“Scudetto” sem surpresas

A chuva que caiu neste domingo em San Siro fez o técnico Carlo Ancelotti ter recordações. Lembrou-se do dia 14 de maio de 2000. Naquele dia, um temporal fez com que, num campo quase submerso, a sua Juventus desse, de bandeja, o “scudetto” para a Lazio, com uma derrota por 1 a 0, gol de Calori, para o Perugia.

Neste domingo, 2 de maio, Ancelotti finalmente exorcizou aquela imagem. Quando viu a chuva caindo, a derrota de quatro anos antes estava se desmanchando. O seu Milan deste ano é estelar, de recordes. E sua certeza era sempre maior quando via em campo, o jogador que desequilibrou o torneio, o brasileiro Kaká, que menos de um ano atrás, era xingado pela torcida do São Paulo.

Carlo Ancelotti é o grande responsável pela conquista do título italiano, e por uma razão simples: conseguiu fazer coexistirem, na mesma equipe, o maior número de jogadores de talento. Feito que nem o Real Madrid, nem o Chelsea, nem o Manchester United conseguiram (pelo menos, não até agora). Somente o Real Madrid, entre os titãs da Europa, joga somente com um jogador de contenção (na verdade, não joga com nenhum, pois a função é desempenhada por Beckham e Guti). O Milan joga com Gattuso. E dá tanto espetáculo quanto o Real, com a vantagem de vencer.

Kaká desequilibrou o torneio, porque a corrida entre Milan, Inter, Juve e Roma era parelha. A Inter se auto-mutilou quando sacrificou Hector Cúper. A Juventus também se minou, deixando Davids ir embora e não reforçando a defesa no mercado de janeiro.

A Roma andou esta temporada além de seus próprios limites, graças a um Francesco Totti inumano, e surpreendentemente, manteve o passo do Milan, fazendo, até aqui, 25 pontos a mais do que na 32a rodada do último campeonato. O equilíbrio entre a Roma que se superava e o Milan campeão europeu foi rompido pelo brasileiro. Kaká foi o empuxo extra que nem o espetacular Totti suportou.

O título do Milan, recheado de recordes, é mais do que merecido, Como escreveu Candido Cannavó na Gazzetta Dello Sport de segunda-feira, tentar manchá-lo com o pênalti claro não marcado a favor da Roma, é um desserviço ao futebol. Após a 34a e última rodada, como em todos os anos, TRIVELA trará ao internauta o raio-x de um título indiscutível: quais os jogadores decisivos, quais as revelações, comportamento tático, pontos altos e baixos, seleção do campeonato e todo o necessário para que o internauta tire suas próprias conclusões.

A mãe dos imbecis está sempre grávida

Há um ditado italiano que diz: “La madre degli imbecili è sempre incinta”, cuja tradução é o título deste excerto. É um produto de grande sabedoria popular, dada a quantia de idiotas que assolam o mundo, especialmente nos tempos de hoje, que Nelson Rodrigues (também sabiamente) chamava de “a era dos idiotas”.

Cinco destes imbecis estavam na torcida da Roma que foi à Milão dar apoio ao seu time. Estes não eram imbecis ‘standard’, provavelmente deviam ser imbecis “turbo”, “Classe A”, ou algo assim. Assim, durante o segundo tempo, os marginais (claro, de uma torcida organizada), jogaram bombas na direção dos jogadores do Milan. Uma delas acertou Gattuso, que despencou, mas quando levantou, ergueu o punho, como se dissesse “venci!”; outras duas acertaram Dida, que também foi alvejado por uma pilha de rádio.

O Milan tinha todo o direito de comemorar seu título, talvez o mais incontestável de sua história, com79 pontos (só para comparação, vale dizer que as duas últimas temporadas foram conquistadas, pela Juventus, com 72 e 71 pontos, e o Milan ainda tem seis pontos para disputar). Contudo, parte da alegria da comemoração ficou obscurecida pelo incidente.

