“The Good, the Bad and the Ugly” um filme western de 1966, estrelado por Clint Eastwood. O título traduzido literalmente quer dizer “o bom, o mau e o feio”, e seu roteiro proporcionava o encontro de três personagens assim descritos. Zagueiro e capitão do inglês Chelsea, John Terry talvez carregue em sua personalidade, três características distintas.

Após 18 anos atuando pelo clube londrino de Stamford Bridge, Terry (35 anos) confirmou que deixa Cobham, ao fim da atual temporada 2015/2016. O zagueiro é sim, “o bom”, um ídolo incontestável dentro da história do clube. Mas sua trajetória revelou momentos “do mal”, moralmente questionáveis e “feias”, seja dentro ou seja fora dos gramados.

Terry atua pelos blues desde os 14 anos de idade. Jogou pelo “Chelsea B” entre 1995 e 1998, quando foi promovido. Entrou em campo pela primeira vez pelo time principal, aos 17 anos. Na ocasião, o zagueiro substituiu o romeno Dan Petrescu, numa partida de Copa da Liga contra o Aston Villa.

A goleada imposta sobre o MK Dons no último domingo (5×1) pela FA Cup, representou sua partida número 696, pelos blues. O anúncio de que deixará a agremiação, foi feito por Terry após este confronto. O defensor é o terceiro jogador que mais atuou com a camisa do Chelsea na história do clube, atrás apenas de Ron Harris e Peter Bonetti; segundo levantou o jornalista Dominic Fifield do The Guardian.

Terry porém foi a pedra fundamental da era vitoriosa dos blues, após Roman Abramovich comprar o clube em 2003. Foi o primeiro capitão blue a levantar um troféu após 50 anos sem conquistas.

Solidez técnica, fragilidade psicológica.

Terry foi solidificado pelo treinador José Mourinho no sistema defensivo blue. Manteve-se relevante no setor desde 2003, formando dupla de zaga com Ricardo Carvalo, William Gallas, Alex, David Luiz e Gary Cahill. De lá para cá colecionou quatro Premier Leagues, cinco FA Cups, três copas da liga, uma Europa League e uma Champions League.

O defensor se destacava pela preponderância frente aos companheiros e em campo, ressaltava-se seu jogo físico, e excelente capacidade de leitura de jogo. A defesa blue com Terry em condições plenas, era intransponível. Aliava raça e técnica. Suas estatísticas na Premier League lhe contabilizam mais de 40 gols anotados.

Até o início da temporada 2007/2008, o camisa 26 blue era sim um dos melhores centrais da Europa. O escorregão protagonizado pelo zagueiro na cobrança de penalti da final da Champions League 2007/2008, foi possivelmente o lapso que transmutou a trajetória até ali de atleta exemplar, do defensor. Sob a fria chuva de Moscou (Rússia) Terry errou o penalti e o Manchester United sagrou-se campeão da CL.

Pouco depois em 2009, o Manchester City já milionário tentou adquirir o zagueiro com uma proposta obscena recusada por Roman Abramovich. O mandatário russo concedeu renovação contratual a Terry, dando-lhe o maior salário do time; um equívoco que transformou-o em um ídolo maior que o clube.

O mal e feio.

A ascensão do Chelsea no cenário futebolístico internacional, coincide com o fato de Terry ter se tornado um defensor world class. Porém, condutas questionáveis entrecortaram seu caminho. Liderança incontestável dentro dos vestiários, Terry protagonizou episódios de “atleta celebridade”, tanto no Chelsea quanto na seleção inglesa.

Também líder do English Team, Terry causou celeumas no grupo do treinador italiano Fabio Capello, então comandante da Inglaterra, às vésperas do Mundial 2010. Antes da copa, Terry manteve um caso extra-conjugal com a ex-mulher do lateral Wayne Bridge, que por sua vez solicitou dispensa da seleção de Capello. O time inglês teve momentos turbulentos nos bastidores durante aquele Mundial.

Muitos creditam à John Terry o “início do motim” no cerne do English Team, eliminado de forma melancólica pela Alemanha, nas quartas de final. O rígido Capello demonstrou sinais de senilidade naquela época, retirando a tarja de capitão do braço de Terry, que receberia novamente a faixa por volta de 2011, em fase de preparação para a EURO 2012. Um incidente de ofensa racista ocorrido em partida pelo Chelsea, fez com que a FA Cup atravessasse a autoridade de Capello, e retirasse a braçadeira de Terry mais uma vez. Capello se demitiu.

Antes da EURO 2012 porém, o Chelsea obteve uma inesperada conquista de Champions League 2011/2012, vencendo o FC Bayern dentro da Allianz Arena (Munique/Alemanha). Quis o destino que Terry estivesse suspenso na decisão. O zagueiro foi expulso no fim da primeira etapa da partida de volta das semifinais.

Na ocasião o Chelsea empatou o jogo 2×2 de forma heróica, contra o poderoso Barcelona de Guardiola, dentro do Camp Nou. O empate com gols no campo do adversário era resultado suficiente para a classificação obtida com um homem a menos, seu capitão. Moralmente inquestionável, o meia Frank Lampard levantou o troféu mais importante da galeria blue.

Ao fim do próximo verão europeu.

John Terry será o último atleta da geração bancada por José Mourinho em 2003, a deixar os blues. De forma talvez incompreensível para os não torcedores blues, Terry é maior do que Lampard, Didier Drogba, Ashley Cole e Petr Cech. O zagueiro não encerrará a carreira, mas sente a decrepitude física.

O defensor afirmou que “não vive um conto de fadas” e que infelizmente não encerrará a carreira no clube que o revelou. Haviam indícios de que o clube poderia estender seu contrato por mais 12 meses, algo que não ocorrerá. A imprensa britânica especula que Terry tenha propostas do futebol asiático, árabe e norte-americano.

Imagem de Terry no último domingo: Paul Ellis – AFP