La Liga: clubes abrem cofres em tempos de fair play financeiro.

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Neste momento a primeira rodada de La Liga espanhola 2015/2016, está em pleno andamento. É inegável e justo afirmar que o torneio tem atraído as atenções mundiais nas últimas temporadas, e não por acaso. Ao contrário do que os leigos supõem no Brasil, não se trata de um campeonato “só de Barcelona e Real Madrid”.

O periódico espanhol El País chamou atenção para o fato dos clubes estarem realizando mais contratações de atletas, neste início de temporada. Um maior número de atletas qualificados, contribui para o crescimento técnico das partidas, incluindo-se dos clubes médios e menores.

As últimas três edições da Liga tiveram três campeões diferentes. Real Madrid na temporada 12/13, Atlético de Madrid na 13/14 e Barcelona na última 14/15. A vitória dos colchoneros de Madrid na temporada 2013/2014, enfatizou o poderio dos times médios espanhóis. Naquela temporada, o Atlético foi vice-campeão da Champions League, sendo derrotado pelo rival Real Madrid.

Os dois últimos campeões da CL são espanhóis, o próprio Real Madrid e o Barcelona. O panorama se reflete na Europa League, torneio no qual o Sevilla também pertencente a primeira divisão espanhola, é o atual bi-campeão consecutivo. A preponderância dos espanhóis é sim, continental.

O ponto de mutação.

O fair play financeiro imposto pela UEFA, obrigando os clubes a conter gastos e manter as finanças em dia, sob possibilidade de punições em caso de irregularidades; tem contribuído para o crescimento dos clubes médios europeus. Dentre estas punições inclui-se veto à participação tanto na Champions, quanto na Europa League.

Este fato é um contraponto, lembrando que a UEFA iniciou a implementação do fair play, por volta de 2012. Os clubes da primeira divisão espanhola vinham obtendo mais dinheiro com vendas de atletas do que com aquisições. Algo que há quase dez anos atrás, era o incomum no futebol espanhol.

O El País ressalta que a partir do verão de 2012, houve uma mudança na forma dos clubes espanhóis gerirem e administrarem seus gastos. A partir daquele verão passou a ocorrer na Espanha, uma maior observação das administrações dos clubes, por parte do ministério da fazenda e ao órgão espanhol que corresponde ao ministério do trabalho no Brasil. Ou seja, o dinheiro recebido e repassado está sendo observado pelas autoridades espanholas.

Na temporada 2007/2008 segundo recorda o El País, os clubes da primeira divisão faturaram 575 milhões de Euros em vendas de atletas e gastaram 300 milhões em aquisições. Após isso houve uma contenção. No presente momento em que a janela de transferências ainda não fechou, os clubes da primeira divisão gastaram 500 milhões de Euros em aquisições.

O presidente da Liga de Fútbol Profesional (LFP), Javier Tebas explicita que o gasto atual é controlado, diferentemente de como era no passado. Em meio aos citados 500 milhões gastos até este momento, é preciso lembrar que os clubes milionários Barcelona e Real Madrid, extraordinariamente realizaram poucas contratações vultuosas. O fair play financeiro freia os ímpetos dos clubes milionários.

A janela de transferências se fecha em 31/08, com catalães e merengues mostrando-se extraordinariamente pouco ativos. O Barcelona adquiriu Aleix Vidal (17 milhões de Euros) e Arda Turan (34 milhões) enquanto nomes relevantes, desfazendo-se de Pedro (que foi para o Chelsea por 27 milhões). O Real Madrid até agora só anunciou Mateo Kovacic (cerca de 40 milhões), tendo os blancos gasto cerca de 200 milhões, nas últimas duas temporadas ao adquirir Bale, Kroos e James Rodriguez.

O panorama era muito diferente no ano de 2007, antes da crise mundial de 2008. O contexto econômico espanhol do início da temporada 2007/2008 é recordado pelo El País. Apontava-se que a Espanha mantinha um PIB em crescimento de 3,5% e o país se via em superávit de 23 milhões de Euros. Havia crédito bancário e índice de desemprego baixo. Este não é o atual panorama sócio/econômico local.

Naquela temporada a aquisição recorde foi feita pelo Real Madrid, que contratou o holandês Arjen Robben junto ao Chelsea, por 36 milhões de Euros. Era a joia da corôa dos 250 milhões de Euros gastos num pacote que incluiu Sneijder, Saviola, Metzelder, Henize e Pepe. O El País ressalta que em 2007, apenas quatro clubes da primeira divisão não fecharam a temporada em déficit, ou “no vermelho”.

Médios e pequenos re-estabelecidos.

Javier Tebas afirma que há duas temporadas atrás, ressaltou que num dado momento os clubes voltariam a contratar. Há duas temporadas os times espanhóis venderam muitos atletas para manter a própria saúde financeira, lembrando que a implementação do fair play financeiro, já estava em curso na Europa.

O El País cita o exemplo do Deportivo La Coruña que há um ano recuou na negociação pelo atacante grego Mitroglu. O presidente Tino Fernandez deixou as negociações uma vez que foi solicitado 1 milhão de Euros a mais, além do inicialmente previsto. Nesta temporada o Deportivo realizou sua primeira aquisição em anos. Ostentando um superávit de 6 milhões de Euros, o clube adquiriu Lucas Pérez vindo do grego PAOK, por 1,5 milhões de Euros.

Uma contenção momentânea pode remeter a um cenário futuro de estabilidade. Javier Tebas ressalta que um cenário diferente, não permitiria o Atlético de Madrid segurar peças importantes como Griezmann e Diego Godín. A multa rescisória de Griezmann foi aumentada recentemente para cerca de 80 milhões de Euros.

Godín por sua vez recusou uma oferta do Manchester City, em nome de uma renovação de seu vínculo com o Atlético. Um cenário de responsabilidade administrativa atrai investidores como o chinês Wang Jianlim, acionista colchonero desde o início do ano.

O El País coloca que se consideradas as últimas dez temporadas, só cinco clubes se vêm na condição de poder adquirir, estes os quatro primeiros da última edição da liga (Barcelona, Real Madrid, Atlético de Madrid, Valencia). E o campeão da Liga Adelante (segunda divisão), o Real Betis. Todos os outros clubes tem vendido atletas para fechar o caixa e não são raros times que se recusam a contratar. Este panorama contribui para o aproveitamento de atletas das divisões de base, alternativa que ganha relevância.

Tebas afirma que há uma re-estruturação agraciando principalmente os clubes menores. Em 2012 deviam-se 700 milhões de Euros à Agencia Tributária espanhola. A previsão é do valor fechar em 350 milhões este mês e 300 milhões de Euros ao fim da temporada. A cifra total incluindo Real Madrid e Barcelona, cujos gastos distorcem muito a realidade dos outros clubes, chega a quase 2 bilhões de Euros (1,900 milhões).

Vale lembrar que os órgãos públicos espanhóis estão fiscalizando com rigor transações nebulosas, caso os clubes venham a protagonizar. Vide o caso da compra de Neymar pelo Barcelona, cuja situação arrola na justiça local.