Os imbecis que envergonharam os romanistas já tinham conseguido interromper o derby entre Lazio e Roma, semanas atrás, e por causa disso, a Roma foi punida com a perda de mando de campo em três jogos. Deve sofrer novas sanções. Lá, como aqui, existem seres bípedes, semipensantes, travestidos de torcedores. Eles vão ao estádio para jogar bombas e brigar. E são tão covardes que cobrem o rosto. Jogá-los numa masmorra gélida e cheia de musgo para todo o sempre não faria com que a humanidade perdesse rigorosamente nada, além de dores de cabeça.

Liga dos Campeões ou a cabeça de alguém

Depois da 31a rodada, a briga pela vaga na Liga dos Campeões estava feia. Porém, havia uma vantagem milimétrica da Inter, que tinha um ponto a mais do que Lazio e Parma, ainda que com um calendário mais difícil, porque teria de ir a Lecce pegar o time local, enquanto Lazio e Parma tinham tarefas menos duras.

A Inter fez o que melhor sabe fazer: se sabotou. Conseguiu sair na frente, mas cedeu a virada ao Lecce, que está salvo do rebaixamento. Enquanto isso, um Parma exemplar extraiu seus três pontos do rebaixado Ancona, e a Lazio, perdeu dois pontos num empate contra a Reggina (que também não era uma tarefa simples).

Nesta 33a rodada, Parma e Inter se enfrentam em Milão, com boas chances de decidirem a vaga. Se o Parma vencer, enterra a Inter de vez (abre cinco pontos), mas ainda recebe um adversário hostil, a Udinese, no Ennio Tardini, na derradeira jornada de 16 de maio. A Lazio viaja a Brescia, e depois recebe o Modena, ou seja, tem o calendário menos infernal, mas depende de um tropeço alheio.

Se a Inter vencer o duelo com o Parma, volta a ter a faca e o queijo na mão, desde que a Lazio não vença em Brescia. O último jogo da Inter é em Empoli, time que está criando dificuldades para todos os seus adversários. Inter x Parma do próximo final de semana é uma decisão em potencial, assim como Milan x Roma o foi.

Conseqüências: Se a vaga ficar com o Parma, Prandelli vai para a Juventus (com quem já tem acerto – leia abaixo), com ainda mais moral que já tem, Zaccheroni perde o emprego na Inter, muito provavelmente cedendo espaço para Roberto Mancini. Caso a vaga seja da Inter, Zaccheroni deve continuar no clube (nunca se sabe como as coisas vão rolar em Appiano Gentile), e Roberto Mancini estudará se fica ou não na Lazio. Caso a Lazio vá para a LC, ‘Zac’ toma cartão vermelho, e a Inter deve ir buscar algum maluco para seu lugar.

Revolução Juve: o nome é o de Prandelli

Na semana passada, finalmente foi anunciado o que todos esperavam. Marcello Lippi disse que não será mais treinador da Juventus depois do fim desta temporada. Lippi disse que tem propostas, mas que quer descansar. Tradução: primeiro ele quer ver se Trapattoni não vence a Euro-2004.

Se o “Trap” não for campeão, Lippi vai para a “Nazionale” com seis anos de atraso. Deveria ter ido depois da Copa de 1998, mas não foi liberado pela Juventus. Se Trapattoni conquistar o título, então não se sabe o que vai acontecer.

O que é certo é que o homem sentado no banco da Juve no ano que vem será Cesare Prandelli, ex-atleta da Juventus, e que, apesar de ter seu elenco retalhado pela crise da Parmalat, está quase dando uma vaga na Liga dos Campeões que pode ser decisiva para o futuro do clube, tal o aporte econômico que uma vaga na competição dá muito dinheiro para o clube.

Prandelli deve levar consigo para a Juventus o atacante Gilardino, e talvez, um defensor (entre Bonera e Ferrari). A Juve, por causa do ajuste financeiro da Fiat (e da família Agnelli), pretende abolir as grandes contratações. Além disso, vale lembrar que, como aconteceu nos casos de Roma e Lazio, o terceiro ano após a entrada na Bolsa de Valores, é provável que os cofres do clube sofram um refluxo, ou seja, menos grana.

