A vigésima maldita de Turim

Os 4 a 0 que a Juventus sofreu para o Parma na noite deste domingo em Roma remeteram imediatamente a uma outra derrota em que os piemonteses levaram quatro gols. O ano era 1999, a rodada, curiosamente, era a de número 20, o adversário era o Parma. Foi um 4 a 2 que forçou Marcello Lippi a pedir demissão, prontamente aceita.

Dos juventinos que estavam em campo na goleada do Olímpico, Montero, Tacchinardi, Tudor, Conte e Buffon (então no Parma) também testemunharam o desastre de 1999, E certamente devem se lembrar que uma derrota dessas proporções não passa incólume. Não na Juventus.

A Roma jogou um bom futebol, é verdade, mas a voracidade dos números se deve muito mais a uma flacidez inaceitável da Juve do que a um jogo espetacular da Roma. Totti e Cassano jogaram excepcionalmente, mas a defesa juventina era um espectro do setor impenetrável que há quatro temporadas é o melhor do torneio. Como disse o próprio Buffon, o desempenho do setor, ele incluso, “não é digno da Juventus”.

Marcello Lippi deu uma entrevista no pós-jogo bem mais serena do que a de 1999, onde sua cabeça estava colocada a prêmio, mas o abatimento era evidente. Na expulsão de Montero (15o cartão vermelho do uruguaio na Itália, recorde absoluto), Lippi meneou negativamente com a cabeça, jogando a toalha inconscientemente. E para o campeonato, não é muito diferente, embora o treinador insista no contrário.

A dificuldade a ser superada pela equipe de Turim não é nem tanto pelos oito pontos de distância do líder Milan, mas pela falta de recursos aparentes no atual elenco, curto de 22 jogadores, e sem nomes que possam, teoricamente, fazer a diferença nesta reta final de campeonato. Del Piero, há três meses machucado, é o único ‘bianconero’ capaz de injetar gás num time que parece sem disposição. É pouco.

Um exausto Nedved e um Trezeguet de contrato novo também soam como improváveis candidatos a carregar esta Juve nas costas, num momento em que o time parece necessitar de estrelas defensivas, exatamente como Davids (recém-partido para o Barcelona), ou Stam, cuja contratação junto à Lazio foi adiada para junho, já que o batavo não pode jogar na Liga dos Campeões.

Líquida e certa é uma reação por parte da diretoria e da comissão técnica. Com a Liga dos Campeões se aproximando, a Juve não pode nem pensar em falar de crise. Marcello Lippi já disse mais de uma vez que se aposenta se não vencer esta edição do torneio continental e a diretoria juventina não poderia admitir um ‘flop’ nas contas do clube, que tem ações na Bolsa de Valores.

Resta a pergunta: O que fazer? Lippi já tinha se decidido a encerrar o ‘rodízio’ de jogadores que visava dar uma folga para os craques mais importantes, mas talvez tenha de reconsiderar. Nedved perdeu o brilho de três meses atrás, visivelmente fatigado, Del Piero ainda não encontrou tal brilho, e a defesa, principalmente, precisa achar quem vai fazer o papel do Davids da vez. Para Appiah, pode ser um momento-chave: ou se revela um juventino, ou mostra que é um craque de início de campeonato. Detalhes disponíveis nas próximas semanas.

Vieri-Adriano: a Inter se inventa um novo problema

Incapaz de desfrutar alguns momentos de bem-estar, a Inter volta a exercitar a sua mania quase botafoguense de se auto-flagelar. Agora que conseguiu jogar bem duas partidas seguidas, a discussão que se avizinha a Appiano Gentile é sobre a impossibilidade de colocar Adriano e Vieri para jogarem juntos, ou seja, que Vieri está de saída.

O hábito não é recente, nem italiano, nem interista. Basta lembrar que Shevchenko não poderia jogar com Inzaghi no Milan, assim como Rui Costa não poderia jogar com ninguém (nem Albertini, nem Kaká, nem Rivaldo), Zidane não poderia jogar com Figo no Real Madrid, e Nedved não poderia jogar com Davids e Del Piero na Juventus.

Discussões como esta só deixam claro duas coisas: a primeira é que a mídia consegue inventar pelo em ovo para vender jornal; a segunda é que a Inter de Milão precisa, antes de qualquer outro craque, de se deitar urgentemente num divã de psicólogo, e recuperar o seu amor-próprio.

Alberto Zaccheroni, treinador do time Lombardo, tem a seu dispor, dois dos melhores atacantes do mundo. Se fossem dois cabeças-de-bagre da mesma posição, ou a Inter tivesse grandes craques em outras posições, até se colocaria a dúvida sobre as chances de sucesso de ambos. Não se trata de nenhum dos casos.

Este colunista tinha sim, uma dúvida sobre se Crespo (ótimo jogador, mas inferior a Adriano) poderia jogar com Vieri. Na prática, o argentino foi designado para atuar mais na área, enquanto Vieri voltava para buscar jogo. Deu certo. Não existe razão para achar que com Adriano os dois não possam se adaptar, até porque, além de goleadores, ambos são solícitos aos pedidos dos técnicos.

É bem verdade que o jeito dos dois jogarem é similar, mas também é indiscutível que há talento suficiente na dupla para uma adaptação. E como a Inter já está fora da corrida pelo título, os próximos quatro meses de torneio são uma ótima prova para ver o que ambos podem fazer.

