“Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?”
(“José” – Carlos Drummond de Andrade)

Neste momento de pausa na temporada europeia de clubes em virtude da data FIFA de jogos de seleções, o inglês Manchester United contabiliza dez partidas disputadas em três competições Premier League, Capital One Cup e Europa League. A gestão José Mourinho elenca seis vitórias, três derrotas e um empate.

Parte da imprensa inglesa questiona o trabalho de Mourinho, numa perspectiva em que todos esperam muito do trabalho do lusitano à frente dos red devils. Há argumentos que ressaltam um bom início, como nós mesmos temos enfatizado aqui neste 90 Minutos. Mas há dados que apontam algo a desejar.

Jamie Jackson do periódico britânico The Guardian é implacável ao restringir uma análise às sete primeiras rodadas da Premier League, comparando o momento de Mou, às duas temporadas passadas comandadas por Louis Van Gaal. E a temporada de Mourinho fica abaixo daquilo que Van Gaal proporcionou.

Em sexto lugar da liga inglesa com 13 pontos neste momento, os red devils após o término da sétima rodada da Premier League 2015/2016, estavam no segundo posto com 16 pontos. A perspectiva a favor de Mourinho, se dá no número de 13 gols marcados contra 12 do time comandado por Van Gaal.

Se a atual conjuntura de Mourinho for comparada à primeira temporada de Van Gaal no United (e na Premier League), o United de Mourinho segue atrás. Na temporada 2014/2015, o United do holandês ostentava 11 pontos, vendo-se na quarta posição da tabela em sete rodadas, e tendo anotado também 13 gols (porém sofrendo 11).

Entretanto, estatísticas podem ser apenas dados fora de contexto. Nas últimas quatro partidas (uma pela Capital One Cup, uma pela Europa League e duas pela Premier League), o time elenca três vitórias e um empate.

Os dois últimos confrontos pela Premier League configuraram uma goleada incontestável sobre o atual campeão Leicester City (4×1). E o empate contra o Stoke City na última rodada, péssimo em termos de resultados, mas minimamente aclamado pela imprensa inglesa em termos de futebol apresentado.

Além dos resultados

O Guardian não deixa de observar o ambiente nos vestiários, algo que improvavelmente interrompeu a gestão de Mourinho no Chelsea, no fim de 2015. Na sequência ruim de três derrotas seguidas (duas pela Premier League, uma pela Europa League) entre os últimos dias 10 e 18 de setembro, Mou criticou nominalmente alguns atletas do elenco red devil.

Foram eles Luke Shaw, Henrikh Mkhitaryan (mais), além de Daley Blind, Jesse Lingard e Eric Bailly (menos). À exceção do armênio Mkhitaryan os outros quatro tem sido titulares frequentes, com Blind e Bailly solidificando a defesa do United, um problema não resolvido praticamente desde que Sir Alex Ferguson se aposentou.

Por outro lado lembramos o que temos ressaltado neste 90 Minutos, acerca de alguma boa vontade de Mourinho em dar espaço a contratações caras feitas nas últimas temporadas. Memphis Depay e Anthony Martial tem recebido minutos em campo, além da titularidade dada a Juan Mata, suposto desafeto de Mou nos tempos de Chelsea. Juntos os três custaram mais de 100 milhões de Libras aos cofres dos red devils, nos últimos dois anos.

Em contraparte o ídolo/capitão Wayne Rooney tornou-se o dano colateral consequente às oportunidades dadas aos três citados no parágrafo acima. O Guardian recorda que Ferguson em sua última temporada, já apontava um fim de ciclo do atacante inglês em Old Trafford. O jornal britânico recorda que o Rooney esteve perto de deixar o clube ainda em 2013.

Além de ter perdido um posto no time titular para Mata, Wayne Rooney está sendo eclipsado pelo jovem Marcus Rashford, revelado pelo próprio clube e com potêncial para se tornar algo tão grande quanto ele Rooney. A diferença etária é crucial, 18 anos da jovem promessa que completa 19 no próximo dia 31/10, contra os 30 anos do capitão que completa 31 no próximo dia 24/10.

Em campo são quatro gols de Rashford contra apenas um de Rooney, na temporada. Na véspera da estreia pela Europa League contra o Feyenoord em 15 de setembro, Mourinho elogiou Rashford publicamente. O português enaltece abertamente jogadores com potencial, ou até sem, como fez no passado.

Na época da Internazionale, Mou chegou a afirmar que Davide Santon seria um equivalente a Paolo Maldini (Milan), para os neroazurri. Os goleiros Petr Cech (Chelsea) e Júlio César (também Inter) não eram exatamente gênios, mas foram exaltados publicamente por Mou, quando trabalharam com o treinador.

Uma afirmação plena de Marcus Rashford automaticamente revelará o fim do ciclo definitivo de Wayne Rooney.

Novas aquisições inquestionáveis

Dentre os novos reforços que chegaram para esta temporada, Zlatan Ibrahimović é o fator que sepulta maiores aspirações de Rooney, sobretudo na competição por uma vaga como atacante de área. Contabilizando quatro gols em sete jogos só da Premier League, Ibrah completou 35 anos na última segunda-feira.

A capa que a nova edição da revista Four Four Two deu ao sueco, diz muito sobre seu sucesso na Inglaterra. Além de Ibrahimović, o marfinense Eric Bailly tem se sobressaído e seu companheiro de zaga Chris Smalling chegou a compará-lo com o sérvio Nemanja Vidić, zagueiro e ídolo do passado recente dos red devils.

Smalling comparou a agressividade e a técnica de Bailly nos tackles (carrinhos), à forma como Vidić o fazia. Para além de ambos, ficam as expectativas sobre os meias Mkhitaryan e Paul Pogba, sendo que o segundo mais caro e dotado de “maior grife”, previsivelmente já adquiriu titularidade.

O início de José Mourinho em Old Trafford não é ruim. O olhar para os “jardins dos vizinhos” não é recomendável, sobretudo sobre o jardim do Etihad Stadium, do líder da liga inglesa Manchester City. A atual Premier League tem um nível mais duro em relação às edições anteriores, incluindo-se melhores condições para os (reforçados) times médios/menores, em virtude do novo valor de transmissões televisivas.

O United volta a campo no dia 17 de outubro, em derby válido pela Premier League. Os red devils enfrentarão o rival Liverpool em Anfield Road (Liverpool/Inglaterra).

Imagem de Mourinho (ao centro: Richard Heathcote/Getty