Quem tem boas chances de assumir o Parma é Luigi Del Neri, do Chievo. Del Neri já tinha sido sondado quando o Parma estava “rico”. Outra possível aposta é Serse Cosmi, que deixará o Perugia. Cosmi deixa de ser uma opção se Capello for embora da Roma, que seria a sua preferência.

Domingo é a final

A torcida do Milan até que acreditava, mas só na base da fé. O Milan poderia ter saído deste final de semana com o título na mão, mas o improvável precisava acontecer. A Roma teria de perder em casa para o Empoli (hoje na zona de rebaixamento) e o Milan teria de superar o difícil campo de Udine, onde somente quatro vezes os friulanos foram batidos.

Deu a lógica, e a decisão ficou adiada, por pelo menos mais uma semana. Mas assim, o embate entre Milan e Roma, no Giuseppe Meazza, no domingo que vem, ganha ares de decisão. Para seguir sonhando, a Roma tem de vencer de qualquer modo. No caso de um empate, o Milan passa a precisar de um ponto nos dois últimos jogos. E se os milanistas saírem vitoriosos, levantam a taça diante de sua torcida.

A comparação histórica dá larga vantagem ao Milan. Das 68 partidas disputadas em Milão entre as duas equipes, a Roma venceu apenas oito, sendo que a última, em 1987. Na comparação global, nos 136 jogos entre Milan e Roma (ida e volta), o Milan ganhou 64 e perdeu 32, com uma vantagem de 61 gols. Um motivo a mais para os milanistas não relaxarem, pois a sorte adora derrubar a estatística.

No jogo de ida, em Roma, a vitória do Milan, em 6 de janeiro, começou a provar que o time de Carlo Ancelotti era mais sólido do que o de Fabio Capello. Sob o aspectodos desfalques, outro empate. Nenhum dos dois times têm jogadores suspensos, mas ambos têm três atletas na enfermaria. O Milan não deve contar com Kaladze, Inzaghi e Pancaro; a Roma está privada de De Rossi, Zebina e Montella.

Nesta não vai acompanhar a seleção no amistoso contra a Huingria, mas provavelmente só por precaução, assim como De Rossi deve acabar tendo condição de jogo (embora Dacourt dificilmente perca a vaga). Mas como é que os dois treinadores tentarão a cartada decisiva?

Na Roma, não há mistério: Totti é quem decide. Anulado, a Roma não tem para onde correr, embora Cassano e Emerson sejam ótimos jogadores. Capello sabe disso, e deve apostar em Mancini para aproveitar as suas descidas, bem como usar D’Agostino como o meia-armador para municiar Totti.

No Milan, parece superada a bobagem da obrigação de jogar com dois atacantes. Ancelotti certamente fará marcação especial em Totti, escalará Kaká ao lado de Rui Costa, com Shevchenko mais adiantado. Quem pode acionar a máquina milanista é Pirlo. Se o mediano jogar sem marcação, causará estragos, porque terá uma infinidade de opções. Capello está ciente disso.

A vantagem territorial, na tabela e histórica aponta para o Milan como favorito. Mas o fato do jogo ser praticamente uma final é um fator que equilibra as coisas. A Roma era apontada, precipitadamente, no primeiro turno, como favoritíssima, e o Milan venceu. Se não houver mais desfalques, o bom senso colocaria o Milan com um favoritismo levíssimo, mas não mais que isso. Mesmo assim, segue com a faca e o queijo na mão para ganhar o título.

Juventus assina a demissão de Lippi

Marcello Lippi, o treinador da Juventus, já vinha cambaleando depois da desclassificação na Liga dos Campeões. O próprio já admitira, no passado, que pararia se não vencesse esta edição do torneio. Depois vieram as derrotas para a Roma, Milan e Lazio, na Copa Itália. Agora, perder em casa para o Lecce, foi a gota d’água. Na temporada que vem, só um milagre mantém o viareggino no Delle Alpi.

Lippi e seu time estavam secos por uma vitória, e acharam que o pobre Lecce poderia servir de “judas”. Tanto é que Lippi escalou uma defesa a quatro com Zambrotta lateral-esquerdo, um meio campo com Tudor, Appiah e Di Vaio (!), mais Nedved atrás de Miccoli e Trezeguet.

