Não há mais o que vislumbrar sobre o aspecto tático da seleção brasileira. Todas as deficiências foram devidamente explícitas, mais uma vez na partida entre Brasil 1×1 Chile, vencida pelos brasileiros nos pênaltis, no último sábado. Vislumbrar mais implicará em sugestões de convocações que Felipão poderia ter feito e isso é debater o sexo dos anjos.

No entanto há um lado interessante, visto sobretudo nos momentos entre o fim do segundo tempo da prorrogação e o início da cobrança de pênaltis. A imagem de Thiago Silva, capitão do time, chorando sentado em cima da bola é no mínimo chocante. O defensor afirmou posteriormente a partida, em dito veiculado pela rádio CBN, que pediu para não cobrar a penalidade, sendo ele um dos cobradores oficiais.

Além de estar transtornado, Silva afirmou que as últimas duas penalidades que cobrou por seu clube, o PSG, foram falhas. Admitir a própria incapacidade é uma virtude, algo que este que vos escreve não imagina na boca de um Ronaldo (pesando quase 100 kg), um Roberto Carlos ou um Robinho no Mundial de 2006, por exemplo.

Júlio César não é Buffon, nem Casillas. E nem Barbosa.

Júlio César também mostrava os olhos irritados nas imagens antes do início das cobranças. JC foi colocado por alguns como culpado pela eliminação do Brasil nas quartas de final da copa de 2010, contra a Holanda. Foi convocado por Felipão debaixo de todas as desconfianças do mundo. Júlio César defendeu os dois primeiros pênaltis cobrados pelos jogadores chilenos e sozinho reformou, ao menos momentaneamente, a confiança de todo o grupo.

O goleiro Júlio César (que não é Buffon, nem Casillas, nem Oliver Kahn) não tem o valor reconhecido no Brasil, sobretudo porque atletas de defesa não são tão prestigiados pelo público como os jogadores de ataque, ao menos em nossa cultura. JC foi pentacampeão italiano seguido (2006 a 2010) pela Internazionale, tendo sido o goleiro titular da temporada 2009/2010, quando a Inter obteve a tríplice coroa européia, incluindo-se uma conquista de Champions League, depois de quase 40 anos. Ainda em 2010, JC estava no gol neroazzurri na final vitoriosa do Mundial de Clubes.

Júlio César

Júlio César

Júlio César contra o Chile. (Fabrice Coffrini)

JC não teve exatamente uma queda produtiva na Inter, após 2010. O clube simplesmente se via estabelecido em meio a crise que assola todo o futebol italiano, até o presente momento. Após 2010 a Inter foi se livrando dos ídolos da conquista da tríplice coroa, aos poucos. Nesse tipo de processo, os jogadores geralmente são “encostados” por algum treinador novato, “tampão” ou interino. A tríplice coroa fora conduzida por José Mourinho, que saiu logo depois do título da CL para então assumir, o Real Madrid.

Samuel Eto’o, Wesley Sneijder, Maicon foram sendo negociados pela Inter, um a um, conforme as oportunidades apareciam. O motivo eram os altos salários. É um processo delicado, pois a saída de alguns ídolos pode gerar insatisfação dos torcedores. Júlio César foi um dos últimos a deixar Appiano Gentile, ao seguir para o inglês Queens Park Rangers a pouco mais de uma temporada.

O QPR jogou a segunda divisão inglesa na última temporada 2013/2014. JC praticamente não entrou em campo pela segundona inglesa, pois já pretendia sair, o que aconteceu no começo deste ano, quando o goleiro se transferiu para a liga norte-americana. Júlio César está sim em fim de carreira, mas é um goleiro vencedor respeitadíssimo na história da Internazionale e no futebol italiano.

Em muitos momentos este blog 90 Minutos dá a entender que não torce pela seleção brasileira. Porém, é bom afirmarmos que ao menos, na ótica deste que vos escreve, o atual grupo brasileiro não parece um grupo de filhos da puta. Em caso de eliminação, não é admissível reações como aquelas endereçadas ao goleiro Barbosa, do time derrotado em 1950, no Maracanazzo.