Não dá pra se surpreender com a consistência da campanha fiorentina. Cinco vitórias consecutivas, jogo fluido e o artilheiro do orneio, Luca Toni, com quinze tentos marcados. Mas o campeonato já tem uma parcela considerável disputada para se ter certeza que o grupo deste ano não repetirá o vexame do ano passado, quando quase caiu com um investimento semelhante.

A diferença? Basicamente o técnico Cesare Prandelli, assessorado pelo competente diretor Pantaleo Corvino. Prandelli estabeleceu um esquema com somente um atacante – Toni – mas que tem três meio-campistas ofensivos (neste domingo, Montolivo, Fiore e Jorgensen). Na prática, o time fica sempre com Toni mais um na frente, num 4-4-2 camaleônico.

A força fiorentina também tem um vínculo fortemente milanista. Os dois homens de contenção – Donadel e Brocchi pertencem ao Milan e foram considerados sem condições de ficar em Milanello. É a prova de que um time pode e precisa de jogadores que eventualmente ao sejam craques.

Luca Toni está em estado de graça e passa por uma fase que deve ser a melhor de sua vida. Jogando com vários homens que descem pela lateral (incluso o lateral-esquerdo Pasquale – outro presente de Milão, neste caso, ‘nerazzurro’), Toni pode fazer o que sabe fazer melhor: executar goleiros com bolas cruzadas.

Até onde vai essa Fiorentina? Por melhor que seja o time de Prandelli, é difícil acreditar em uma corrida pelo título. O ataque do time de Florença é do mesmo nível dos melhores do campeonato, mas a defesa ainda é modesta individualmente, com exceção talvez do goleiro Frey e do zagueiro Ujfalusi. No entanto, uma vaga na Liga dos Campeões está absolutamente ao alcance do time.

Sem desculpas

Enquanto a Fiorentina pode se orgulhar, o Milan pode parar e descobrir o que está errado – porque algo certamente está errado. Os três gols sofridos no Artemio Franchi aconteceram praticamente da mesma maneira: bola cruzada na área e alguém empurra para dentro, com a complacência da defesa que supunha-se, seria a melhor do mundo por várias temporadas.

No primeiro gol, a ausência de Serginho na marcação é notória quando Maldini se vê sozinho diante de Toni e mais dois atacantes ‘gigliati’; no segundo gol, Nesta fura ‘a la Roque Júnior’, e no terceiro gol, o veterano capitão também se encontra em minoria na hora de frear o centroavante fiorentino.

Serginho foi realocado na defesa para dar empuxo às jogadas pelas laterais, mas é sabidamente nulo na marcação – embora eventualmente possa dar alguma ajuda. O ponto é que a flacidez da defesa não pode ser imputada ao meio-campista brasileiro. Stam, Nesta e Maldini juntos deveriam, em tese, dar conta do recado.

É bem verdade que o técnico Cesare Prandelli foi muito inteligente ao povoar o meio-campo para cruzar à exaustão e explorar a defesa a três do Milan. Mesmo assim, se constatarmos que o Milan só terminou a partida sem sofrer gols em três das doze partidas até aqui, tem-se uma noção do problema. A Juventus manteve o gol inviolado em oito das doze partidas.

Não há um motim contra Carlo Ancelotti, mas é cada vez mais claro que o grupo não está com a mesma disposição de 2003. Também é nítido que o time carece de variações táticas para suprir jornadas de menor brilho de seus craques. Como jogar num 4-4-2 como o da Juventus com Kaká? Como escalar Cafu na defesa sem sobrecarregar Gattuso? Como explorar as laterais do campo sem perder consistência no meio? Essas são algumas das perguntas que Ancelotti terá de responder para levar o Milan de volta às performances que conquistaram a Liga dos Campeões.

Bam-bam-bam-bam: Juve implacável

O início do jogo entre Roma e Juventus sugeria um desfecho surpreendente. A Roma mandava no jogo e pressionava a Juve em seu campo. Tomada a bola do time juventino, os romanistas impediam que o meio-campo de aço da Juventus fizesse sua festa. E já tinha juventino enrolando a bandeirinha alvinegra.

No finalzinho do primeiro tempo, Nedved aproveita uma soneca da defesa romanista e a líder vai para o vestiário na frente. E com 13’ do segundo tempo, Ibrahimovic recebe um cruzamento, controla a bola espetacularmente e faz um golaço. O jogo acaba.

