Ganhar duas partidas seguidas não é fácil. Na Série A, menos ainda. Mas esta Roma, uma Roma muito menos badalada do que a do ano de Batistuta, Emerson e do ‘scudetto’, conseguiu o sucesso em onze rodadas consecutivas. Um recorde absoluto em mais de um século de competição.

O enredo do feito romanista é sabido, e justamente a facilidade com que o torcedor escala a Roma é o segredo deste time. Mesmo sem a quantidade de craques que dispõem os adversários mais famosos, o clube de Trigoria mantém seu jogo num rimo elevado por causa de uma disposição tática impressionante, cujo alicerce é a dedicação.

Doni, que no Corinthians era tratado como reserva em campo, faz uma temporada muito segura. E linha que ele tem à sua frente – Panucci, Chivu, Mexes e Cufré – já entrou para a história do clube como a retaguarda das onze vitórias. Justo. Chivu e Mexes dão a técnica apurada; Cufré é o que joga duro, e Panucci, o veterano. Uma mescla de grande sabedoria.

Ao alinhar De Rossi com Aquilani na linha mediana, o técnico Spaletti correu um sério risco. Aquilani é um meia-armador de origem e poderia afrouxar uma defesa que não vinha de boas temporadas. O romanista, ao contrário, refinou ainda mais o passe no setor, também pela presença de Perrotta mais adiantado, mas igualmente dedicado ao combate. A marcação da linha romana começa quase no ataque.

Um ataque que é um trio disfarçado. Taddei e Mancini agem como pontas, mas com fôlego para retornar pressionando os alas adversários. E assim, Totti joga solto e tranqüilo para poder fazer uso de um talento raro: o de um armador que arremata bem ou, se preferir, o de um atacante com passe e visão.

Todos os elogios feitos aos onze homens em campo. Justo. Mas é no banco que está o segredo da Roma. Luciano Spaletti moldou um time que tem um vestiário turbulento sem alarde. Spaletti apareceu para o futebol levando o Empoli da Série C1 à divisão máxima. Suas experiências na Sampdoria e Udinese já revelavam um tático requintado; os infernos vividos em Ancona e Veneza lapidaram sua capacidade de trabalhar o grupo.

A primeira parte do campeonato foi conturbada, especialmente pela presença de Cassano, que não jogava um décimo do que podia e era odiado pela torcida. Sem o jogador de Bari Vecchia, Spaletti pôde formar um grupo muito coeso. E assim, tratou de vedar a defesa, sabendo que o ataque marcaria gols de uma maneira ou outra. O que provavelmente nem Spaletti imaginava era levar o clube a uma marca tão significante.

Título? Se fosse em outro campeonato, em outra época ou em outro esporte, sim. Porém, para fazer a Juventus deixar cair a peteca com o time atual é necessário um milagre. E convenhamos: bater um recorde como o de vitórias consecutivas na Série A já é o suficiente para uma temporada só.

Depois da tempestade

Depois da conquista da Liga dos Campeões em 2003, Filippo Inzaghi teve uma lesão no tornozelo. Depois, teve outra. E mais uma. Daí, uma lesão muscular, uma fratura na mão. Outra lesão muscular. Parecia – e não é conversa de tablóide – que o Milan perderia outro grande centroavante com intermináveis lesões, a exemplo de ‘Il Cigno’ Marco van Basten.

Sem o mesmo alarde e a dramaticidade de Ronaldo, Inzaghi passou por uma recuperação igualmente asfixiante. Horas e mais horas de fisioterapia e reforço muscular. Ainda machucado, o jogador teve seu contrato prolongado pelo Milan, e falou: “quero retribuir esse gesto”.

O desempenho de ‘Pippo’ nas últimas partidas surpreende e leva a crer nas palavras do atacante. Inzaghi nunca foi um craque e sim um goleador nato, que se posiciona à perfeição. E o Inzaghi que voltou a marcar gols nas últimas rodadas parece exatamente o mesmo da Juventus de 1997/98.

