“Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!”
(Carlos Drummond de Andrade)

O prelúdio era apocalíptico para o confronto entre Chelsea e West Bromwich, pela terceira rodada da Premier League, no último domingo. Tinha-se no panorama o pior início de temporada em 17 anos de carreira do treinador José Mourinho. Um décimo sexto lugar na tabela, um ponto em seis possíveis, um empate e uma derrota.

Um chilique midiático de Mou em relação à médica Eva Carneiro na primeira rodada e sim, cobranças públicas à sete titulares de sua equipe. Na véspera da partida, Mou afirmou publicamente em coletiva que “não estava contente com Ivanovic, Cahill, Terry, Azpilicueta, Hazard, Cesc e Matić”. Lembrando que Cesc é o meia espanhol Cesc Fàbregas.

Descontente com seus principais atletas, Mourinho afirmou que estava descontente “consigo mesmo” por consequência, em dito tomado pela imprensa enquanto perigoso. Um tipo de tentativa de uso de “psicologia reversa”, provocando os jogadores para ver se estes esboçavam alguma reação.

A maldição da terceira temporada.

Historicamente, as gestões de Mourinho em sua fase como treinador world class, não raro desandam na terceira temporada consecutiva. Muito provavelmente devido ao trato com os que estão ao redor e ao tom de suas cobranças. Foi assim na sua primeira passagem pelo Chelsea, quando na temporada 2006/2007, cessou-se uma sequência de dois títulos consecutivos da liga inglesa.

Mou duraria mais o início da temporada 2007/2008, sendo demitido por um Roman Abramovich ainda cartola imaturo, tão logo o time iniciou a Champions League empatando com o noruegues Rosemborg, na primeira rodada da fase de grupos. O time seria vice-campeão daquela edição do torneio, sem o treinador lusitano.

Na Internazionale a gestão de Mou foi perfeita durando apenas duas temporadas, a última (2009/2010) consagrando-o enquanto comandante da tríplice corôa europeia, obtida pelos neroazzurri. Em seus três anos de Real Madrid entre 2010 e 2013, o percurso desandou desastrosamente exatamente na terceira temporada, finalizada sem conquistas.

Mou acusou Casillas, Sérgio Ramos e até Cristiano Ronaldo de “traição”, descrevendo anonimamente alguns enquanto “ovelhas negras”. Após deixar Chamartín na metade de 2013, Mou retornou ao Chelsea

O fator Pedro.

Tendo chegado à Inglaterra dias antes da partida em Birmingham, Pedro surgiu entre os titulares do Chelsea contra o West Bromwich, debaixo de um céu chuvoso. Mou o escalou à direita do trio de meia-ofensivos num desenho tático em 4-2-3-1. O ex-meia-atacante do Barcelona concedeu algum dinamismo ofensivo a mais.

Pedro anotou o primeiro gol, com apenas 20 min de partida que transcorria em ritmo absurdo, por parte dos blues. A atmosfera imposta pra equipe londrina, amalgamava um misto de intensidade e ansiedade pelo resultado. O Chelsea ampliou dez minutos depois, com Diego Costa que aproveitou assistência concedida por Pedro.

O West Bromwich diminuiu de pênalti com Morrison aos 36 min. Azpilicueta ampliou para os blues aos 43 min, encerrando a etapa inicial com o marcador em 3×1 para o Chelsea. Três gols anotados por três atletas da seleção da Espanha.

A instabilidade psicológica voltou a afligir os blues, com o capitão Terry sendo expulso aos 10 min da segunda etapa. Mou sacou o meia Willian para a entrada do defensor Zouma. Com um a menos a tensão voltou a pairar sobre o grupo comandado por Mourinho. Morrison ainda obteve o segundo gol do West Bromwich, aos 59 min, mas os blues conseguiram conter o adversário e o placar final em 3×2.

Em termos táticos o estilo de jogo proposto pelo Chelsea é sim, previsível com ênfase na postura defensiva intransponível. Embora tenha um conjunto confiável, os adversários sabem como jogam os blues. Busca-se o “homem a mais”, um atleta diferenciado em termos técnicos, que talvez possa ser o próprio Pedro, por sua vez elogiado publicamente por Mourinho, na coletiva pós-jogo.

Mou afirmou que o ex-culé ofereceu ao time “um bom rendimento” e o meia-atacante espanhol poderá provar seu valor fora de um âmbito onde Iniesta, Neymar ou Suárez, ofuscaram-no. O treinador ainda tergiversou sobre o questionamento que recai sobre um jogador quando ele chega à Premier League, se o mesmo é realmente bom. Pedro incendiou a equipe e em contraparte, o Chelsea está repassando Juan Cuadrado, que retorna à Itália para se juntar à Juventus, após seis meses discretos em Londres.

Anteriormente suspeitamos aqui de alguma incompletude por parte do Chelsea, e esta incompletude agora parece mais no âmbito mental do que técnico. Em três rodadas o time já lidou com duas expulsões (Courtois na primeira rodada, e agora Terry).

Os blues se vêem com quatro pontos na tabela da Premier League, ainda distantes do líder isolado Manchester City (nove pontos), ao obter a primeira vitória da temporada.

Imagem de Pedro (à frente): J. Finney – Getty Images