Na verdade, não acabou propriamente. A Juventus enconrou tempo para fazer mais dois e relaxar. Mas quando o atacante sueco enfiou a bomba no gol de Doni, retomou a posse de bola para seu meio-campo, já que a Roma teria de se abrir e jogar em velocidade – num momento em que o fôlego já não era o mesmo de quando a partida começou. E aí, como a maioria dos adversários juventinos derrotados já sabe, se a posse de bola está com a Juve, babau.

O resultado acachapante é uma demonstração de força. Mesmo jogando mal, a Juventus conseguiu doma uma Roma cheia de vontade e a eliminou com duas estocadas. Um auto-controle e frieza típicos de times campeões e mais ainda, de times dirigidos pelo maquiavélico Fabio Capello.

“Ah, então você está dizendo que a Juve já ganhou?”. Não. O campeonato anda é longo, o elenco juventino não é tão grande e a prioridade ‘bianconera’ é a LC, que certamente há de cobrar a sua taxa em termos de contusões e cansaço. Mesmo assim, a Juve joga com o vento pela popa e é quem está em condições de dar as cartas, por hora. Salvo uma reação definitiva e consistente do Milan, é difícil imaginar a Juventus chegando em outra posição que não a primeira.

Um Figo que destoa

Inter x Parma, em San Siro. Jogo fácil. Não? Não. E não fosse por uma performance ótima de Luis Figo, a Inter poderia perfeitamente ter arrebanhado um mísero ponto diante de um time que luta para não cair. Como disse Alberto Cerruti na Gazzetta Dello Sport, uma Inter que “joga nos limites de sua mediocridade”.

A busca por culpados já começou em Appiano Gentile. A depressão de Adriano, a inexperiência do técnico Mancini, a falta de vontade de Verón – que já disse querer voltar para a Argentina. O de sempre.

Por partes: a Inter não tem um elenco ruim. É um grupo bom o suficiente para, em alguns anos, chegar a um título. Isso, claro, se estivéssemos falando de outro clube. A culpa também não é de Roberto Mancini, que pode ser realmente inexperiente para estar à frente de um clube grande, mas não tem uma parcela de culpa que o coloque na cruz. O problema da Inter é ela mesma.

A Inter é o único clube do mundo que está interessado por todos os jogadores á venda ou não. Se o sujeito tem mais de 15 anos e menos de 40, a Inter está interessada. Isso certamente não ajuda em nada aqueles que estão no clube – e até ajuda a desestimular.

Outro problema é a eterna mudança no meio do caminho. Fala-se agora, pela décima milésima vez, que Mancini está a perigo. Seja quem for seu eventual substituto, terminará o campeonato sem títulos – como esta coluna já disse mais de uma vez – e ainda com o agravante de iniciar a temporada seguinte já com desgaste junto ao elenco.

Como já admitiu o próprio Recoba, à Inter falta um líder. “O Milan tem Maldini,e nós temos Zanetti”. A frase é extremamente feliz para ilustrar como o vestiário interista carece de homens que coloquem disciplina no elenco. Vieri, anos atrás, definiu a Inter como sendo “um inferno” para se jogar.

Soluções? Contratar um bom treinador, fazer aquela varredura no elenco E diretoria e dar ao mesmo duas temporadas inteiras no comando, com plenos poderes para enquadrar jogadores malandrões. Exemplo: Scolari com carta branca. Para se salvar a Inter da mediocridade à qual se referiu Cerruti, é preciso exorcizar os fantasmas que lá estão. E isso é bastante difícil.

– Ballack está se achando o Maradona.

– Numa entrevista na semana passada, disse que “jamais jogaria na Itália” que tem nojo do futebol italiano.

– Um a menos para a Inter contratar.

– Mas quem a Inter pode realmente contratar é Cassano.

– Para a Roma, seria vantagem vender o jogador em janeiro e evitar que ele vá para Turim de graça.

– Na Fiorentina, quem está ‘quase certo’ de acordo com o agente do jogador, é o zagueiro s’ervio Nemanja Vidic.

– Ou seja: 50/50, porque palavra de agente…

– Meio Ajax pode estar na Itália na próxima temporada.

– Pienaar (Roma), Heitinga (Juventus), Sneijder (Milan) e Stekelenburg são cobiçados.

– Claro, a Inter também quer todos.

– Eis a seleção Trivela da 12ª rodada:

– Frey (Fiorentina); Ujfalusi (Fiorentina), Cannavaro (Juventus), Felipe (Udinese) e Castellini (Sampdoria); Luis Figo (Inter), Fiore (Fiorentina), Camoranesi (Juventus) e Nedved (Juventus); Reginaldo (Palermo) e Toni (Fiorentina)