Na última segunda-feira, o técnico brasileiro Tite ressaltou em entrevista ao programa 4 em campo (rádio CBN), que um dos critérios impostos pela UEFA para alguém ser treinador, é a capacidade de fazer outrem entender o que se diz. Os brasileiros tem claro na memória “saias justas” às quais técnicos renomados no Brasil já se expuseram.

Vanderley Luxemburgo causou risos intercontinentais quando tinha propagadas entrevistas suas concedidas á imprensa espanhola, na época em que treinou o Real Madrid, há cerca de dez anos atrás. Luxemburgo dominava pouco o espanhol (ou castelhano). Há alguns anos Felipão afirmou frontalmente à jornalista Marília Gabriela, que não dominar o inglês prejudicou seu trabalho no Chelsea.

Gary Neville

Há pouco mais de uma semana no comando técnico do espanhol Valencia, o inglês Gary Neville tenta vencer a barreira do idioma local. A imprensa espanhola ressalta a gana do ex-lateral, em se fazer entendido pelo elenco. O periódico espanhol El País, destacou os i-Pads encomendados por Gary, a cada um dos seus comandados. O treinador, estreando na função procura todas as ferramentas possíveis para se fazer entendido.

O El País destacou a forma como Gary foi recebido pelo elenco “che”, numa acolhida nitidamente diferente da maneira como o ex-treinador português Nuno Espírito Santo, se relacionava com o plantel. Gary que ainda não domina o castelhano, tem a ajuda de seu irmão Phil Neville que traduz as instruções para o ex-jogador “che”, Miguel Ángulo, alçado à condição de auxiliar técnico, desde que o inglês chegou.

Àngulo que foi promovido, pois até então era treinador das categorias de base do clube, elogiou a forma como Gary tem lidado com os atletas, mesmo ainda estando em estágio de aprendizado do idioma. O defensor alemão Mustafi e o atacante espanhol Alvaro Negredo (que atuou no britânico Manchester City), são os interpretes dentre os atletas do grupo, pois se comunicam em inglês.

Além da importância do domínio do idioma, há sim um “futebolês” quase que universal que permite um entendimento futebolístico entre treinadores e jogadores, de quaisquer nacionalidades. Tite na citada entrevista à CBN, ressaltou alguns termos que ele usa, os quais surgem bem longe de um vocabulário erudito, tais quais “fechar o funil”, designação para re-ordenar o posicionamento da defesa, quando o ataque adversário invade a área do Corinthians.

Há um conceito a ser expresso, mas este precisa ser explicado da forma mais clara e dinâmica ao jogador, que no caso dos brasileiros, sequer tem formação escolar completa. Um atleta inteligente também garante êxito do técnico. No filme “Real Madrid, o filme” (2005), que enfoca algumas cenas reais de treinamentos e jogos dos blancos, vemos Luxemburgo se fazer ser entendido por Raúl Gonzales e David Beckham, ainda que falando um “portunhol” errático.

Voltando à Gary Neville, além de Phil e Ángulo, o analista de rendimento da equipe David Le Moel de naturalidade britânica mas que domina o castelhano, tem se apresentado como interprete voluntário, inclusive em situações de jogo. Em coletiva prévia à partida da Copa Del Rey deste meio de semana, Ángulo ressaltou que o i-Pad visa também transmitir dados específicos, a cada atleta em distinta posição ou função.

Vale ressaltar que Gary estava obtendo grande respaldo como comentarista tático da Sky Sports inglesa, antes de assumir o Valencia. O ex-lateral parece estar levando a fundo seus talentos enquanto comunicador, dentro na nova função.

O Valencia enfrenta o Barakaldo nesta quarta-feira às 18 hr (horário de Brasília), por mais uma eliminatória da Copa Del Rey.

Imagem de Gary (à esquerda) e Negredo: Alex Caparros – Getty Images