A relação entre Lobão e o Partido dos Trabalhadores é relatada pelo músico em “Manifesto do Nada na Terra do Nunca” (Nova Fronteira), no capítulo 7. A mesma se dava na época das eleições que foram vencidas por Collor, sobre Lula (representante do PT), no fim dos anos 80.

Lobão cantou “Lula lá” em propagandas veiculadas em rede nacional, junto a artistas, intelectuais e escritores, muito visualizados naquela época. Isso com certeza munido da mesma petulância “do contra” da qual ele se vale hoje em dia, para afirmar-se contra a atual situação política em voga.

O músico rememora a época: “No segundo turno, como achava o Collor um tremendo canastrão, o que restou foi juntar-me aos outros 99% de artistas e intelectuais, todos cantando “Lula lá”. Até o Cazuza era PT! Não sei se o Renato Russo cairía nessa roubada…Não era a cara dele”.

E vai além dando suas impressões então iniciais, sobre o partido: “O PT nunca me cativou de verdade, detestava padre da Teologia da Libertação, não suportava aquela áura chicobuárquica, mas àquela altura do campeonato, acreditava que um partido com gente diferente, que primava por ser honesto, deveria ter sua chance de governar o país (…)”.

Guerra contra as gravadoras: enfim aliado. E enganado.

Por volta de 1997, Lobão lançou o álbum “A Vida é Doce” tendo sido pioneiro na tentativa de vender música de forma independente, minutos antes do Napster começar a se propagar na internet. O cd era distribuído em bancas de jornais, o que dava a Lobão controle total do conhecimento de álbuns prensados e aqueles ainda em estoque. Na época sem contrato com uma grande gravadora, Lobão sequer podia reaver as fitas masters dos seus álbuns antigos, “patrimônio” esquecido no deposito de alguma delas.

Ele não podia relançar sua obra. Quando uma coletânea inoportuna (tipo série Acervo ou Millenium) com seu nome e músicas era prensado, ele sequer era avisado e sequer recebia por isso. Essa foi a realidade de muitos músicos profissionais no Brasil, até o sepultamento da indústria fonográfica, pós Napster/mp3.

Ouça Para o Mano Caetano.

A aproximação plena com o PT se deu durante as eleições de 2002, em nome da campanha da numeração obrigatória dos discos prensados pelas gravadoras. De início a mesma incluía numeração obrigatória de livros editados por editoras e dividiu opiniões. Lobão teve apoio de figuras respeitadas do meio musical brasileiro como Beth Carvalho. Por outro lado, figuras como João Ubaldo Ribeiro, Lulu Santos, Gilberto Gil ou Caetano Veloso, com contratos “vitalícios” mantidos por suas editoras e gravadoras, foram contra.

Data daquela época o início da “richa” entre Caetano e Lobão, hoje em dia esquecida. A lei de numeração acabou promulgada ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso. Com o “porralouca” Lobão em seu partido, Lula nomeou Gilberto Gil para ministro da cultura, um burocrata perfeito. O estado mental de Gil há uns dez anos atrás não era muito diferente do estado mental de Ozzy Osbourne, há dez anos atrás exibido no reality show The Osbournes, da MTV americana.

Lobão relembra: “Pois bem, comecei a me assustar com o PT (e muito tarde) desde que o Lula chamou o Gil, para Ministério da Cultura, porque ele sabia muito bem ser justo o Gil, um dos principais aliados das grandes gravadoras (falei sobre o assunto com o Lula várias vezes na época da briga pela numeração de cd’s). Ele colocou a raposa no galinheiro e, de fato para a música independente e para quem não era de sua turma, foi um desastre”.

Lobão se desligou do PT por volta de 2004, às voltas da eclosão do escandalo do mensalão. As grandes gravadoras ruíram em todo o mundo após a expansão do mp3 e a invenção do programa Napster. Recentemente, Slash (ex-Guns n’ Roses) e a banda Machine Head, se valeram do esquema de lançar seus álbuns encartados em edições de revistas europeias.

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Bibliografia
LOBÃO. Manifesto do Nada na Terra do Nunca. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2013.

Foto: divulgação