocês vão tomar nos seus…” , foi a resposta de Cassano, que dali em diante, ficou isolado do resto dos jogadores.

Outra reclamação do técnico foi sobre o fato de se sentir refém da torcida, que exigia a escalação de Totti, Cassano e Montella em todos os jogos. A defesa romanista não é forte o suficiente para um 4-3-3, e Del Neri simplesmente não podia mudar porque a pressão na capital era insana. E, é claro, nenhum dos três fez nenhuma menção em ajuda-lo.

“É um grupo de viciados; os goleiros no elenco são patéticos. A defesa é imóvel; no meio-campo, não há nenhuma qualidade, e o ataque, apesar de ter um trio excelente, é desequilibrado, porque nenhum dos três (Cassano, Montella e Totti) tem características de área”. Não é uma declaração que deixe dúvidas, não?

Fatos: depois da saída do ditatorial Capello, não houve quem segurasse o grupo naturalmente rebelde da Roma. A diretoria, com problemas financeiros, se eximiu da responsabilidade, com medo de ter problemas nas renovações de contratos. Nenhum dos técnicos (Prandelli, Vöeller e Del Neri) tinha poder ou coragem o suficiente para defenestrar o que fosse necessário. O último tentou ainda dar uma limpada no grupo se livrando em janeiro de vários jogadores (Candela, Mido, Delvecchio, Sartor, D’Agostino), mas a insubordinação continuou. A indignação de Del Neri foi tão aguda que ele abriu mão de todo o dinheiro que teria direito (e não era pouco).

A indicação de Bruno Conti para o cargo era a única saída viável para o momento. Conti é um monstro sagrado na Roma, acima do bem e do mal. Substituiu Montella contra o Milan e nem deu confiança para a cara de irritadinho do centroavante, para mostrar que quem manda é ele. A esperança da diretoria é que a torcida poupe Conti por causa de seu passado. Mas, além da Copa Itália (onde a Roma conseguiu a vaga nas semi-finais contra a Fiorentina), a temporada está perdida. Cassano e Panucci devem quase que certamente ir embora, e o próximo treinador do time será um disciplinador. Carlo Mazzone (Bologna) e Zdenek Zeman (Lecce) são os nomes mais cotados.

Para Del Neri, é o encerramento de uma temporada de pesadelos. Primeiro, a demissão do Porto, não explicada pela diretoria, mas claramente manipulada pelos jogadores mais eminentes do elenco (o Porto trocou duas vezes de técnico após a saída do italiano Del Neri). O fracasso na Roma – anunciado, dadas as condições – apaga temporariamente o brilho que Del Neri tinha acumulado no Chievo. Agora, ele precisa esperar um chamado para voltar em julho – no mínimo.

Euroderby em Milão

Sorteio ingrato para as esquadras italianas na Liga dos Campeões. Como a coluna de Rafael Martins já analisou, o mais tocante é o confronto entre Juventus e Liverpool, que reacende as memórias da Tragédia de Heysel, onde 39 torcedores italianos morreram. Ironicamente, um jogo entre as duas equipes (o primeiro desde a tragédia) pode ser uma boa maneira de lembrar e homenagear as vítimas.

Mas a Itália se esquentou mesmo foi com o confronto doméstico-continental entre Milan e Inter, assim como dois anos atrás. A Inter e seus jogadores torciam pelo encontro para ter vingança; o Milan preferia um ‘derby’ na semi-final, ou na final, como há dois anos.

Estaria o Milan com medo? Provavelmente não é essa a resposta. Sob o ponto de vista técnico, a Inter é o time mais fraco entre os oito. Tem jogadores de grandíssima qualidade, mas em nenhum momento desta temporada apresentou um jogo fluido, como pregava o técnico Roberto Mancini ao assumir o cargo em julho. Contudo, o fato de ser um clássico diminui as diferenças. Há muito mais tensão, expectativa. A rivalidade deixa tudo no mesmo nível.

Neste último domingo, a Inter teve a péssima notícia que Adriano não estará em campo, pelo menos na partida de ida. O jogador sofreu uma lesão no ligamento colateral medial do joelho e, com sorte, consegue jogar a segunda partida. No Milan, o capítulo “lesões” parece estar perto do fim. Inzaghi já voltou a jogar (e bem), Crespo segue marcando a sua quota para as vitórias, e Shevchenko já treina com bola, e é esperado para estar no banco no jogo contra o Brescia.

Os trunfos de cada equipe: o Milan conta com uma defesa de rocha, e se estiver com a linha titular (Cafu, Stam, Nesta e Maldini), há bem pouco para ser explorado. O passe excelente no meio-campo e a manutenção da posse de bola já vitimaram muitos adversários de classe. Se a Inter quiser pensar em alguma coisa, precisa anular o setor, impondo uma marcação sufocante.

Do lado da Inter, a saída é esperar do talento de nomes como Stankovic, Verón e Adriano. O time ‘nerazzurro’ ainda não conseguiu fazer seu meio-campo encontrar o passo do jogo, nem tampouco dar entrosamento à defesa. O exemplo claro disso é a síndrome de empates da Inter nesta temporada. O ponto incompreensível é o de Mancini não dar um jeito de escalar Davids em sua posição ideal. Um meio com o holandês mais Cambiasso, atrás de Verón, seria voraz.

O saque-e-voleio continua

Um vence no sábado, o outro no domingo. E vice-versa. Milan e Juventus protagonizam uma corrida ao título que nenhuma outra liga européia de alto nível tem. Neste final de semana, foi o Milan que teve que tirar a vantagem obtida pela Juve no sábado. E foi à Roma, para um jogo muito mais fácil do que poderia ser em condições normais.

