FC Bayern: Ancelotti e os bávaros sob o signo de Apolo

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Nesta quarta-feira o alemão FC Bayern visitará o Atlético de Madrid, em partida válida pelo grupo D da fase de grupos da Champions League. A partida será em Madrid (Espanha), cidade com a qual o treinador Carlo Ancelotti se re-encontrará, após sua saída do Real Madrid ao fim da temporada 2014/2015.

A imprensa espanhola enfoca o alemão FC Bayern, que tem no italiano Ancelotti o sucessor do catalão Pep Guardiola (Manchester City), treinador que dirigiu os bávaros por três temporadas. Embora vitoriosos, ambos os treinadores valem-se de estilos e personalidades completamente diferentes.

Ainda em seus tempos de Real Madrid, pouco depois da conquista da décima CL, Ancelotti foi perguntado por um jornalista madrilenho, em qual lugar a torcida do rival Atlético comemorava suas glórias. Carletto era admirado por sua rápida adaptação à cidade, mas respondeu erroneamente “Apolo” causado risos dos presentes.

A torcida do Atleti comemora suas conquistas junto a estátua de Netuno, deus romano que representa o mar, localizada na praça Cánovas Del Castillo. Por outro lado, há uma estátua do deus helênico Apolo, que por sua vez representa o sol e a simetria, edificada no Páseo Del Prado, cerca de 100 metros do Netuno dos rojiblancos.

Aos gregos que cultuavam Apolo e Dionísio o filosofo alemão Friedrich Nietzsche, atribuía a qualidade da serenidade perante a tragicidade da vida. O periódico espanhol El País ressalta o adjetivo de gemütlichkeit, atribuído pelos germânicos à personalidade de Ancelotti. O gemütlichkeit é traduzido pelos espanhóis enquanto “la serenidad ideal” (ou serenidade ideal) de um hoteleiro.

O El País ressalta a proposta de Ancelotti na qual os atletas parecem se sentir mais à vontade, oposta à visão perfeccionista e exigente de Guardiola. O jornal espanhol descreve a sede do Bayern de Säbener Strasse dos tempos de Guardiola, enquanto um santuário onde pairavam a abnegação e o perfeccionismo. Local onde se alternavam momentos de agitação e vigília. Para o El País Carletto devolveu aos bávaros seu caráter bucólico.

Devaneios à parte, impressionam os números em desenvolvimento por Ancelotti à frente do Bayern. Desde o início desta temporada 2016/2017, a equipe de Munique disputou oito partidas vencendo as oito. Sofreu apenas um gol e anotou 27 tentos. Compreendem estes números partidas da Bundesliga alemã (líder na tabela), Champions League e a decisão da Supercopa alemã, que abriu a temporada.

O El País destacou o que Carletto afirmou ao frances L’Equipe, que no Bayern ele tem proposto aos jogadores a busca por “mais posse de bola aliada também a um maior senso de verticalização”. O técnico disse ainda que deseja que seus atletas “finalizem mais em gol”.

O jornal espanhol ressalta as qualidades intuitivas de Ancelotti, no trato com os atletas dentro dos vestiários. Isso além de mostrar-se desprendido de dogmatismos na parte tática, enquanto busca soluções práticas a serem oferecidas, pelos jogadores que estão a disposição.

Pós-Mourinho e pós-Guardiola

Carlo Ancelotti parece o treinador certo para situações onde há muitos atletas de talento, porém sufocados pelas exigências de seus treinadores. Embora José Mourinho seja absurdamente diferente de Guardiola, Ancelotti encontrou atletas mentalmente desgastados com as ordens do português, quando chegou ao Real Madrid em 2013.

Em relação à Guardiola, a imprensa espanhola descreve que os jogadores do Bayern foram esgotados pelo “torvelinho acadêmico” do técnico catalão. Ainda em relação aos tempos de el Madrid, o El País relembra que Ancelotti pretendia alterar a forma como os blancos jogavam com Mourinho, que ordenava o jogo em contra-ataque.

Curiosamente Carletto diz estar propondo aos jogadores do Bayern uma forma de jogar exatamente baseada nos contra-ataques. O treinador italiano citou o panorama da EURO 2016 para fundamentar seu raciocínio. Segundo Ancelotti as estatísticas da última EURO são “bastante eloquentes: sete partidas em cada dez foram vencidas pela equipe que tinha menos posse de bola. É mais fácil fazer um gol quando se contra-golpeia. Quanto mais se tem a posse de bola, menos possibilidade se tem de contra-atacar e aproveitar os espaços”.

Segundo o El País, Ancelotti procura aquilo que funciona para os futebolistas, mesmo que isso cause estranheza aos gestores do Bayern, Karl-Heinz Rummenigge e Mathias Sammer. O periódico espanhol descreve o paradoxo futebolístico enquanto “menos cruyffismo” em nome de “mais simplificação”.

Ancelotti afirma que propôs sua forma de pensar o futebol em Madrid, na forma como utilizava os meias ofensivos James Rodríguez, Angel Di María e Isco, centralizando-os. O treinador italiano ressalta que quer que Robben, Riberý, Douglas Costa e Coman também o façam. Quer que eles atuem menos como externos pelos lados apenas cruzando bolas, mas que recebam mais a bola no centro do campo.

Sendo atualmente o treinador com mais títulos da Champions League (três, duas vitórias com o Milan e uma com o Real Madrid), Ancelotti (57 anos) é comparado pela imprensa espanhola a alguém que finge ser um “camponês distraído”. É inimitável e para fazer valer a gemütlichkeit ancelottiana, é preciso ser um gênio de cálculo e ação.

Atlético de Madrid e FC Bayern se enfrentam na quarta-feira às 15:45 hr (horário de Brasília).

Imagem de Ancelotti em partida do FC Bayern: Tobias Hase/AP