No começo dos anos 80, Silvio Berlusconi ainda não tinha entrado para a política. Ele era um milionário italiano com ramificações na construção civil e mídia e que entendeu antes dos demais o poder e exposição que um clube de futebol poderiam propiciar. Em 1986, ele comprou o Milan e durante 20 anos venceu mais do que qualquer outro clube europeu. Berlusconi iniciou um trend no futebol europeu, o dos megamilionários que elevaram o nível do mecenato no Calcio de um amparo eventual a um investimento faraônico. Ironicamente, o Milan, o inventor da gestão dos superproprietários, que seja a primeira vítima do neofutebol de sheikhs e corporações. É esse Milan que se prepara para mais uma melancólica temporada cujo desfecho está escrito antes de a bola rolar.

Dificilmente um campeonato que se prevê catastrófico tem um desfecho positivo. É uma característica de ligas inferiores, onde a qualidade técnica é nivelada por baixo e onde a montagem dos times se faz mais ou menos numa bacia só. O Milan de Inzaghi se desenha frustrante sob todos os aspectos, por mais que o jogador seja querido da torcida e tenha feito dois anos bons na base. Inzaghi só pode brilhar caso clubes que estão na frente do Milan – leia-se Juventus, Roma, Napoli, Fiorentina, Inter e Lazio, nessa ordem, consigam nutrir um caos ainda maior do que o germinado por Adriano Galliani e Berlusconi.

Um jornalista italiano fez uma lista das últimas 26 contratações de Galliani: Balotelli, Birsa, Bojan, Constant, Didac Vilà, Essien, Gabriel, Honda, Matri, Mesbah, Mexes, Montolivo, Muntari, Niang, Nocerino, Pazzini, Poli, Rami, Salamon, Saponara, Silvestre, Taarabt, Taiwo, Vergara, Zaccardo, Zapata. Montolivo, Poli e talvez Mexès são os únicos cuja passagem por MIlanello não tenha sido deprimente. O esquema adotado por Galliani nos últimos anos é o de parcerias com empresários que tragam jogadores a baixo custo nominal por salários importantes. Basta dizer que Bonera tem um contrato (recém-renovado) de €2.5 milhões anuais, e que o clube tem quatro goleiros que custam mais ou menos o mesmo que Buffon custa à Juventus sendo que nenhum deles está à altura do que o time precisa.. Tudo sob os auspícios de um senil Berlusconi.

Para se entender a crise do Milan é preciso retornar a 2004. Na época, Berlusconi ainda era premiê e tinha nas vitórias juventinas de Capello um problema para sua estratégia mediática. O político convidou o então diretor de futebol da Juventus, Luciano Moggi, para assumir o futebol do Milan. Berlusconi pretendia encaminhar Galliani à política e deixar Moggi cuidar do clube italiano mais vencedor da Europa.

Berlusconi sabia que Moggi era mais que um diretor com olho clínico para jogadores. O esquema de árbitros que ele geria era famoso e utilizado por praticamente todos os clubes. “Deixe Moggi onde está porque ele conhece todos os ladrões de antemão”, dizia o ex-patrono juventino, Gianni Agnelli, quando questionado na intimidade sobre a corrupção que Moggi utilizava.

urlDaquele momento em diante, Galliani não teve mais confiança em Berlusconi e o sistema todo passou a desandar. Há quem ache que nas denúncias que derrubaram o esquema de arbitragens de Moggi, estava uma denúncia de Galliani, ávido por liquidar o seu rival e possível sucessor. O Milan nunca mais fez um mercado centrado, com reforços de qualidade para setores carentes, nem mesmo nos últimos dois anos de Ancelotti. O Galliani dos últimos anos é um wheeler and dealer, giria inglesa para “mutreteiro”. Os 26 da lista acima comprovam isso. A convulsão política, a falta de direcionamento, aumento de dívidas e diminuição de receitas são os sintomas de um regime em deterioração (isso vale tanto para o Milan quanto para a Venezuela ou a RIM, fabricante do Blackberry).

A crise do Milan é um reflexo da crise italiana. O país é o que menos gasta com inovação no G7, até a eleição passada tinha o parlamento e ministério mais velhos da Europa, tem uma crise de produtividade na economia e de falta de capacidade de investimento, além de uma crise política na qual as novas gerações não se vêem representadas (culminando no surgimento do 5Stelle, partido criado pelo humorista Beppe Grillo que tem propostas animadoras mas que tem um potencial perigosamente autoritário). Os grupos políticos que comandam o país desde o pós-guerra são os mesmos, com meia dúzia de famílias gerindo a maior parte da economia. Funcionalismo público, sindicatos e autarquias dividem as sobras da economia para perpetuarem-se no poder, sem nenhum tipo de preocupação com o futuro. Trata-se de um sistema colapsando é a mudanca de poder só pode acontecer de forma traumática. Os atuais detentores não vão abrir alas para a nova geração passar. Como o slogan de “O Poderoso Chefão 3” dizia, “The real power can’t be given – it must be taken“.

A saída do Napoli da LC para um time médio da Espanha tem muito a ver com a crise do Milan. O futebol de um país depende da saúde de seus maiores clubes (como é possível atestar também em Brasil e Argentina, por exemplo). A ascensão de Roma Napoli só ocorreu por conta de uma falência generalizada dos grandes de Milão. Romanistas e napolitanos não transformaram-se em potências clubísticas – vencem mais porque Milan e Inter se apequenaram.