Quando o marfinense Konan (sem trocadilhos engraçadalhos) fulminou Buffon aos 30min do primeiro tempo, virando o jogo (Trezeguet abrira o placar aos 3min e Franceschini igualara aos 23min), Lippi jogou a toalha e admitiu que tinha mandado uma Juventus pessimamente escalada. A oficialização da capitulação de Lippi veio aos 35min, quando ele sacou Di Vaio, mandando Pessotto a campo, recompondo um meio-campo esbugalhado.

Era tarde. Konan estava mesmo numa tarde extraordinária, superou Buffon mais uma vez, ainda no primeiro tempo, e Chevantón, preciso como um relógio suíço, fechou questão aos 7min da segunda etapa. Maresca e Del Piero ainda diminuíram a distância, mas os quatro gols sofridos pela Juve já tinham feito o estrago. A mesma quantia de gols que encerraram a primeira passagem de Lippi pela Inter, em 1999, numa derrota também em casa, mas diante do Parma.

Lippi não será demitido imediatamente porque não haveria motivo. O clube juventino, apesar de tudo, ainda pode sonhar com o segundo posto (acesso direto à Liga dos Campeões), e mandar o técnico embora só conturbaria o ambiente. Contudo, seu futuro, que estava selado, mas nos bastidores, agora está abertamente decidido, com a Juventus já contatando possíveis substitutos. Os nomes mais cotados: Didier Deschamps (Monaco), Cesare Prandelli (Parma) e Luigi del Neri (Chievo). Outra certeza: a defesa juventina sofrerá mudanças radicais para a próxima Série A.

O ‘scudetto’ é o quarto posto

Ainda há uma briga considerável pelo título na Itália, na medida em que uma vitória romanista, domingo, pode deixar as duas últimas rodadas eletrizantes. Também é verdade que a luta na parte de baixo da tabela, também é sangrenta. Nenhuma, porém, é mais indefinida do que a luta pelo quarto lugar, o último que dá vaga para a Liga dos Campeões.

Internazionale (53 pontos), Lazio e Parma (ambos com 52) travam uma briga de foice, e, se há algumas rodadas, era possível dizer que este time ou aquele tinham vantagem, agora, se alguém tem vantagem, mínima, é a Inter, com um ponto a mais que os rivais.

A jornada de número 32 é claramente favorável ao Parma. O time ‘gialloblú’ (que precisa mais do que ninguém da injeção de dinheiro da LC) pega o rebaixado Ancona em casa, enquanto a Lazio recebe a ameaçada Reggina no Olímpico, e a Inter faz uma viagem duríssima a Lecce (melhor time do segundo turno, depois do Milan).

Na penúltima rodada, provavelmente a partida que decide a vaga. O encontro direto entre Inter e Parma, em Milão. Não que a Lazio tenha um jogo mole (vaià Brescia, pegar um Roberto Baggio que ainda pensa sim em Seleção), mas uma vitória na partida de San Siro seria quase que definitiva.

Na 34a rodada, somente o Parma tem um compromisso teoricamente difícil. Recebe a Udinese, em busca de pontos para a Copa UEFA, no Ennio Tardini, enquanto a Lazio recebe um Modena ascendente, e a Inter viaja a Empoli para enfrentar um time que a humilhou dentro do Giuseppe Meazza.

Como se vê, os resultados de cada rodada podem tirar times da briga ou colocá-los como favoritos na corrida. À parte o embate Inter x Parma, o que parece mais plausível é que a equipe que desperdiçar menos pontos contra os “pequenos”, é a que fica com a quarta vaga. Mas nessas últimas três rodadas, e fugindo do rebaixamento, esses pequenos vão se agigantar.

A nostálgica “Azzurra” de Trapattoni

Giovanni Trapattoni decidiu fazer uma homenagem a dois veteranos da “Azzurra” e pode acabar criando uma dor de cabeça. Na sua convocação para o amistoso contra a Hungria, nesta quarta, no estádio Marassi, em Genova, os nomes incomuns foram os de Roberto Baggio e Angelo Peruzzi.

