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Uma excelente matéria do Gentlemen Ultra da Sporte Network do Guardian fez uma feliz observação em relação ao momento do futebol italiano. A Juventus faz a contratação mais cara de sua história – o português Cristiano Ronaldo –  e a primeira de relevo para a Série A em uma década no mesmo momento em que clubes tradicionais do país anunciam suas falências, como Bari, Reggiana e Cesena. Uma lembrança me vêm à cabeça: na mítica série Game of Thrones, uma das cenas mais marcantes de Lord Varys, o eunuco lowborne que ganha relevo social graças a uma habilidade política extraordinária, descreve seu maior rival, Petyr Baelish, o Littlefinger: “Ele não teria pudores de destruir todo o reino, sem deixar pedra sobre pedra, desde que ele fosse o rei”. Qualquer semelhança com a Juventus (não) é mera coincidência.

Já escrevi sobre isso antes (veja aqui e aqui – e adicione ao quadro a ausência italiana na Copa): a onipotência juventina é filha do projeto de vingança de Luciano Moggi, de longe o dirigente mais poderoso na Itália nos últimos 40 anos. Mesmo sem uma ligação formal com a Juve, Moggi, o criador e gestor do sistema corrupto que ele criou para dominar o calcio, recuperou-se dasa acusações do Calciocaos e fez questão de não deixar pedra sobre pedra em seus inimigos. Todos seus desafetos estão fora do jogo, desde o ex-premiê Silvio Berlusconi até figuras menos dominadoras como o rebelde técnico Zdenek Zeman. Os sete campeonatos não foram vencidos com arbitragens ladras porque não era preciso. Em vez disso, todas as oportunidades e bons negócios eram rifados entre os aliados. Aos inimigos, restaram as batatas. Inter e Milan tiveram sua capacidade de investimento alijadas, especialmente depois da saída de Mourinho da Inter. Patrocínios, negócios e boas contratações foram canalizadas para os donos do sistema. Por conta disso, times médios como Lazio e Atalanta mantiveram bons elencos e se reforçaram adequadamente enquanto Inter e Milan tiveram de ser vendidos para estrangeiros.

Neil Morris, do Gentle, lembra que nada menos que 153 clubes na Itália quebraram e foram “re-fundados” de 2002 para cá. Essa cifra é astronômica. Para se ter uma medida, as cinco primeiras divisões da Inglaterra (o que os britânicos chamam de League Football) têm 92 clubes. Claro que associações amadoras entram nessa conta, mas o todo foi absolutamente rebaixado. A Itália viu somente três novos estádios na última década enquanto o resto do continente teve outros 134 novas arenas. A receita global do futebol na Europa teve um acréscimo de cerca de 30%, enquanto a italiana não só ficou estagnada, como viu a Juventus drenar sangue dos demais clubes. O faturamento juventino é maior do que os de Roma e Napoli, seus concorrentes recentes, juntos.

Bari, Reggiana e Cesena não são as últimas associações a entrarem na câmara ardente em busca de um recascimento em divisões inferiores. Dificilmente a próxima década terá uma situação melhor e possivelmente teremos uma média de 4-5 clubes profissionais quebrando todos os anos. A Juventus reinará sem rivais por, no mínimo, outros cinco anos. Isso não significa que a Juve chegará ao 12o. título consecutivo em 2023 porque o futebol tem a beleza da zebra, como o Leicester mostrou há três anos, mas o time a ser vencido será sempre o da vizinhança mais rica de Turim. O preço da glória juventina é a sopa de cadáveres dos inimigos de Moggi (ou simplesmente dos que não têm a sua simpatia). Para a Itália, isso é péssimo, já que a liga italiana chegou a representar 2% do PIB do país no começo da década de 90. Mesmo assim, isso não é pior do que a estagnação econômica e tecnológica que Berlusconi deixou como herança de seu período à frente do país durante quase três décadas. O desemprego, polarização política e populismo que estáo devorando a Itália são piores do que o sepultamento de alguns clubes por ano. Sabe-se lá quando isso vai mudar…