“Ensaiei meu samba inteiro,
Comprei surdo e tamborim.
Gastei tudo em fantasia,
Era só o que eu queria.
E ela jurou desfilar pra mim”
(Benito de Paula)

Acabou o ano futebolístico brasileiro, o último antes da copa de 2014. Aquele que findou com liga nacional decidida no tapetão e condolências a operários que despencaram de estádios suntuosos, construídos com verba pública superfaturada.

Luan do Atlético/MG comemorando o gol da virada, gol do prêmio de consolação, colocou a bola por baixo da camisa. Era ritual de fertilidade ou a personificação da gravidez de mãe solteira? O alvinegro do Galo não estava milimetricamente lado a lado na estampa. Foi preto no branco, como um eclipse que sobrepôs a luz do luar argênteo, tal qual a camisa utilizada no torneio.

No dia seguinte a derrota para o Raja Casablanca, o jornalista Marcos Guiotti da rádio CBN, narrou sua crônica no programa “4 em campo”. Citou samba de Alcione mas que na verdade foi escrito por Benito de Paula. Ao findar tudo se resumia a “retalhos de cetim”.

Na terra onde se acredita jogar muito com a bola no pé, os valores amanheceram invertidos e moças bonitas que jogam bola com as mãos, eram premiadas no leste europeu, vestindo verde e amarelo. Sem gastos faraônicos nem a devida atenção.

É como num texto de Nietzsche, versão tupiniquim. Havia um lugar onde animais inteligentes aprenderam jogar bola. Ao invés de inventar o conhecimento, resolveram sediar uma copa do mundo. “Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto”. (NIETZSCHE, Friedrich. In Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral).

Do lado negro da lua, a espera em calmo desespero. Se a vida só se justifica enquanto fenômeno estético, o gol de falta de Ronaldinho Gaúcho, empatando o jogo contra o Raja Casablanca, foi um minuto soberbo e mentiroso. Eram marcados 63 minutos, 3 que segundo Bob Dylan, é um numero metafisicamente poderoso e 3 + 3 são seis. Um terceiro lugar no Mundial de Clubes a 21/12, perdeu para o Raja de 3 e venceu o Guangzhou por 3, coincidências enfim.

R10 eclipsado, ele que curiosamente eclipsava galácticos no Bernabéu, vestido de azul e grená. Um momento inaudito, como o céu da noite mais escura que carrega dois astros maiores, tal qual um filme de Lars von Trier. A plasticidade voluptuosa do gol de falta de R10, equiparável a cena de Kirsten Dunst desnuda e serena, observando o manto negro estrelado, dividindo luar e um planeta em rota de colisão com a Terra.

Kirsten Dunst em “Melancolia”.

Em “Melancolia”, a personagem de Dunst se casa às vésperas do fim do mundo. Situação um tanto análoga a um país que prepara uma copa do mundo às vésperas do sabe se lá o que virá. O branco da malha vestida pelo Atlético/MG terceiro lugar, tão alva e cintilante quanto um vestido de noiva. Serenos como heróis trágicos helênicos, alguns de nós esperamos por aquilo que virá depois, cientes daquilo que não haverá. Esperando por mais um dia de miséria.

A torcida está ensaiando desde o hino nacional, executado antes da final da Copa das Confederações. Comprou surdo e cachirola. Já gastou tudo em ingressos pré-vendidos sem conhecimento prévio de que confronto assistiria. Um amigo achou que veria Ribery ou Cristiano Ronaldo, descobriu que pagou pra ver Honduras e Equador. Era tudo que não queríamos ver, em retalhos de dri-fit ou clima cool. Em três listras de cetim. Na fábula nietzscheana, o astro habitado pelos animais inteligentes congela e eles morrem.
O país da copa não será tragado por nenhuma força cósmica, e aqueles que moram nele terão que pagar a conta. Em caso de vitória, não saia sem roupa publicamente. Ao último apito dos 90 minutos da final no Maracanã, o vestido de noiva poderá ter sido apenas fantasia…