A homenagem vem até num momento em que muitos dos titulares de Milan e Roma (Totti, Nesta, Gattuso) sentiram “repentinas” dores, que só serão curadas na quinta de manhã. Não querem arriscar a partida de domingo entre as duas equipes, crucial na ótica do título.

A grande questão é: se Roberto Baggio fizer chover (e ele SABE fazer chover), poderá Trapattoni deixá-lo de fora da convocação para o Europeu, mesmo depois de ter se arrependido de fazer isso em 2002? E quem seria sacrificado?

Genova dá sorte à “Azzurra”. Em 22 partidas, a Itália só perdeu duas vezes, sendo que a última foi há 80 anos (4 a 0 para a Áustria, em jogo amistoso). A última vez em que o selecionado italiano se apresentou na capital da Ligúria, foi com uma vitória sobre Portugal, na estréia de Luiz Felipe Scolari como treinador, em fevereiro de 2003. Os convocados:

Goleiros: Buffon (Juventus), Peruzzi (Lazio);
Defensores: F. Cannavaro e Materazzi (Inter), Favalli e Oddo (Lazio), Ferrari (Parma), Legrottaglie e Zambrotta (Juventus), Panucci (Roma)
Meio-campistas: Ambrosini e Pirlo (Milan), Diana (Sampdoria), Fiore (Lazio), Nervo (Bologna), Perrotta (Chievo)
Atacantes: R. Baggio (Brescia), Corradi (Lazio), Di Vaio (Juventus), Miccoli (Juventus), Vieri (Inter)

Curtas

Os 76 pontos conquistados pelo Milan no empate em Udine já são um novo recorde para os campeonatos de três pontos por vitória

Maldini passou a ser o 5o jogador com maior número de presenças na Série A, 532, junto com o goleiro Albertosi. O próximo a ser atingido é Roberto Mancini, com 541

O recoordista absoluto é Dino Zoff, com 570

Também na partida contra a Udinese, Maldini passou Baresi, em partidas de campeonato pelo Milan, com a diferença que Baresi jogou algumas delas na Série B, enquanto Maldini só jogou na divisão máxima

Recorde negativo para a Juventus, que há 10 anos não sofria 40 gols em uma temporada da Série A

Na trágica derrota para o Lecce, David Trezeguet completou 100 jogos de Série A pela Juve, com 63 gols anotados

Esta é a seleção Trivela desta 31a rodada

Peruzzi (Lazio); Stam (Lazio), Kroldrup (Udinese) e Mihajlovic (Lazio); Franceschini (Lecce), Ledesma (Lecce), Tedesco (Reggina) e Blasi (Parma); Totti (Roma); Konan (Lecce) e Chevánton (Lecce)

Mas então quem foi?

De todos os clássicos na Itália, nada é parecido com Lazio e Roma. Milan e Inter têm um clima de rivalidade, mas respeito; Juventus e Torino não são mais times do mesmo naipe para sustentar uma rivalidade tão acirrada. Sampdoria e Genoa, o mesmo. Mas entre Lazio e Roma é guerra. E é assim sempre.

Sempre uma das duas torcidas tem 70% do estádio (e sempre foi assim). Ou seja: o “visitante” tinha de respeitar o mandante, em muito maior número. Fora da Olímpico, a atmosfera de guerra civil está no ar , que pode-se cortar com uma faca. Torcedores brigam entre eles, com a polícia, e se pudessem brigar consigo mesmos, tipo “Clube da Luta”, o fariam.

Contudo, o derby romano de número 152, acabou de uma maneira insólita. Depois de um primeiro tempo relativamente normal (além dos confrontos entre torcedores e policiais fora do estádio), na volta do segundo tempo, um clima funesto dominava as arquibancadas. As duas torcidas juntas gritavam “assassinos” para os policiais. O motivo é que tinha se espalhado a notícia de que um carro de polícia tinha atropelado e matado um menino.

O árbitro Rosetti começou a confabular com os capitães das duas equipes, dirigentes de Lazio e Roma e agentes da segurança. As fontes oficiais garantiam que nada tinha acontecido, mas três líderes de torcida, aos berros, chamaram Totti e juravam que tinham visto o carro atingir o garoto, e exigia: “France(sco), não se pode jogar esta partida. Um telefonema para uma emissora de rádio corroborava a informação e alertava: “se o jogo continuar, vamos entrar em campo e parar tudo à força”. A tragédia se avizinhava.