Zaccheroni deverá questionar seu módulo 3-4-3. Para jogar com três atacantes, seria melhor usar somente um entre Vieri e Adriano, e dar os postos de atacantes laterais a jogadores com mais vocação para a linha de fundo. Só que seria um pecado deixar um dos dois no banco, sendo que se trata do que o elenco tem de melhor.

O bom senso sugere que ‘Zac’ monte uma linha de quatro na defesa, sólida e cautelosa, sirva o meio campo com dois alas (Van der Meyde e Kily Gonzalez, por exemplo), e dois centrais que façam a bola girar. Não coincidentemente, exatamente o esquema que Hector Cuper queria montar, mesmo com alguns ‘gênios’ chamando-o de burro.

Bologna: sem magias de início de campeonato

Quem assistiu a partida entre Udinese e Bologna, no último sábado, pode até ter tomado um susto. Como o Bologna tosco e pífio do início do campeonato tinha se tornado um time ágil, consciente e aplicado, a ponto de bater a Udinese (único time que venceu o Milan na Série A deste ano) em Udine?

A resposta está no banco de reservas. Carlo Mazzone, decano treinador italiano, finalmente está vendo os frutos de seu trabalho aparecerem. O Bologna comeu o pão que o diabo amassou no começo do torneio porque o planejamento do técnico era de longo prazo, e não visando ganhar duas ou três partidas de saída.

Mazzone e o ex-técnico do time, Francesco Guidolin, têm modos de jogar bem diferentes. Guidolin joga no contra-ataque, com um meio-campo colado à defesa, convidando o adversário a avançar; Mazzone impõe a seus comandados a posse de bola, marcação eficiente e, normalmente, o uso de uma ‘torre’ (Kenneth Andersson no Bologna, Amoruso no Perugia, Tare no Brescia e Bologna) entre os zagueiros rivais, para servir como pivô para a entrada dos meio-campistas. No sábado, não à toa, Nakata, Colucci e Locatelli anotaram gols para o Bologna. Todos meio-campistas.

Normalmente, partidas explosivas no início do campeonato. Em times pequenos, são resultado de uma preparação física que visa a obtenção de um ápice rapidamente. Como se atinge o ápice antes dos adversários, fica fácil ganhar as partidas no fôlego. Mas o preço vem com o passar do tempo, e rapidamente, o time pára de correr, com influência clara nos resultados. Este Bologna fez exatamente o oposto.

Parma sente o golpe do mercado

O Parma teve o melhor projeto de reestruturação das últimas temporadas, tem o melhor técnico da nova geração, tem (ou teve) o melhor elenco de promessas de jovens italianos, e outras coisas mais. Contudo, não é possível sofrer um baque de mercado como o do clube ‘gialloblú’ sem acusar o golpe.

O Parma cedeu Adriano à Inter, Júnior ao Siena, Nakata e Moretti ao Bologna, Bolaño e Sicignano ao Lecce. Além disso, perdeu Bonera com uma fratura no pé, Cardone com uma lesão no joelho e tem um clima péssimo sobre o clube, que não sabe se vai para o saco na manhã seguinte ou não. O resultado se vê em campo.

A partida entre Parma e Lazio era um clássico entre dois grandes compradores de mercado até outro dia. Hoje, é um jogo entre dois quatrocentões que perderam tudo. Em campo, a Lazio está mais acostumada com a nova situação, e tem mais elenco, já que se recupera há mais tempo do baque.

Sintomática para o Parma é o episódio onde a torcida do Parma aplaudiu e pediu a entrada de Degano e Potenza, dois jovens de vinte anos, dos quais esperava uma reação contra uma Lazio experiente, conduzida por um renascido Cláudio López. Ao técnico Prandelli resta a esperança de pensar numa vaga na Copa UEFA, já que é difícil acreditar que o Parma possa sonhar com um ‘spot’ na Liga dos Campeões.

Os jogadores Aimo Diana (Sampdoria) e Hidetoshi Nakata (Bologna) completaram 150 partidas na Série A neste final de semana

Nakata é uma das razões da subida de produção do Bologna

Igor Tudor (Juventus) e Alberto Gilardino (Parma) chegaram à marca de 100 jogos pela divisão máxima do futebol do país

Tanto que a diretoria do clube pensa em um ‘pool’ de empresas da cidade dpara ajudar o clube a comprar seu passe e pagar seu salário

Os dois gols de Vieri pela Inter fizeram com que ele atingisse a marca de uma lenda interista, Sandro Mazzola, filho do ainda mais lendário Valentino Mazzola

O zagueiro Dario Simic estendeu seu contrato com o Milan até 2007

Não é só no Brasil que algumas narrações acabam cômicas

A transmissão de Roma – Juve, pela RAI, normalmente vetusta, teve momentos impagáveis, proporcionados pelo narrador Amedeo Goria e pelo repórter Carlo Paris

Os dois torciam desenfreadamente pela Roma, e beiraram a histeria em alguns momentos

Pagliuca (Bologna); Cribari (Empoli), Nesta (Milan) e Ignoffo (Perugia); Nakata (Bologna), Colucci (Bologna), Dacourt (Roma) e Rui Costa (Milan); Cláudio López (Lazio), Vieri (Inter)e Totti (Roma)

Cassiano Gobbet
Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University.
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