Uma semana de derby não é nunca uma semana comum em Milão. Verdade que nem Milan nem Inter estão no auge de suas formas e precisam comer muito arroz com feijão se quiserem convencer. Ainda assim, quando as portas de San Siro se abrirem para receber as duas torcidas no final de semana, será como uma final de Liga dos Campeões. Como sempre.

O jogo tem importância maior para a Inter do que para o Milan. O clube ‘rossonero’ atravessa uma temporada intermitente, mas ao menos já deu provas de sua força. A temporada está perdida? Não, claro. Mas há no ar uma indefectível sensação de que nem tudo se remediou depois da tragédia do Bósforo. De que outra forma se explica Nesta jogando mal, Vieri sem fazer gols Kaká alternando partidas boas e ruins e a sombra da aposentadoria de Maldini no horizonte?

Para a Inter, no entanto, o jogo é o jogo a vida. Como sempre. Roberto Mancini está – e sempre estará, até que vença um troféu importante – na corda bamba. Com o que tem á disposição, precisa montar um time que bata o Milan com folga. Não interessa que qualquer time bom precise de tempo para se acertar. Na Inter, tempo é um conceito bastante discutível.

Muito provavelmente o Milan terá dois desfalques certos (Ambrosini e Cafu) e dois prováveis (Maldini e Serginho). Como ninguém espera uma mudança tática, Simic deve jogar na direita com Stam na zaga. O resto é igual, com Gilardino e Shevchenko na frente.

Na Inter, os dois desfalques, Zé Maria e Kily Gonzalez, quase não fazem parte da escolha de Mancini. Mas o meio-campo preferido do técnico (assim como o de Ancelotti) está disponível. Figo e Stankovic pelas alas, com Verón e Cambiasso pelo meio. O argentino é o destaque. Não, não Verón, mas Cambiasso, que certamente é o interista mais regular na temporada.

O que esperar? Bom, primeiro, San Siro bombando – se Deus quiser, sem presepadas como as de Messina ou Florença. No campo, a partida será decidida no meio-campo. O do Milan é mais técnico e mais imprevisível; o interista, mais veloz e mais incisivo nas jogadas pelas laterais. Quem ganha? Não dá para dizer. Como sempre.

Uma paulada na Roma

E a novela Mexes segue forte e pimpante para atazanar a Roma. Agora, o TAS de Lausanne (órgão independente que decide questões de foro esportivo) determinou que a Roma pague € 7m para o Auxerre e fica proibida de contratar jogadores até junho de 2006. Ou seja, sem reforços em janeiro.

Resumindo a história: Mexes estava sob contrato com o Auxerre quando a Roma começou a negociar com ele. O clube de Trigoria aguardou o final de seu contrato e sua chegada foi a custo zero. O clube francês foi à UEFA e conseguiu que a Roma fosse condenada. Várias apelações depois, a sentença foi confirmada. Importante dizer que não cabe mais nenhuma instância para recurso.

Soubesse a Roma do futebol de Mexes na Itália e certamente o clube teria deixado para lá. Ainda que não seja uma negação, O francês jamais empolgou e nunca chegou a garantir um lugar no time. Foi contratado para o lugar de Samuel, que tinha ido para o Real Madrid, mas até novatos como Bovo e Scurto chegaram a jogar colocando-o na reserva.

A Roma precisa de reforços para janeiro? Não, na verdade. O clube ‘giallorosso’ tem ambições limitadas nesta temporadas. Realisticamente falando, uma vaga na Copa Uefa é mais do que satisfatória. A Liga dos Campeões seria praticamente um ‘scudetto’. Título? Copa Itália, se tanto.

A Roma pode mesmo é se dar por feliz que o TAS não a bloqueou para uma última e desesperada tentativa de vender Cassano. O atacante definitivamente é um ‘divorciado em casa’ e sua saída é questão de tempo. Se conseguir se livrar do jogador em janeiro, o clube talvez possa ver uma graninha, para evitar que um investimento de € 35m saia quatro anos depois sem nenhum troféu conquistado e de graça. Pior: provavelmente para a Juventus.

Zoro, um tapa na cara da Uefa

Quando o defensor do Messina, Zoro, se encheu dos abusos racistas da torcida interista e colocou a bola embaixo do braço, provavelmente estava só dando vazão à sua indignação. Ainda que não saiba, estava fazendo mais do que isso. Zoro pode ter marcado o futebol europeu contra o racismo da mesma maneira que a lei Bosman fez contra a lei do passe.

Jornais por toda a Europa enalteceram a atitude do marfinense. “A Uefa não pode mais ser covarde e se esconder”, estampo o tablóide britânico Daily Express. Mas não foram só os tablóides que bateram palmas para Zoro. Jornais como o Guardian, o L’Equipe e o Frankfurter Allgemeine também bateram na tecla. O caso aqui é que, pela primeira vez, um jogador teve coragem de não respeitar a complacência do árbitro e tomar uma atitude.

O que espanta no caso é que Marco André Zoro Kpolo, 21 anos, não é Kaká, naão é Ronaldinho, não é Nedvedou nenhum outro jogador consagrado. Mesmo assim, ao invés de fingir que não era com ele, resolveu dar uma demonstração de civilidade, protestando raivosamente e chorando. Como qualquer outro jogador deveria fazer. Sempre.

O ponto é que a Uefa tem base para uma punição severa à Inter. Palhaçadas da torcida são passíveis de punição mesmo quando jogando em viagem. O árbitro Trefoloni pode ter sido pouco corajoso no campo, mas relatou o incidente na súmula. E para piorar, a Inter tem um passado recente digno de uma gangue mafiosa em termos de disciplina nos estádios.

Só que será que a Uefa teria coragem de aplicar uma sanção pesada ao clube italiano, abrindo um precedente que certamente levaria a novas condenações em países como Espanha, Holanda e Alemanha? Difícil. Numa entidade tão política, tal dose de disciplina tende a custar caro quando se negocia uma reeleição.

– A semana que começou mal com o ‘Zorogate’ teve mais um incidente lamentável na quarta-feira.

– Antes da partida entre Fiorentina e Juventus, os torcedores do time de Florença fecharam o tempo com a polícia na frente do estádio Artemio Franchi, e a Lei usou gás lacrimogêneo para dispersar a marginalia.

– A fumaça tomou conta do gramado e o jogo ficou suspenso por quase meia hora.

– É difícil entender porque uma cidade tão linda como Florença tem uma torcida que esconde facções tão torpes.

– Parma e Palermo ‘confirmaram a confiança em seus treinadores’, respectivamente, Mario Beretta e Luigi Del Neri.

– Tradução: é grande a chance dos dois serem demitidos.

– Esta é a seleção Trivela da 14ª rodada.

– Berti (Empoli); Bega (Cagliari), Galante (Livorno), Scurto (Chievo) e Lanna (Chievo); Brocchi (Fiorentina), Emerson (Juventus) e Camoranesi (Juventus); Flachi (Sampdoria), Pazzini (Fiorentina) e Ibrahimovic (Juventus)