Diego Simeone: o “pra sempre” sempre acaba.

Diego Pablo Simeone, treinador argentino do Atlético de Madrid da Espanha re-definiu o prazo de expiração do vínculo contratual com seu clube empregador, na última quinta-feira 15 de setembro. O contrato do ex-jogador e ídolo do próprio Atleti, estava previsto para findar-se em 2020. Após a renegociação findará em 2018.

No futebol (ou nos negócios futebolísticos) a relação duradoura de um treinador sempre está atrelada, aos resultados que ele mesmo oferece ao clube empregador. No exitoso comando técnico do Atleti desde dezembro de 2011, Simeone inspirou os dirigentes do clube a assegurarem sua permanência até a reinauguração de La Peineta, inicialmente prevista para 2018. Trata-se do novo estádio do Atlético, que se vê em estágios finais de construção.

O técnico Diego Simeone. (Foto: El País)
O técnico Diego Simeone. (Foto: El País)

Em outubro de 2009 o Comitê Olímpico Internacional (COI), anunciou que o Rio de Janeiro (RJ) sediaria os Jogos Olímpicos que aconteceram no último mês de agosto. A capital carioca concorria com a capital espanhola Madrid, numa decisão final que resultou em 66 votos a favor da cidade brasileira, contra 32 favoráveis aos espanhóis. Tóquio (Japão) e Chicago (EUA), também estavam na disputa.

Visando as Olimpíadas que não vieram, a prefeitura de Madrid já antevia a reforma do Estádio Olímpico de Madrid inaugurado originalmente em 1994. O recinto também conhecido como Estádio La Peineta teve as reformas iniciadas em 2011, com um acordo estabelecido com o Atlético, que deveria geri-lo e usufruí-lo posteriormente.

O estádio tinha capacidade inicial para abrigar 20 mil espectadores. Após a reforma a capacidade possibilitará o acomodamento de cerca de 73 mil espectadores. Em março de 2015 as obras já haviam avançado a metade do desenvolvimento previsto. Sem Olimpíadas em vista, a prefeitura madrilenha autorizou o Atlético a finaliza-lo como um estádio exclusivamente de futebol. Será a arena futebolística mais moderna da Europa.

Naquele momento de 2015, Diego Simeone já ostentava um bom contrato com o clube colchonero, cujo prazo de expiração estava previsto para findar em 2017. Municiado pelo aporte financeiro do magnata chinês Wang Jianlin, o clube iniciou o projeto “Atlético 2020”, o qual antevia a permanência de seu treinador até 2020.

O mesmo incluía obviamente o comando do argentino na transição do mítico estádio Vicente Calderón, para o novo La Peineta. Dono do grupo Wanda, Wang Jianlin injetou cerca de 45 milhões de Euros ao adquirir 20% das ações do Atlético, em janeiro de 2015. O magnata já foi considerado o homem mais rico da China, pela revista Forbes.

Voltando ao presente

No último dia 15/09, a imprensa espanhola noticiou a redução do citado vínculo de Simeone (hoje com 46 anos) que expiraria em 2020, agora com prazo re-estabelecido para vencer ao fim da temporada 2017/2018. Contrariando as expectativas, o novo La Peineta abrigará os jogos do Atlético, já a partir da temporada europeia 2017/2018.

Simeone tornou explicita sua vontade de deixar a agremiação, mas respeitou a vontade da instituição em tê-lo, na transição para o novo recinto. Na geopolítica do futebol atual Real Madrid e Barcelona ainda mantém uma hegemonia inabalável, dentro do futebol espanhol e europeu. Porém, desde a chegada de Simeone ao time do Atlético, o clube voltou a honrar sua condição ferrenha de rival municipal de el Madrid, e rival nacional dos blaugrenas da Catalunha.

No clube colchonero há quase cinco anos, Simeone comandou a equipe nas conquistas da Europa League 2011/2012, Copa Del Rey 2011/2012 e liga espanhola 2013/2014. O argentino ainda conduziu a equipe a duas finais de UEFA Champions League, decisões dolorosamente perdidas para o rival Real Madrid, nas temporadas 2013/2014 e 2015/2016.

Até a chegada do argentino em dezembro de 2011, o Atleti era um clube que jogava a liga espanhola para se manter na primeira divisão. Mais do que isso, Simeone comanda o Atlético num contexto atual de fair play financeiro imposto pela UEFA vigente desde 2012, em medida que limita os gastos dos clubes. Um objetivo é frear intentos de investidores nebulosos no bilionário futebol europeu, algo crescente nos últimos anos com a entrada de aportes russos, árabes e mais recentemente asiáticos.

Por outro lado, a medida nos últimos anos deu fôlego competitivo a times financeiramente considerados médios ou pequenos. O Atlético impõe duro desafio à Real Madrid e Barcelona dentro de campo. Mas em termos de valores, seus gestores tem consciência de que não podem competir com ambos. Participar regularmente da Champions League a cada temporada, é um meio de fechar o caixa para o clube.

A própria disputa do torneio continental garante premiação financeira significativa, ainda que o clube não obtenha o título. Para se ter uma ideia, o último colocado do torneio pode receber algo em torno de 12 milhões de Euros (cerca de R$ 43 milhões). Ou seja, os priores times da fase de grupos do torneio recebem este valor, apenas por terem participado da competição. Em comparativo com o panorama brasileiro/sul-americano, o Atlético Nacional (Colômbia) atual campeão da Taça Libertadores, maior torneio sul-americano de clubes, recebeu cerca de US$ 7 milhões (em torno de R$ 22 milhões) em premiação.

