Relembrar é viver. Então relembremos. Na semana passada, esta coluna discorreu sobre quão infernal é o momento da arbitragem na Itália. Os homens de preto sempre foram xingados, mas mesmo os italianos, reclamões profissionais, admitem que nunca houve uma crise de confiança tão gigantesca quanto a que acontece agora.

Claro que o pivô da crise é a Juventus. O time de Turim está mesmo sendo favorecido pela arbitragem. Nas duas últimas rodadas, a Juve foi beneficiadíssima por erros dos juízes Racalbuto e Trefonloni. Se tivesse perdido as duas partidas, estaria com seis pontos de diferença para o líder Milan.

Falar em um complô juventino para arrecadar pontos com auxílio da arbitragem é paranóia. A Juventus tem um time forte o bastante para não precisar deste tipo de expediente. Mas os erros dos últimos dois jogos são indiscutíveis, especialmente o do de domingo, contra o Chievo, quando o time de Verona teve um gol vergonhosamente negado, mesmo a bola tendo passado a linhapor mais de dois palmos. É certo que os árbitros estão mesmo apitando “pro Juve” quando ficam em dúvida.

A coisa chegou a um tal ponto que o momento mais aguardado da rodada é justamente quando ela acaba, e os programas televisivos fazem os tira-teimas que mostram onde os erros de arbitragem. Daí, a discussão técnica do jogo fica em segundo plano, os dirigentes que perderam jogam a culpa no juiz e ameaçam “largar o futebol”, e la nave va. A análise dos erros arbitrais passou a ter mais importância do que o jogo.

Durante a semana passada, Chelsea e Barcelona se enfrentaram no jogo mais duro das oitavas-de-finais da Liga dos Campeões. Pierluigi Collina, o melhor juiz do mundo, negou uma falta do zagueiro Ricardo Carvalho, do Chelsea, que poderia ter destinado a passagem de fase ao time catalão. Acabado o jogo, o técnico do Barça absolveu Collina, dizendo que tinha sido um erro, mas que isso acontece, e que a verdadeira culpa era de seus zagueiros. Tradução do episódio: como havia confiança no juiz, o erro é supérfluo. Como aliás, sempre foi…

Os que hoje clamam pelo uso da tecnologia como se ela fosse resolver o problema da falta de confiança são de, no mínimo, uma ingenuidade tremenda. Isso porque um árbitro que queira lesar um time não depende só de bolas sobre a linha ou impedimentos dúbios. E nem que a TV domine completamente o jogo – como ela de fato quer – a confiança nos árbitros vai voltar sem uma profunda reflexão.

A Juventus compra juízes? È pouco provável. O time de Capello é forte e os pontos que granjeou com a ajuda da arbitragem não devem ser contabilizadas a uma rede de intrigas, mas exatamente a uma pressão insana sobre homens que deveriam entrar em campo sem parcialidades, o que hoje é impossível.

Cinco técnicos em Roma (ou na Roma)

Cesare Prandelli, Rudi Vöeller, Luigi Del Neri e agora, Bruno Conti e Ezio Sella. Estes cinco homens são os responsáveis (ou as vítimas) pelo cargo mais quente e difícil de gerenciar da temporada de futebol italiano. Com o pedido de demissão de Del Neri, a Roma chega a um recorde negativo de cinco técnicos, uma vez que Conti e Sella (prováveis substitutos de Del Neri) devem assumir o time juntos.

Del Neri pediu demissão por uma razão bem objetiva. Se sentia “refém” da torcida e do trio Cassano-Totti-Montella. A torcida exigia o trio em campo, porque são jogadores queridos (ou outra razão, sabe-se lá qual). Mas a defesa romanista é ruim. Ruim. Nem razoável é. Dellas e Ferrari são bons defensores, mas, lentos, precisam de guarnição constante dos laterais e volantes. Não a têm.

Panucci claramente não está preocupado se Del Neri estava na “fritura” (e contra o Cagliari estava machucado); Chivu voltou contra o Cagliari depois de praticamente 10 meses parado. Abel Xavier não jogava há quase dois anos. E Cufré é um jogador bem limitado. No meio, De Rossi, Perrotta e Dacourt não conseguem carregar uma defesa lenta mais um trio de “prima-donnas” que não se mexe para ajudar a defesa.

Del Neri jogou a toalha. E está certo. A Roma é um antro de falta de disciplina. Vöeller já tinha dito isso. Del Neri colecionou inimigos tentando se impor, mas ganhou inimizades de jogadores vingativos e importantes, como Panucci, Cassano e Montella. Agora, a Roma joga a batata no colo de Bruno Conti, ex-ídolo do clube, na esperança de que o agora técnico das divisões de base da Roma possa fazer as coisas funcionarem.

Conti é um bom treinador. É responsável pela formação de muitas promessas romanistas. Mas, como sempre, vai se dar bem somente se tiver poder. Não importa se é bom técnico, ou se é um ex-ídolo. Precisa de poder ditatorial para apavorar os jogadores que estão de corpo mole, ou então, de escorraça-los do time sem que ninguém dê um pio. Se não tiver apego ao cargo e quiser o bem da Roma, além de ter esse poder, Conti pode dar jeito. Caso contrário, em poucas semanas, esta coluna publicará o excerto: “Seis (ou sete) técnicos em Roma. (Ou na Roma).

Nove e indo

Semana perfeita para o Milan em termos de resultados. Além de bater o Man Utd com uma cabeçada antológica de Crespo, o Milan chegou à sua nona vitória seguida com mais um resultado mínimo para garantir os três pontos. Diante de uma arguta Sampdoria, novamente uma defesa impecável assegurou a falta de brilho dos craques do ataque.

A partida de San Siro teve mais alguns feitos para o time de Carlo Ancelotti. O primeiro foi a partida de número 536 de Maldini pela Série A (750 oficiais), agora só atrás de Zoff e Silvio Piola em jogos disputados; o outro foi a primeira partida de Jaap Stam como viga mestra da defesa, uma vez que Nesta e Maldini precisaram sair antes do jogo acabar. Stam mostrou, pela primeira vez no Milan, o futebol ‘rock-solid’ que o caracterizou.

Eventualmente, Stam joga à direita, na posição de Cafu, e alguns gênios mediáticos ficam fazendo piadas rigorosamente sensacionais e hilariantes sobre sua incapacidade de cruzar como o capitão brasileiro. Seria muito bom se ocorresse aos mesmos que a função de Stam não é essa – e que até o próprio não deve se achar muito parecido com Cafu. Mas se Cafu é uma espinha no flanco do adversário, Stam é um muro. Óleo e água.

Quando o holandês joga na direita, a idéia é fazer com que o lateral esquerdo possa se alinhar ao meio-campo, mais ou menos como fazia a Roma de Capello. Com a bola, a defesa fica com três homens; sem a bola; são quatro, pois o lateral esquerdo recua. A vantagem? A mais óbvia da história do futebol: maioridade numérica em relação ao adversário. Dã…

– Esta temporada foi uma grata surpresa no que diz respeito à transmissão de campeonatos europeus

– As emissoras estão de parabéns

– Neste domingo, o veterano Carlo Mazzone completou sua 770a partida como técnico

– Seleção Trivela da 28a. rodada: não dava para deixar de destacar Messina e Udinese

– Storari (Messina); Stam (Milan), Nesta (Milan), Cristante (Messina) e Felipe (Udinese) ; Gattuso (Milan), Budel (Cagliari), Pizarro (Udinese) e D’Agostino (Messina); Di Michele (Udinese) e Iaquinta (Udinese).