No sábado, a Juve deu sua prova de superação. Não jogou fantasticamente bem, mas pode alegar que estava sem Trezeguet e Nedeved – o que não é pouco – jogando as esperanças no tridente composto por Zalayeta, Ibrahimovic e Del Piero. O sueco foi responsável por uma assistência sensacional que deixou o capitão Del Piero livre para executar um arremate perfeito, e garantir uma vitória mínima. E para quem fala “mas também, da Reggina qualquer um ganha”, vale lembrar que foi justamente a equipe ‘amaranto’ que tirou a invencibilidade da Juve no primeiro turno.

No domingo, o Milan mostrou as garras e domou a Roma com facilidade, méritos de uma partida ótima de Seedorf, de outra jornada sem falhas de Stam (com Cafu mais livre da marcação), e também de Crespo, preciso para fazer o primeiro gol, e manter a sua regularidade impressionante.

O sorteio da Liga dos Campeões aumentou a pressão sobre o Milan, uma vez que a tensão de um derby valendo uma vaga nas semi-finais vai ter seu peso. Por outro lado, a agenda juventina é mais complicada, com Fiorentina, Lazio, Parma e Bologna antes do confronto direto, enquanto o adversário mais complicado do Milan é a Fiorentina (os outros são Brescia, Siena, Parma e Chievo).

Sem Del Piero e com Cassano

Pode parecer um contra-senso a convocação de Marcello Lippi para o jogo contra a Escócia, pelas Eliminatórias da Copa de 2006, mas tem a sua lógica. Del Piero fora, Cassano dentro, justamente depois de um fim de semana onde Cassano jogou mediocremente e Del Piero decidiu para a Juve. Fica claro que a Lista de Lippi estava pronta bem antes da 29a rodada começar, o que é mais do que lógico e sensato.

Mesmo com o argumento, a chamada de Cassano ainda é temerosa. A seu favor, está o fato de ser o atleta mais talentoso da Itália atual, ao lado de Totti. Só que seu recorde disciplinar e de caráter nos últimos meses não deveriam ser premiados com uma convocação. A tese levantada por Lippi é a de que Cassano deve ser tutelado, com seus problemas e talentos, para que se encaminhe adequadamente.

Como toda uma geração de atacantes italianos está entrando na fase final de sua carreira (Del Piero, Vieri, Inzaghi, Montella), Lippi dá uma cartada arriscada, porém obrigada. Se não transformar Cassano numa opção válida, corre o risco de chegar à Copa – supondo que a Itália se classifique – sem um grupo de atacantes consistente.

Vale o lembrete da participação de atletas do Palermo na convocação (cinco jogadores: Grosso, Barzagli, Zaccardo, Barone e Toni), mais do que qualquer outro time italiano. O time titular deve ter Buffon no gol, mais uma defesa a quatro (provavelmente Zaccardo, Nesta, Cannavaro e Chiellini). Já o meio-campo é uma incógnita. Lippi poderia escalar Gattuso e Pirlo (entrosados do Milan) no meio, com Camoranesi e Cassano pelas laterais, o que faria na prática um 4-3-. Mas esta é uma opção entre tantas. Ataque? Somente Totti parece ter a vaga assegurada.

A convocação:

Goleiros: Gianluigi Buffon (Juve), Morgan De Sanctis (Udinese), Flavio Roma (Monaco).
Defensores: Andrea Barzagli (Palermo), Daniele Bonera (Parma), Fabio Cannavaro (Juventus), Giorgio Chiellini (Fiorentina), Fabio Grosso (Palermo), Marco Materazzi (Inter), Alessandro Nesta (Milan), Cristian Zaccardo (Palermo).
Meio-campistas: Simone Barone (Palermo), Manuele Blasi (Juventus), Mauro Camoranesi (Juventus), Daniele De Rossi (Roma), Ivan Gattuso (Milan), Andrea Pirlo (Milan).
Atacantes: Antonio Cassano (Roma), Mauro Esposito (Cagliari), Alberto Gilardino (Parma), Vincento Montella (Roma), Luca Toni (Palermo), Francesco Totti (Roma).

– Você já ouviu falar do zagueiro brasileiro Felipe?

– Se a resposta é não, ela passa a ser “ainda não”

– Felipe é um jogador brasileiro da Udinese, e que tem jogado um futebol de primeiríssima qualidade

– Atua preferencialmente pela lateral-esquerda, mas joga também como quarto zagueiro (muito bem), zagueiro central ou lateral-direito

– É, hoje, o nome mais comentado entre os jovens do futebol italiano

– Claro que o atento Zagallo já prestou atenção nele…

– …não é verdade???

– A Udinese de Felipe e o Lecce de Zeman jogaram no domingo, pela quarta vez na temporada

– Em 4 jogos, foram marcados 26 gols

– O Milan, com sua vitória sobre a Roma, chegou ao 11o sucesso fora de casa na temporada, igualando seu próprio recorde, já alcançado em algumas temporadas – entre elas, a última

– Paolo Maldini está a oito partidas de se tornar o jogador com maior número de jogos pela Série A na história

– Com a de domingo, já são 563

– O recordista absoluto ainda é Dino Zoff (hoje técnico da Fiorentina), com 570

– Eis a seleção Trivela da 29a rodada

– Curci (Roma); Stam (Milan), Cordoba (Inter), Felipe (Udinese) e Kaladze (Milan); Seedorf (Milan), Cambiasso (Inter), Veron (Inter), Brienza (Palermo); Gilardino (Parma) e Lucarelli (Livorno)