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Era para ser um retorno à glória, mas foi mais um ano da Turma do Didi no comando do segundo clube com  mais titulos europeus. Uma campanha de contratações milionária flopou como poucas vezes se viu na elite do futebol europeu. Neste ano, o Milan não tenta só jogar bola – precisa também desinfetar a presença do fantasma de Silvio Berlusconi. Não espere um futebol cintilante do Milan nos próximos 12 meses. Se o ícone milanista e treinador, Gennaro Gattuso, organizar um time da primeira à última rodada, por mais simples que ele seja, já estará de bom tamanho. Depois de um ano tão confuso, a vaga na Europa league tem sabor de torneio de várzea como um Paulistão requentado.

No primeiro ano pós-Berlusconi, o Milan se iludiu com uma campanha de contratações desgovernada e pensou que estava de volta à elite do futebol italiana. Aos poucos, foi tomando seu choque de realidade, vendo que tinha contratado pessimamente e estourado o cheque especial na Uefa. No fim, conseguiu sair com uma vaga na Europa League enquanto a rival Inter voltava à Europa que conta. Para fechar, a contabilidade de boteco de Ribeirão Pires ganhou um cartão vermelho da Uefa e até a vaga na prima pobre da LC correu risco, salvando-se (justamente) num tapetão do TAS, o STJD sério europeu. Isso, sem contar que o primeiro proprietário pós-Berlusconi revelou-se um mutreteiro de quinta, e por conta de uma dívida de €32 milhões, perdeu o clube para um fundo de investimentos, credor do China. Sim, esse parágrafo trôpego e sem sentido é um retrato fiel do caos dos últimos 12 meses. Ah, sim, para não esquecer a gestão de Donnarumma, goleiro que começou a temporada valendo €120 milhões e terminou valendo menos da metade.

Ninguém passa na mão de Silvio Berlusconi sem se arregaçar. O líder populista italiano mais inescrupuloso, genial e perverso do pós-guerra levou o Milan às alturas e era fácil imaginar que em seu divórcio, ele se vingaria. As mais visíveis foram o cartão vermelho do fair play financeiro da Uefa (um engodo bizarro que consegue aceitar o PSG gastando €400 milhões numa temporada). As cicatrizes milanistas respondem por um mercado de €200 milhões que conseguiu ter efeito zero no campo. Simples assim.

O Milan tem um time modesto e com potencial, mas parte disso  já está condenada. Donnarumma só não será vendido hoje porque ninguém quer pagar os €90 milhões que o clube exige por ele, mas se dependesse dele, ele iria para o União São João de Araras. Não só ele: o “capitão” Bonucci também quer vazar e o mezzala Giacomo Bonaventura está sob pressão do empresário Mino Raiola para ir para algum outro clube melhor.

O elenco do Milan não é só limitado – ele é curto. Dos 31 jogadores registrados para a próxima edição da Série A, pelo menos 10 não entrarão em campo porque estão um degrau abaixo. E se todos os setores têm um time titular aceitável para tentar terminar entre os quatro primeiros colocados do torneio, nenhum têm reservas à altura.

A defesa titular é válida: Donnarumma, Conti, Bonucci, Romagnoli e Ricardo Rodriguez (uma das únicas duas contratações válidas da temporada passada) poderiam ser titulares até da heptacampeã Juventus, mas nenhum dos reservas – Calabria, Abate, Zapata, Musacchio e Antonelli – fizeram uma temporada mediana em 2017-18. O croata Strinic é o único reforço até agora e é uma alternativa válida, mas nada além disso.

Gattuso monta seu time com duas convições: seus atacantes precisam marcar a saída de bola e seus laterais têm de apoiar e serem cobertos pelos meio-campistas, com cada mezzala se aproximando da lateral. Kessié (a segunda contatação bem sucedida da gestão anterior) é o único seguro, por conta de um físico excepcional e uma técnica apurada. Todos os demais falham em alguma medida. Esse problema é insolúvel na medida em que o clube dificilmente contratará alguém bom o suficiente para resolver a questão. A única chance é um desempenho melhor de Biglia, uma contratação fantasticamente ruim e de uma regeneração de Bertolacci, que é certamente capaz de desempenhar a função, mas não tem comprometimento suficiente.

Por fim, o ataque. O elenco não dispõe de nenhum jogador capaz de jogar no nível da Liga dos Campeões. André Silva e Kalinic, contratados por €70 milhões em 2017, estão sendo oferecidos para todos os trouxas da Europa, mas trouxas a ponto de recuperar o investimento, é difícil. Cutrone, Suso, Çalhanoglü e o recém-chegado Halilovic (um candidato fracassado a suceder Messi no Barcelona) sugerem que o trabalho ofensivo nas laterais pode ser suficiente, mas sem um atacante de peso, não dá para esperar que nenhum jogador chegue a fazer mais de 12 gols no ano. E falando em atacante de peso, Gonzalo Higuain tem sido indicado como um alvo prioritário do Milan, algo que indica uma incapacidade de Leonardo em observar que um jogador de 31 anos custando mais de €50 milhões só pode acabar num mau negócio.

Daqui a um ano, o Milan pode ter conseguido sua vaga na Liga dos Campeões. Ela terá diso fruto de muito trabalho e obstinação. Contudo, a chance é pequena. O quadro mais possível é o de mais um ano de Europa League, Gattuso demitido no meio do campeonato e outro ano de frustração. Como o mercado ainda tem algumas semanas, talvez seja possível reaproximar o clube do curso ideal, mas, sinceramente, parece difícil.