O primeiro campeonato italiano com vinte times em cinqüenta anos terminou com um veredicto dentro do esperado: Milan e Juventus se batendo até o final e vitória do clube piemontês. A Juve não foi o melhor time do Italiano, mas foi o mais regular e se beneficiou do fato do Milan ter tido mais duas fases na Liga dos Campeões. Foram somente três jogos, mas três jogos muito absorventes. E numa luta tão parelha, foram decisivos.

Isso não significa de maneira nenhuma que a Juventus tenha levantado seu 28o ‘scudetto’ sem o máximo merecimento. O Campeonato Italiano é um torneio que até pode premiar o time de melhor futebol, mas obriga o vencedor a ser o mais regular. Não há espaço para uma busca constante do espetáculo em sacrifício da capacidade de se manter focado por mais tempo.

Nesta semana, vamos observar a campeã Juventus sob vários aspectos, e apontar quais foram os trunfos juventinos na luta contra o eterno rival de Milão. Se a vitória da Juventus não foi brilhante em termos técnicos, ela foi uma obra de arte de determinação e foco. Além disso, deve deixar conseqüências para a próxima temporada, onde Milan e Inter terão a obrigação de vencer algo importante, e quando a própria Juventus sabe que não bastará mais um Italiano, e a Liga dos Campeões se tornará uma obsessão.

Fora da Itália, a natureza do futebol italiano é mal-interpretada. Tudo é considerado defensivismo e ‘retranca’. Embora seja verdade que a pressão do resultado na Itália é maior do que em qualquer outro lugar (conseqüência da quantidade de dinheiro que está investida no jogo), o campeonato da Bota é o que mais exige de todos os times, do primeiro ao último colocado. Ganhar na Itália é tarefa de titã. E a Juve é, sem dúvida, um titã.

O desenho de Capello

Quando a tríade ‘bianconera’ de dirigentes, Moggi, Giraudo e Bettega, anunciou a contratação do técnico Fabio Capello, era possível imaginar que dificilmente o Delle Alpi não veria um troféu já nesta temporada. A união entre a força do elenco juventino, sua capacidade de lutar até o último minuto e a competitividade de Capello eram fortes demais para serem ignoradas.

Capello chegou a Turim sabendo que precisava colocar uma presilha na defesa. Buffon e Thuram são jogadores de nível excelso, o setor tinha envelhecido nos anos anteriores à sua chegada e teria de ser fortalecido. Num golpe de mestre, conseguiu tirar Cannavaro da Inter, capitão da seleção italiana, em troca de um goleiro reserva, e também Zebina da Roma.

Cannavaro foi a chave da reversão da tendência da defesa. O zagueiro voltou a fazer com Thuram e Buffon o cerne da defesa do Parma que venceu a Recopa de 1999. Zebina, incerto como central, se adaptou bem à cobertura do lado direito. Lado esse onde estava exatamente o meio-campista mais ofensivo da Juve, Camoranesi.

No meio-campo, Capello também fez uma adição incrivelmente sólida. Emerson, volante tido como patético no Brasil, pode ser considerado como o ponto forte da Juventus de Capello. O brasileiro conseguiu vedar a defesa e ainda manobrar a impostação da Juve desde a própria intermediária. Com Blasi, ao seu lado e Zambrotta avançando da lateral-esquerda, Emerson permitia a Nedved cair mais pelo meio e jogar onde rende mais. Sem a bola, a Juve fez um 4-4-2 tradicional, mas com ela, passava para um 3-4-1-2.

Se Capello tivesse tido um parceiro mais consistente para Ibrahimovic no ataque (Trezeguet se machucou muito e Del Piero só se acertou nas últimas seis rodadas), a Juventus poderia ter mantido uma melhor performance no ataque, e teria ganho o título com mais facilidade. A vitória desta temporada nasceu nos pés de Emerson, quer gostem os seus detratores ou não.

Os jogadores

Capello recebeu praticamente um jogador por setor para montar seu time, além do elenco do ano anterior. Contudo, as adições foram cirúrgicas. Cannavaro (defesa), Emerson (meio-campo) e Ibrahimovic (ataque) criaram uma espinha dorsal que se ressentia do cansaço de Nedved e Del Piero, os arquitetos do time nos últimos anos.

A inserção de Cannavaro era sabidamente fácil. O zagueiro napolitano sempre se adapta rapidamente e teria a seu dispor uma defesa compacta; Emerson já trabalhara com Capello nos últimos quatro anos. Ibrahimovic, o carrasco italiano na Euro, podia levar algum tempo para se garantir, mas seria coberto por Trezeguet. O francês passou o ano se machucando, mas “Ibra” jogou bem desde seu primeiro jogo.

Uma menção que pode passar despercebida é ao goleiro Gianluigi Buffon, certamente o melhor do mundo hoje. Buffon não chamou tanto a atenção por trabalhar atrás de uma defesa ótima, mas quando foi necessário, respondeu, como no jogo em San Siro contra o Milan, onde vedou o gol. Outro dado importante é o fato de, em seus quatro primeiros campeonatos com a Juventus, Buffon venceu três, o que certamente tem seu significado.

Perspectivas

Como sempre faz nas equipes por onde passa, Fabio Capello deve ter problemas com algum jogador importante (Baggio no Milan, Montella e Batistuta na Roma) e rejuvenescer o elenco. Del Piero, capitão inconteste da Juventus, já teve uma temporada de atritos com ‘Don Fabio’, e deve ter uma ainda pior, especialmente se a Juventus não vender Trezeguet.

