Nesta quarta-feira, o ucraniano Shakhtar Donestk receberá o poderoso Real Madrid na Ucrânia, em partida válida pela fase de grupos da Champions League. Os times jogarão na Ucrânia sim, mas o Shakhtar se vê “exilado” Kiev, uma vez que sua cidade natal de Donestk, foi fustigada pelos conflitos entre ucranianos e russos, o qual se estende há meses.

O periódico espanhol El País, apresentou uma matéria enfocando os atletas brasileiros do elenco do Shakhtar, cuja concentração foi montada no Hotel Ópera, próximo à Ópera da cidade de Kiev. O time mais vitorioso da Europa Oriental está sendo obrigado a mandar seus jogos praticamente sem torcida, no estádio da cidade de Lviv. Kiev está a 700 km de Donestk (sudeste da Ucrânia), ocupada por forças armadas.

O El País enfoca o pouco lembrado meia-atacante brasileiro Dentinho (ex-Corinthians), descrito pelo jornal espanhol enquanto o último companheiro de ataque de Ronaldo “fenômeno”. No Shakhtar desde 2011, Dentinho é um dos 11 jogadores latino-americanos no plantel do clube, gerido pelo magnata Rinat Akhmetov.

Além dos brasileiros há o argentino, Facundo Ferreyra (ex-Velez Sarsfield), primeiro atleta da nacionalidade a ser contratado pelo Shakhtar. Ferreyra descreve o panorama de Donestk, pouco depois do título ucraniano obtido pelo clube na temporada 2013/2014.

“Os últimos dias em Donestk, já davam uma amostra do que viria”, diz Ferreyra. “A cidade estava tomada pelos separatistas. Quando íamos aos treinos, víamos homens encapuzados pedindo identificação. No começo a polícia fazia a escolta. Logo, a polícia foi substituída por paramilitares. Passávamos pela sede do governo e um dia a bandeira da Ucrânia estava hasteada, ao lado da bandeira russa. Ganhamos um campeonato nacional assim!”

Facundo Ferreyra segue narrando o estranhamento de ver a torcida em Donestk ostentando bandeiras russas e ucranianas, com alguns torcedores inclusive se insultando. “A tensão era terrível. As últimas rodadas foram muito difíceis. Temiam pela segurança. Jogamos em outros estádios. Não me lembro onde foi o jogo. Nos sagramos campeões sem torcida”.

Os desertores.

Em junho em 2014 seis atletas sul-americanos não se apresentaram ao clube para a pré-temporada 2014/2015, que aconteceria nos Alpes suíços. O incidente foi bastante noticiado no Brasil, uma vez que Dentinho, Fred, Ismaily, Alex Teixeira e Douglas Costa, estavam entre os “desertores”, junto ao citado Facundo Ferreyra. O motivo era o temor diante da progressão do conflito armado.

Ferreyra afima que a equipe sediou-se em Kiev naquela época e nunca mais voltou a Donesk. O diretor executivo do Shakhtar, Sergei Palkin foi quem negociou a permanência dos “desertores”. O plano era manter a equipe em Jarkov, ainda próxima a Donestk. O presidente do clube Rinat Akhmetov interviu e ordenou a manutenção do elenco em Kiev. Dentinho enalteceu a postura de Akhmetov, afirmando que qualquer outro dirigente teria os negociado.

Sergei Palkin ressalta que a própria UEFA ordenou que os times ucranianos mandassem as partidas em Lviv ou Kiev. A situação demandou uma reprogramação logística, onde até um “gabinete para resolução de problemas familiares”, foi criado. O clube queria dar tranquilidade aos atletas, para que estes treinassem sem preocupações para com suas famílias.

Vale lembrar que tão logo o conflito entre ucranianos e russos se iniciou, a UEFA suspendeu quaisquer confrontos entre clubes da Rússia e Ucrânia, pelos torneios continentais. Os times de ambos os países não podem se cruzar nos sorteios.