Mais além, os atletas que disputam a Champions League, tornam-se ativos valorizados. A manutenção de Simeone à frente do time era desejo de Jianlim. No futebol europeu um treinador pode ser mantido em seu cargo por muitos anos também por valorizar atletas assim possibilitando fechamento de caixa ao clube, devido à negociação de jogadores.

O desejo de “el cholo”

É comum vermos os apelidos dos jogadores argentinos sendo mencionados atrelados a seus nomes. Já tivemos “el pibe” Maradona, “la bruja” Verón e temos “la pulga” Messi. Ex-volante da Argentina e do próprio Atlético, Diego Simeone é chamado de “el cholo”. O termo “cholo” quer dizer mestiço de ascendência branca e indígena. É impreciso se Simeone é assim chamado por sua fisionomia ou real descendência indígena.

 (reprodução)
(reprodução)

A imprensa esportiva espanhola já designa a filosofia “cholista”, oriunda do “cholismo” de Simeone. O “cholismo” faz menção a atitude de ter-se os pés no chão, ou como Simeone mesmo expressa, pensar “partido a partido” (ou jogo a jogo, partida a partida). Em campo o “cholismo” dá a entender a ausência de euforia, referente a sentimento vitória antecipada ou favoritismo.

Por ter sido um volante, primeiro homem de meio-campo, Simeone assimilou como ninguém a filosofia de jogo colchonera, a qual implica em jogo coletivo ostentando marcação voluntariosa, somada à saída em contra-ataques rápidos. É preciso recuperar a bola primeiro, para depois jogar em direção ao gol. O pensamento futebolístico do Atleti é diferente da filosofia ofensivista de Real Madrid ou Barcelona.

Na coletiva posterior à derrota para o Real Madrid em Milão (Itália), na final da última Champions League em maio, Simeone mencionou um intento de deixar o futebol. Suas palavras e expressão triste impressionaram aos jornalistas. Isso por ter sido sua segunda derrota em finais do torneio continental europeu, para um mesmo rival num período de duas temporadas.

Segundo o periódico espanhol El País, Simeone recebera uma oferta contratual do francês Paris Saint-Germain (atualmente gerido por árabes), que girava em torno de 20 milhões de Euros por temporada. A derrota para os rivais merengues possivelmente acentuou um pouco mais o desejo de deixar o Atlético, cujos gestores terminantemente vetaram sua saída.

Capa de "Creer" (reprodução)
Capa de “Creer” (reprodução)

Segundo o El País, no lançamento de sua autobiografia “Creer” (sem previsão de lançamento no Brasil) no último dia 07 de setembro, Simeone já parecia antecipar o intento de abreviar sua permanência do Atlético de Madrid. Consta que os vencimentos do treinador viam-se em torno de 6 milhões de Euros anuais, quando o vinculo até 2020 fora estabelecido em março de 2015.

O El País informou que o acionista máximo Miguel Angél Gil Marín e o diretor esportivo Andrea Berta, ofereceram um aumento ao treinador e a redução da expiração contratual em junho último, quando Simeone estava de férias na Argentina. Os valores não foram divulgados oficialmente.

Curtas

– Como jogador Diego Simeone atuou por Veléz Sarsfield (Argentina), Pisa (Itália), Sevilla (Espanha), Internazionale (Itália), Lazio (Itália), Racing (Argentina) e Atlético. Com a seleção da Argentina Simeone disputou os Mundiais de 1994, 1998 e 2002. Em sua primeira passagem pelo Atleti, Simeone integrou o grupo campeão da Copa Del Rey e liga espanhola 1995/1996. Depois daquele feito, o Atleti só voltou a vencer a liga sob comando técnico do próprio Simeone, na temporada 2013/2014.

– O Atlético de Madrid foi fundado em 26 de abril de 1903, por três estudantes de ascendência basca, que torciam pela tradicional agremiação futebolística espanhola de origem basca, Athletic Bilbao. É notória a diferenciação cultural do País Basco em relação ao restante do reino da Espanha, em intento nacionalista similar ao da Catalunha.

– Leivinha (ex-Palmeiras), Luis Pereira (ex-Palmeiras, Flamengo), Dirceu (ex-Coritiba, Botafogo, Fluminense), Baltazar (ex-Grêmio porto alegrense, Palmeiras, Flamengo) e Juninho Paulista (ex-São Paulo, Middlesbrough, Celtic, Palmeiras) foram alguns dos brasileiros que atuaram pelo Atlético de Madrid.

– Mais recentemente Thiago Motta (Paris Saint-Germain), Elias (Sporting Lisboa), Miranda (Internazionale), Diego (Flamengo) e Diego Costa (Chelsea), foram jogadores brasileiros que vestiram a camisa colchonera. O único brasileiro no atual plantel do Atlético é o lateral Filipe Luís.

– Localizado do distrito madrilenho de Arganzuela, o estádio Vicente Calderón foi inaugurado em 1966. Originalmente era chamado de estádio Manzanares e posteriormente foi renomeado Vicente Calderón, em homenagem ao presidente do Atlético de Madrid entre 1964 e 1987. O Calderón poderia ser comparado a estádios brasileiros como Arena da Baixada (Atlético PR – Curitiba/PR), o antigo Estádio Olímpico (Grêmio porto alegrense – Porto Alegre/RS), ou à Ilha do Retiro (Sport – Recife/PE).

– O estádio Vicente Calderón abriga uma curiosa cripta, onde seus sócios torcedores ordenam o depósito de seus restos mortais. A transição para o novo La Peineta gerou um impasse curioso em relação a estes falecidos colchoneros. A situação deu origem ao curta metragem “El Paseo de Los Melancólicos” (ou “O Caminho dos Melancólicos”, de Nacho Casado/2014), que foi exibido na edição 2015 do festival brasileiro CINEFoot, dedicado a filmes sobre futebol. Veja o trailer: