Na metade dos anos 2000, o São Paulo Futebol Clube desenvolveu seu último ciclo vitorioso entre 2005 e 2008. Na época o clube foi incensado pela imprensa mas sua então proclamada “modernidade”, não era mais do que um mínimo necessário de organização estabelecida. Na prática o clube era menos pior que a concorrência.

Na última temporada o clube quase caiu para a segunda divisão do Brasileirão. Foi a deixa para sua diretoria trazer de volta o técnico Muricy Ramalho. Muricy foi auxiliar técnico de Telê Santana, no ciclo vitorioso do Morumbi, na primeira metade dos anos 90. Depois voltou em 2006 e comandou o time tricolor nos últimos três títulos nacionais obtidos pelo clube.

Em seu segundo e atual retorno, Muricy está prestes a completar um ano no comando do time. Após o Mundial 2014 o clube engrossou sua fileira de jogadores de ataque de renome. Kaká e Allan Kardec se juntaram a Alexandre Pato, Luís Fabiano e Ganso. Kaká literalmente justifica a alcunha de “galáctico decadente”, após sua passagem pelo Real Madrid, onde não conseguiu repetir atuações do período entre 2003 e 2007, pelo Milan. Este período culminou numa Bola de Ouro, um título italiano, um título Mundial de Clubes e uma Champions League, no currículo do ex-camisa 22 rossonero.

No entanto, o que chama a atenção é a ausência de bons defensores no elenco tricolor atual. A configuração do time lembra muito o período decadente dos galácticos do Real Madrid entre 2004 e 2006, onde Florentino Perez em sua primeira gestão, acumulava jogadores de ataque em decadência e/ou decrepitude física. Pérez na época se desfez de volantes como Makelele ou Cambiasso, sob a justificativa de não “venderem camisas”.

Chegou a ter no comando do time, Vanderlei Luxemburgo que durou em Chamartin entre o segundo turno da temporada 2004/2005 e primeiro turno da temporada seguinte, sem sequer saber falar espanhol. Na época o time blanco sucumbiu ao marketing em detrimento do futebol, algo que lhe custou 12 anos sem títulos de Champions League, jejum que cessou só no último mês de maio, com a conquista da décima CL.

Pérez aprendeu a lição e o Real Madrid venceu com um cangaceiro na zaga (Pepe), bons volantes (Khedira/Alonso) e um técnico que se tornou tricampeão da CL (Ancelotti), a frente do time.

Muito longe de ser galáctico e reluzente

Voltando ao São Paulo, porque o clube está no contexto brasileiro e a relação com o Santiago Bernabéu começa e termina no currículo de Kaká, questiona-se. E a pergunta é: porque o São Paulo está gastando tanto para manter tantos atacantes em fase duvidosa e não priorizou uma ou duas contratações, do setor defensivo?

O SPFC não dispõe de peças defensivas confiáveis já a algum tempo, talvez desde que Muricy deixou o clube em 2009. O treinador não é um técnico world class apto a ir para Europa, mas também não é um imbecil. A atual defesa tricolor rememora o período maldito do começo dos anos 2000, com Alexandre “pitbull” na cabeça de área e a dupla Reginaldo “cachorrão” e Rogerio Pinheiro no miolo de zaga.

Muricy costuma extrair o máximo de defensores ruins. Fez Mineiro ser negociado com o futebol europeu, com mais de 30 anos de idade. Fez Richarlyson, um meia ofensivo sem talento, render nas posições de lateral esquerdo e volante. Fez o esquecido Zé Luis ser um volante eficiente na temporada 2008. Breno poderia ter sido um zagueiro promissor se não fosse bruscamente comprado pelo FC Bayern, para ser preso na Alemanha por atear fogo na própria residência.

Sob comando de Muricy, Alex Silva chegou a seleção brasileira e também foi negociado com o futebol alemão, onde chegou a atuar de volante. Voltou ao Morumbi em 2008 ainda sob comando de Muricy, mas nunca mais foi relevante. Sem Muricy, os citados nunca mais conseguiram ser nada.

Essa aptidão com defensores de recurso técnico nulo desenvolvida por Muricy, lembra muito aquilo que Telê conseguiu extrair de Ronaldão no começo dos anos 90 e de Junior Baiano, na metade da mesma década. No entanto, com quase um ano de retorno ao Morumbi, Muricy não consegue o mesmo com Rodrigo Caio, Rafael Tolói e Antonio Carlos. Ou seja, o material humano é ruim.

A vinda de Kaká por seis meses só causa problemas para Muricy adminstrar os egos no vestiário. Trata-se de uma contratação feita pela diretoria para iludir sua própria torcida.