A novidade é excelente para Carlo Ancelotti, que na prática, só tem Gilardino e Shevchenko (Amoroso ainda é uma incógnita). Além disso, o treinador não esconde a satisfação de ver que qualquer combinação entre os três jogadores resulta em gols – ainda mais com Kaká em fase de graça.

O sonho de Inzaghi é ir para a Copa do Mundo. Para tanto, ele precisa fazer mágica. Gilardino, Cassano, Vieri, Toni, Del Piero e Totti, todos concorrem por quatro lugares. Entre todos, Inzaghi é o que sai por último. Precisa fazer um gol por rodada. Será que dá?

O gordo de volta?

Finalmente Ronaldo não agüentou e desceu a boca na torcida madrilena que resiste em se tocar que ele e Zidane seguram a onda de um time que ganha como Real Madrid e joga como Recreativo Huelva. E assim, com um divórcio muito desenhado, os clubes italianos se colocaram de prontidão.

Italianos, sim, mas mais especialmente de Milão. Somente os milaneses e a Juve poderiam arcar com uma operação do gênero. Como a Juventus parece resolvida com Ibrahimovic, Mutu, Trezeguet e Del Piero, os dois times de Milão dizem que não, mas estão sondando sim o jogador.

A volta mais lógica seria para a Inter. Ronaldo tem a cara feia de parte da torcida por causa da sua traição fantástica (onde Hector Cuper foi o bode expiatório), mas a resistência desapareceria na primeira ‘tripletta’ do brasileiro e, goste-se ou não de Ronaldo, não há como negar que isso ele sabe fazer.

Milan? Seria bombástico ver Ronaldo com Shevchenko e Gilardino em ‘rossonero’ – e certamente Ronaldo seria considerado o inimigo número 1 da história interista. Mas a contratação de um jogador do gênero significa muita grana em imagem e merchandising, e essa língua Silvio Berlusconi fala.

Lippi: a novidade é Pasqual

E na sua convocação para enfrentar a Alemanha de Klinsmann, o CT ‘azzurro’ apresentou somente uma novidade absoluta: o ala Manuel Pasqual, lateral-esquerdo da Fiorentina, 24 anos no próximo dia 13. Pasqual deve preencher a lacuna deixada pelo contundido Gianluca Zambrotta.

Lippi fez justiça ao dar ma chance para Pasqual (que este colunista confundiu com o ex-interista Pasquale meses atrás). O jogador é o melhor italiano da posição no momento. Além disso, o elenco italiano para a Copa carece de homens que atuem na faixa lateral, especialmente pela esquerda.

No ataque, Lippi deu uma prova de confiança a Christian Vieri, chamando o atacante do Mônaco muito mais com base no que ele já fez do que no que está fazendo no momento. Lippi sabe que Vieri em forma seria titular absoluto e provavelmente vai aproveitar a ocasião para fazer sua avaliação particular. Os convocados, você pode conferir na coluna lateral – ‘Palonetto’.

– Eis os convocados de Lippi para enfrentar a Alemanha:

– Goleiros: Buffon (Juventus), Amelia (Livorno) De Sanctis (Udinese).

– Defensores: Barzagli (Palermo), Cannavaro (Juventus), Grosso (Palermo), Materazzi (Inter), Nesta (Milan), Oddo (Lazio), Pasqual (Fiorentina), Zaccardo (Palermo).

– Meio-campistas: Barone (Palermo), Camoranesi (Juventus), De Rossi (Roma), Diana (Sampdoria), Gattuso (Milan), Perrotta (Roma), Pirlo (Milan).

– Atacantes: Del Piero (Juventus), Gilardino (Milan), Iaquinta (Udinese), Toni (Fiorentina), Vieri (Monaco).

– Nesta semana, a seleção Trivela da semana não será publicada.