O prognóstico do derby de volta das quartas de final da Champions League, ocorrido na última quarta e vencido pelo Real Madrid sobre o Atlético de Madrid por 1×0, era bem ruim. Pelo lado blanco Luka Modrić e Gareth Bale, lesionados no fim de semana anterior em jogo por La Liga espanhola, pareciam desfalques cruciais.

A imprensa espanhola descrevia uma certa preocupação do treinador merengue Carlo Ancelotti, sobretudo a procura de uma solução para o fato de Modrić estar vetado. O meia croata é um dos elementos principais na trinca de centro-campistas do módulo em 4-3-3, adotado por Carletto na atual temporada.

Porém, a escalação inicial apresentada por Carletto contra o Atlético surpreendeu muito. O zagueiro Pepe que se recuperava de problemas físicos ressurgiu e o módulo 4-3-3 do qual Ancelotti não abriu mão durante toda a temporada estava desfeito. O Real Madrid foi a campo contra o “Atléti” dispondo de três defensores: Pepe, Sergio Ramos e Varane.

A postura é surpreendente até certo ponto, uma vez que Ancelotti é um treinador oriundo da escola italiana. A formação merengue teve Casillas, Carvajal, Pepe, Sergio Ramos, Varane e Coentrão. Kroos, Isco, James Rodriguez. Cristiano Ronaldo e Chicharito. O time com estas peças pode variar o desenho tático entre 5-3-2, 3-4-3 ou 3-5-2 e não só isso.

O periódico espanhol El País chamou atenção para a figura de Sergio Ramos, que com o time detendo a posse de bola, se projetava ao meio-campo como primeiro volante. Assim era possível também um desenho em 4-4-2, com Ramos atuando de uma forma parecida, por exemplo com a que David Luiz (PSG) também proporciona. Sergio Ramos nunca havia atuado como volante, mas iniciou a carreira como lateral-direito no Sevilla. Com ele adiantado Toni Kroos passa a ter cobertura.

Assim Carletto sanou a deficiência do elenco merengue desprovido de volantes/interditores, que atuem fixos à cabeça de área.

Insight defensivista.

Esta formação do Real Madrid lembra bastante o Milan 2006/2007 de Carletto, equipe heptacampeã da CL dispondo de jogadores de qualidade como Pirlo, Seedorf e Kaká, mas atuando de forma pragmática e defensiva. Aquele Milan variava o desenho tático entre 3-6-1, 3-5-2, para uma redução do 4-3-1-2 da tese do próprio Ancelotti, vertido num 4-4-2 convencional, ou ainda um 4-1-4-1.

No começo daquela temporada o Milan perdeu Shevchenko negociado com o Chelsea. Carletto não teve pudor algum em preencher a lacuna deixada pelo atacante ucrâniano, com mais um volante (Ambrosini). Com a posse de bola, “o Ambrosini a mais” no meio-campo dava mais segurança aos avanços de Jankulovski, lateral esquerdo tcheco que defendia mal.

Kaká, então o trequartista rossonero, outrora o “1” do 4-3-1-2 foi adiantado, liberado para adentrar a área e eventualmente se tornava um segundo atacante pela esquerda, de forma muito similar a maneira como Cristiano Ronaldo joga atualmente. A diferença para o elenco que Carletto tem em mãos no Real Madrid, é que aquele Milan oferecia volantes/interditores eficientes como o citado Ambrosini e Gennaro Gattuso. Uma virtude italiana.

No campo ofensivo.

Voltando ao derby da última quarta, outro detalhe que gerou alguma inconstância para o Atlético de Madrid, foi a maneira como Carletto supriu os desfalques ofensivos de Benzema e Bale. Chicharito se movimenta muito mais que Benzema, sendo o francês mais pesado, porém mais habilidoso e melhor finalizador.

Atuando sem bola, o mexicano cumpre melhor a função de “falso centroavante” do que Benzema, função que inclui a capacidade de atrair os marcadores abrindo espaços para os meias que surgem. E atuando sem bola, Chicharito lembra muito o subestimado e decisivo Pippo Inzaghi, impotantissimo no Milan de Ancelotti nas conquistas da CL 2002/2003 e no citado título de 2007.

Já a ausência de Gareth Bale possibilitou o deslocamento de Cristiano Ronaldo pelo lado direito, setor por onde o português iniciou a jogada que culminou no gol da vitória blanca, anotado por Chicharito. Durante toda a temporada CR7 vem atuando pela esquerda e Bale pela direita, do tridente ofensivo do 4-3-3.

Em oito derbies entre Madrid e “Atleti” nesta temporada, Ancelotti alterou o módulo uma vez por força das circunstâncias e obteve a única vitória. A grande verdade é que nem o 4-3-3 do Barcelona funciona sem um volante/interditor na trinca de meio-campistas. No caso dos culés, Sergio Busquets é essa peça que desarma sem fazer falta e toca a bola para o lado com eficiência.

Atuando de forma defensiva tal qual na última quarta, o Real Madrid pode sim obter a décima primeira Champions League. Atuar em 4-3-3 contra o próprio Barça ou contra o FC Bayern, seria suicídio. Os times de Ancelotti jogando em postura defensiva, são superiores aos Diego Simeone, pois não abdicam de atacar.

Para além da Champions League, o Real Madrid retorna a campo neste fim de semana pela trigésima terceira rodada da liga espanhola. Os merengues em segundo lugar na tabela, visitam o Celta.

Foto de Sergio Ramos entre dois marcadores do Atlético de Madrid: Juan Medina – Reuters.