No capítulo ‘rejuvenescimento’, já saíram Iuliano e Ferrara, e têm muitas chances de sair também Tacchinardi, Montero, Pessotto e Birindelli. Na verdade, a ossatura na geração Lippi no clube. Capello provavelmente receberá jogadores na mesma quantidade para substituir os que saem.

No ataque, a situação exige a saída de alguém importante. Com Del Piero, Ibrahimovic, Trezeguet, Zalayeta, Olivera e Mutu, alguém tem de sair – e é necessário que seja um medalhão, pois Olivera e Zalayeta aceitam a reserva sem muita briga. Tudo aponta para Trezeguet, mas a Juve sabe ser pródiga em surpresas.

Contratações já foram feitas. O clube contratou a custo zero o zagueiro Kovac, do Bayern de Munique e o volante Giannicheda, da Lazio. Nenhum dos dois é o grande golpe que a torcida espera, mas são os alicerces sobre os quais se faz uma vitória como a desta temporada. É possível – e provável, o retorno de Chellini da Fiorentina. O grande golpe? Cassano era o nome mais bombástico, mas a Juventus desmente. Como já fez antes….

O campeonato com vinte times

Como em todo torneio que incha, o receio do novo formato do Italiano era que a reta final do campeonato se tornasse uma burocracia sem graça. O que se viu foi um campeonato tão equilibrado que os rebaixados terão de ser decididos em partidas de desempate.

Os dois rebaixados já definidos (Atalanta e Brescia) seguem a tradição de que “time que troca de técnico cai”. Já o terceiro pode se encaixar ou não na categoria, já que o Bologna teve o mesmo treinador desde o início, mas o Parma não. O Bologna deveria estar mais seguro de si, mas a essa altura do campeonato, não se sabe, especialmente se levarmos em conta que Carlo Mazzone já anunciou que deixa o Renato Dall’Ara com o Bologna rebaixado ou não.

Friuli em alta

Não há sombra de dúvida que a nota positiva do campeonato foi Udinese. O clube do Friuli é um time de província, e conseguiu a vaga na Liga dos Campeões jogando um futebol de incrível qualidade, e confirmando jogadores que certamente terão espaço em clubes maiores no ano que vem, como o atacante Iaquinta e o meia Pizarro.

O mérito da Udinese deve ser dividido entre o treinador Luciano Spaletti e a direção do clube. Spaletti mostrou que é mesmo um técnico promissor. Soube montar um time, mas mais que isso, soube altera-lo sempre que foi preciso. Pelo menos metade do seu time titular poderia ter jogado em um dos grandes da Itália já nesta temporada – e provavelmente parte deles o fará.

Decepção

Ainda que a Fiorentina não tenha sido rebaixada, é a equipe toscana que se garante o título de maior decepção do campeonato. Com contratações como as dos jogadores Bojinov (Lecce), Chiellini, Miccoli e Maresca (Juventus), Nakata (Parma), Ujfalusi (Hamburgo), Pazzini (Atalanta) e Obodo (Perugia), a expectativa de uma “Fiore” na Liga dos Campeões parecia concreta.

Dois erros quase mandaram a Fiorentina para a Série B. O primeiro a manutenção de Emiliano Mondonico no comando do time depois da subida da Série B. Mondonico é um treinador limitado, e que não tem tido resultados decentes nos últimos anos. O segundo foi a falta de um ‘xerife’ que mantivesse o elenco sob controle. Os jogadores promissores da Fiorentina julgaram-se craques. Naufragaram vergonhosamente.

– O dirigente milanista Adriano Galliani admitiu que só está esperando o Parma encerrar seu desempate com o Bologna para tratar da contratação de Alberto Gilardino.

– O atacante não deve deixar o Ennio Tardini por menos de €27 milhões

– Samuelle Dalla Bona, emprestado pelo clube ‘rossonero’ nesta temporada, é pretendido pelo Messina, que já contou com outro milanista: Massimo Donati.

– Lamberto Zauli não teve seu contrato renovado com o Palermo e assinou com a Sampdoria.

– Na Lazio, Sereni anunciou que deixa o clube (tem proposta do Chievo); Talamonti e Seric também devem partir.

– Nas contratações, acertado o defensor Firmani.

– Uma das possibilidades que a Roma considerava para seu técnico, Hector Cuper, disse que permanece no Mallorca na próxima temporada.

– Como Cesare Prandelli também parece fechado com a Fiorentina e Serse Cosmi renovou com o Genoa, as possibilidades para o banco ‘giallorosso’ diminuem.

– Francesco Guidolin é o nome da vez.

– No Lecce, os laterais Cassetti e Rullo e o volante Ledesma têm propostas de Milan, Juventus e Inter.

– Esta é a seleção TRIVELA do campeonato Italiano.

– A escolha levou como base as notas dadas pela “Gazzetta Dello Sport”, mais uma avaliação da participação e repercussão do jogador ao longo do campeonato.

– Pagliuca (Bologna); Nesta (Milan), Cannavaro (Juventus) e Grosso (Palermo); Camoranesi (Juventus), Pizarro (Udinese), Emerson (Juventus), Verón (Inter) e Nedved (Juventus); Shevchenko (Milan) e Ibrahimovic (Juventus)