Um silêncio incomum povoava o Olímpico, permeado por murmúrios. Totti discutia com Rosetti e Mihajlovic. Cassano não se conformava em parar a partida, mas a maioria dos jogadores sentia o bafo da torcida na garganta. O locutor do estádio anunciou para a torcida que a morte da criança era boato. Um aplauso tímido e mais tensão. Um telefone celular começou a passar de mão em mão (saber-se-ia depois que era o presidente da Lega Calcio, Adriano Galliani). Depois de falar com Rosetti, Fabio Capello, Totti e com o agente de segurança, todos dando o mesmo parecer (pela interrupção do jogo), Galliani decidiu: suspenda-se o jogo. O medo de uma invasão de marginais disfarçados de torcedores venceu.

Mas afinal, o que aconteceu? Aventou-se uma possibilidade de que tudo era um “complô” do Milan para prejudicar os times romanos (hipótese, salvo provas em contrário, para dementes acreditarem); as forças de segurança já deram uma possibilidade mais cabível: torcedores organizados teriam orquestrado a farsa para dar uma mostra de força. O fato é que agora, um inquérito vai determinar o que aconteceu.

O surreal de toda a situação é que uma das maiores partidas de futebol da Europa foi suspensa por uma mentira, somada por um clima de delinqüência que domina os dias que antecedem os clássicos. Uma lei draconiana é necessária para jogar na masmorra mais gélida todos os marginais que criam um clima de guerra antes de um jogo de futebol. Ou então, se quisermos voltar às competições romanas de dois mil anos atrás, façamos estádios onde as pessoas possam se matar à vontade, mas sem colocar em risco que só quer ver futebol.

Baggio joga contra a Espanha. E depois?

A Itália já está comemorando a decisão. É que o CT da “Azzurra”, Giovanni Trappatoni, vai convocar Roberto Baggio para um “amistoso de despedida” da Seleção. Uma justa homenagem para aquele que é o maior craque do futebol italiano nos últimos 20 anos, e que anunciou o fim da sua carreira para junho próximo.

A justiça da decisão de Trappatoni tem, no entanto, um risco sério. Não é nada difícil (aliás é bem provável), que Baggio entre no jogo, acabe com a partida, e reacenda o desejo popular por sua presença no time que vai disputar o Europeu. E aí, meu amigo. Segura, que a pressão é grande.

O caso de Baggio não é o mesmo de Romário. Baggio, aos 37 anos, ainda joga muita bola. Sofre com lesões nos tornozelos, é verdade, mas aceita ficar no banco como “arma secreta”. E quando entra em campo, não raro, inventa alguma que arrasa os adversários.

Tudo estaria bem se o grupo de jogadores da seleção italiana (praticamente formado na cabeça de Trappatoni) não gostaria muito de ter Baggio indo para Portugal. Primeiro, porque a briga por um posto no ataque já é muito acirrada (Inzaghi, Del Piero, Vieri, Delvecchio, Corradi, Miccoli, Cassano, todos para prováveis quatro vagas).

Segundo porque Baggio transforma todos, mas todos mesmo, em coadjuvantes. A popularidade do “Codino” é infinitamente maior do que a de todo o resto, e ficaria ainda mais acentuada caso, numa partida, entrasse e realizasse uma de suas magias. Como sabemos, o pecado capital da vaidade é um dos prediletos dos jogadores.

Para a Itália, como seleção, seria ótimo. Uma opção como Baggio no banco é daquelas que todo técnico são quer. Tudo depende de como ele jogar nesse amistoso. Se ele jogar metade do que sabe. ‘Trap’ terá arrumado uma baita sarna para se coçar.
Copa Itália: a pá de cal na Juve de Lippi

O primeiro jogo da final da Copa Itália, que terminou 2 a 0 para a Lazio, foi a terceira derrota consecutiva da Juventus bicampeã italiana. Também foi o momento que marcou o nocaute juventino numa temporada em que partiu como uma das favoritas, mas que foi se traindo com pequenos erros.