Em Lviv.

O Shakhtar tem mandado as partidas no estádio de Lviv, situado 500 quilômetros a oeste de Kiev, na fronteira da Ucrânia com a Polônia. Ali também se sediou parte do departamento administrativo do clube. As divisões de base foram para Poltava, ao passo que o time principal passou a treinar num campo abandonado, nos arredores de Kiev.

Parte da Donbass Arena danificada pelos bombardeios (Foto: SD)

Parte da Donbass Arena danificada pelos bombardeios (Foto: SD)

A vistosa Donbass Arena, que incluía um moderníssimo centro de treinamento, chegou a ser bombardeada durante o conflito em Donestk. Sergei Palkin ainda lamenta outras perdas. A média de público do Shakhtar na Donbass Arena era de 42 mil pessoas por partida, ostentando o recorde da Europa Oriental.

Depois do início dos conflitos o clube tem perdido cerca de 20 milhões de Euros por temporada, inclusos faturamentos de bilheteria, patrocínios e marketing. A venda de atletas se tornou a única fonte de recursos do clube. Palkin elenca as negociações exitosas recentes de Fernandinho (Manchester City) por 40 milhões, Willian (Chelsea) por 35 milhões e Douglas Costa (FC Bayern), por 30 milhões de Euros. O diretor geral ainda afirma que o presidente deu ordem de não contratar jogadores, enquanto o conflito não cessar.

Segundo o El País, os funcionários do clube só voltam para Donestk em caso de extrema necessidade, devido ao cerco paramilitar em torno da cidade. Palkin afirma que o presidente Rinat Akhmetov, tem utilizado a infra-estrutura abandonada pelo clube para distribuir alimentos aos habitantes. A própria Donbass Arena se tornou um centro de ajuda humanitária. Segundo o jornal, a fortuna de Akhmetov é oriunda de investimentos na exploração de minérios.

Dentinho ressalta ao jornal espanhol o bom contrato oferecido pelo clube ucraniano. O ex-corintiano revela ter recusado ofertas do Brasil e da Espanha, e que o fato do Shakhtar disputar a Champions League, motiva muitos a continuarem. Disputar a CL ainda é uma vitrine que possibilita oportunidades em clubes europeus maiores, sobretudo num grupo onde o time joga contra PSG e Real Madrid.

Colônia brasileira em Donestk.

Os atletas brasileiros recordam de Donestk como um “paraíso perdido”. O atacante Alex Teixeira relembra que “as esposas e noivas dos jogadores importavam caixas de guaraná e sacas de feijão”. O volante Fred era o churrasqueiro e todos se reuniam quando alguém fazia aniversário. A necessidade de aprender o idioma local se tornava diminuta, devido a tantos sul-americanos.

O argentino Facundo Ferreyra afirma que até o treinador romeno Mircea Lucescu, se expressa frequentemente em português. O volante ucraniano Stepanenko fala em português em campo, dirigindo-se aos atacantes brasileiros com expressões como “como estamos?”, “vamos, vamos” e “pressão!”.

Ferreyra elogia o pulso firme do técnico Lucescu no aspecto motivacional, uma vez que o time tem jogado sem torcida em Lviv. O argentino afirma que nas partidas da CL, a torcida rival do Dynamo Kiev comparece e apoia o clube por patriotismo. Segundo Ferreyra, na liga ucraniana o Shakhtar tem sido sempre “visitante”, o que favorece os rivais. “Donestk está exatamente na outra ponta do país, nossa torcida não pode viajar a Lviv. No estádio de Lviv, são todos torcedores do Dynamo Kiev.”

Nove vezes campeão da Premier League ucraniana e campeão da Taça UEFA (atual Europa League) 2008/2009, o Shakhtar Donestk recebe o Real Madrid, nesta quarta-feira às 17:30 hr (horário de Brasília). Band e TNT/Esporte Interativo, exibem a partida na tv brasileira.