“Il Milan non spende poco. Il Milan spende male” (“O Milan não gasta pouco. O Milan gasta mal”). A análise de meia linha da Gazzetta é a a mais bem acabada definição de por que o clube se acostumou há anos com listas de reforços cheias de Bakayés Traoré, Dominic Adiyah, Oguchi Onyewus e similares. Tudo que você ouviu nas últimas semanas em termos de vaticínios sobre a saída ou não do eterno direttore generale Adriano Galliani é orelhada. Nada está definido. Como afirma o poster do filme “O Poderoso Chefão III“, poder de verdade não pode ser dado – precisa ser arrancado. No clube, tem lugar a maior batalha política desde a compra do clube pelo cleptopolítico Silvio Berlusconi nos anos 80.

Barbara Berlusconi era uma improvável fonte de decisão no Milan, Sua entrada foi muito mais para manter o sobrenome famoso ligado ao clube num momento em que o presidente de honra do clube está mais próximo da cadeia do que nunca em sua vida, vendo o seu PdL fazer água com o surgimento de novas forças na vetustas, paralítica, política italiana. A belíssima caçula de Berlusca, contudo, não passou seu tempo só namorando Alexandre Pato (e transformando-o em reserva de Emerson Sheik, pelo que parece). Além de especializações em marketing e muito estudo de como andam as coisas em Milanello, Barbara deu um direto no queixo de Adriano Galliani exigindo uma reformulação total, que vai muito além de trocar o DG. Barbara propõe uma releitura administrativa que mexerá com todos os departamentos, indo da contratação de jogadores até a ingestão das organizadas que são de facto, a razão pela qual Paolo Maldini vive um ostracismo rossonero, mesmo sendo o maior jogador da história do clube. No meio, mudariam fontes de financiamento, desenho societário, gestão legal, de marketing, de dependências (leia-se estádio) e tudo mais.

Quem apressou-se em colocar Galliani fora do baralho só esclareceu o desconhecimento total de política italiana. Na Itália, nada é definitivo, imediato, esperado, nem totalmente leal ou desleal. Galliani engrossou a voz, chamou Barbara de despreparada (fora dos microfones) e “aceitou” a demissão, desde que com uma indenização equivalente a 27 anos e 7 meses de trabalho. Isso, claro, sem contar o valor inestimável que seu arquivo tem em termos de podres de Berlusconi em três décadas. Num desdobramento até certo ponto surpreendente, Galliani recusou a decisão de Don Silvio em passar o comando para a filha e a solução encontrada – que desagrada a todos – é a de uma convivência forçada de um dirigente do velho futebol com uma menina que propõe recolocar o Milan na elite europeia.

O plano de Barbara não é modesto. Ele inclui a entrada de capital externo no clube – sócios – que trariam uma injeção imediata de pelo menos €1 bilhão, mas, mais do que isso, limpariam a máquina administrativa milanista e fariam o clube voltar a ser um dos cinco primeiros do mundo em termos de faturamento de marca (ao lado dos titãs espanhóis, do Manchester United e do Bayern de Munique). O dinheiro quase certamente viria do Oriente Médio ou Ásia e obrigariam Silvio a abrir mão de seu doping eleitoreiro que propicia uma contratação de peso quando o PdL vai mal. Tradução: o clube poderia dispor do próprio dinheiro sem ter de aceitar os rompantes berlusconianos que causam tão mal ao clube, ainda que pouco conhecidos (como o que fez o Milan recusar um Buffon praticamente contratado e renovar com Dida por quatro anos a €4 milhões anuais). Barbara pretende que o Milan, no mínimo, consiga uma capacidade de investimentos similar a Roma e Fiorentina, para começar. Mas a meta é rivalizar com o único clube comercialmente similar, a financeiramente renascida Juventus.

Galliani e Barbara estão afiando as armas, mas cada qual tem sua fraqueza. Galliani não pode destruir a filha de Berlusconi (não, nem ele é tão poderoso assim), mas Lady B também tem de entender que Galliani tem um certo respaldo conquistado em três décadas. O mais provável é que em junho o cargo de DG vá para um profissional (provavelmente Sean Sogliano, do Verona, um nome em ascensão na Itália). Nos outros nomes, contudo, é que se verá quem está ganhando o cabo de guerra. Barbara quer Paolo Maldini como responsável da área técnica; Galliani quer qualquer um, menos Maldini. Dependendo de como o lendário defensor estiver empregado em Agosto, é possível saber como anda a guerra nas entranhas  milanistas. de qualquer forma, como disse o ex-diretor do Tuttosport, Xavier Jacopelli, “Barbara sabe que Galliani e Berlusconi tem um inimigo a mais que ela: o tempo”.