O rescaldo é radical. A Juve deve mudar de treinador, com Marcello Lippi torcendo para Trappatoni não fazer uma campanha tão legal assim com a Itália na Eurocopa. Candidatos? Cesare Prandelli, do Parma, ex-jogador da Juve, Luigi Del Néri, do Chievo, e Didier Deschamps, outro ex-jogador da Juve, atualmente no Monaco.

As pistas levam a acreditar em chances maiores para Deschamps. Por que? Porque a Juve já teria acertado a contratação do meia-atacante Olivier Kapo, do Auxerre, estaria acertando também com Phillipe Mexes (também do Auxerre), Benoit Pedretti (do Sochaux) e Sébastién Squilacci (nada a ver com o artilheiro italiano da Copa de 90).

Dirigentes da Juve já admitiram que estão tendo contatos freqüentes com Deschamps, e que estão mesmo atrás dos reforços citados acima. Além do mais, a Juve foi aconselhada a contratar Mexes e Kapo pelo próprio Guy Roux, treinador do Auxerre desde que recebeu o comando do reino franco das mãos de Pepino, o Breve.

Além das novas aquisições (que terão um apoio financeiro da família Agnelli), tornarão à Juve jogadores como Matteo Brighi (emprestado ao Brescia), Manuele Blasi (outro meio-campista emprestado, mas ao Parma, e que recentemente foi punido pelo uso de doping). Ainda são alvos preferenciais da Juve o atacante do Ajax, Zlatan Ibrahimovic, e os zagueiros Ferrari e Bonera, do Parma. Nomes das divisões de base como Bartolucci, Palladino, Paro, Chiumiento e Boudianski ou serão agregados ao elenco principal, ou serão emprestados para ganhar experiência.

A defesa deve ser o setor com maior número de mudanças. Com partida provável estão Lílian Thuram, Igor Tudor, Mark Iuliano, e, talvez, Paolo Montero, ale, do volante Antonio Conte. De acordo com o diário espanhol “As”, está vendido para o Barcelona por 27 milhões de euros, e Pavel Nedved, caso receba uma oferta infamemente alta do Chelsea, como se comenta, também seria liberado.

Certos mesmo estão o capitão Alex Del Piero, o goleiro Buffon, o zagueiro Legrottaglie, o meia-defensor Zambrotta e o meio-campista Maresca. Outros, como Tacchinardi, Miccoli, Pessotto, Birindelli, Appiah e Di Vaio, estariam com a situação bem incerta. Curioso é imaginar que tal revolução possa acontecer no time que é o atual bicampeão italiano e vice-campeão da Liga dos Campeões.

Curtas

Depois de Baggio ter chegado aos seu 200º gol, outro veterano italiano vai se aproximando da marca

Beppe Signori, marcou, pelo Bologna, seu gol de número de 187

Paolo Maldini já é o sexto jogador com mais presenças na Série A italiana, com 527 jogos

Maldini chegou à mesma marca de outro mito milanista, Gianni Rivera

O Perugia, nas últimas cinco rodadas, comseguiu fazer onze pontos, sendo superado somente pelo Milan, que venceu todas

A média de gols por partida desta temporada é praticamente igual à da temporada passada, com 2,58, contra os 2,57 do último certame

Com seu 19º gol no campeonato (seu 112º com a camisa milanista), Shevchenko segue sendo o terceiro melhor artilheiro do Milan, na média de gols por partida

Na frente dele, ninguém menos que Gunnar Nordahl (0,824), do lendário trio Gre-No-Li (com Gren e Liedholm) e Marco Van Basten (0,612)

Sheva tem uma impressionante média de 0,597 gols por partida da Série A

Logo atrás de Sheva, vem o brasileiro Altafini, que tem a média 0,585

Eis a seleção Trivela desta rodada no Italiano

Antonioli (Sampdoria); Cafu (Milan), Natali (Bologna), Maldini (Milan) e Pancaro (Milan); Nervo (Bologna), Brienza (Perugia), Gattuso (Milan) e Kaká (Milan); Tomasson (Milan) e Di Michele (Reggina).