Real Madrid de Ancelotti: percalço rojiblanco, herança rossonera

Numa análise fria, não é incoerência afirmar que o Atlético de Madrid venceu o Real Madrid na partida de volta da Supercopa espanhola, muito em função de um Cristiano Ronaldo abaixo das condições físicas. E, devido a ausência de Angel Di Maria, que muito provavelmente sairá e nem fora relacionado.

Sem ambos, vimos um Real Madrid um tanto quanto burocrático. Porém é preciso levar em conta que Toni Kroos e James Rodriguez não se equivalem a Petrus e Valdivia. O alemão e o colombiano acabaram de chegar. Por isso, não se pode exigir uma partida exuberante no segundo jogo oficial deles pelo clube merengue.

O 4-3-1-2.

A disposição inicial do Real Madrid contra o Atlético na última sexta se dava em 4-3-1-2, similar ao Milan de Ancelotti entre 2003 e 2007. A linha defensiva tinha Cavajal, Varane, Sergio Ramos e Coentrão, lembrando que Varane (substituindo Pepe), falhou no lance do gol relâmpago de Mandzukić, chegando atrasado. Nesta linha de 4, Carvajal se projeta mais, tal qual Cafu fazia no Milan de Ancelotti.

Se o Milan de Ancelotti tinha um Roque Jr, seu Real Madrid tem um Pepe. Antes da copa muitos brasileiros não entendiam o por que de Coentrão ter a preferência do técnico em detrimento de Marcelo. O lusitano está mais apto a marcação, como se exige de um lateral na Europa. Depois da copa tanto faz ter um Marcelo ou não no elenco.

Xabi Alonso foi postado como interditor fixo típico, tal qual Gattuso ou Ambrosini o fariam no tempo rossonero de Carletto. Kroos pela esquerda e Modrić pela direita, postaram-se de forma similar a Seedorf e Pirlo. James Rodriguez surgiu centralizado (“enganche” ou “1”) tal qual Rui Costa/Kaká. A frente Gareth Bale é bem diferente de Andriy Shevchenko, mas cumpriu função similar aberto pela direita.

Bale tem o que Sheva não tinha para disputar a Premier League, quando foi para o Chelsea. Sheva era um atacante de área que podia atuar aberto. Bale é um externo de (muita) velocidade e força física, inicialmente externo esquerdo hoje, bem adaptado ao lado direito. Carvajal, quando pode avançar é quem acompanha Bale. A frente Benzema é o homem referência, tal qual qualquer similar.

No segundo tempo da partida contra o Atlético de Madrid, Cristiano Ronaldo entrou e o desenho tático do Real Madrid também mostrou artifícios que o Milan de Carletto mostrava. CR7 é muito diferente de Serginho, mas foi postado pelo lado externo esquerdo no lugar de Kroos. Serginho entrava no Milan de Carletto, no lugar de Seedorf e essa alteração permitia um desenho em 3-5-2 tipicamente italiano.

No caso do Real Madrid é Carvajal quem avança pela direita quando o time detém a posse de bola. Então os blancos tinham Varane/Ramos/Coentrão na defesa, mais Carvajal/Alonso/Modrić/James/CR7 no meio-campo. Carletto mostra-se fiel a si mesmo. Como um bom italiano, parece que Ancelotti prefere um “trequartista” que será James Rodriguez centralizado; a mais um jogador pelos lados do campo (Di Maria).

Por ter obtido êxitos em sua primeira temporada em Chamartín, Carlo Ancelotti com certeza tem “carta branca” para realizar o que quiser. Na história dos técnicos italianos no Real Madrid, Ancelotti já alcançou um patamar superior ao do vitorioso Fabio Capello, que treinou o clube blanco na metade dos anos 90 e na metade dos anos 2000. Capello e Ancelotti foram meio-campistas do Milan e iniciaram suas trajetórias como treinadores no clube rossonero.

Di Maria.

A questão é que Angel Di Maria vive momento físico/técnico excepcional. Aparentemente, o argentino que começou a chamar a atenção nas Olimpiadas 2008 em que foi medalha de ouro com o time argentino, dava sinais de que seria um clone do D’alessandro ou um sub-Aimar.

A diferença crucial entre Di Maria e outros sul-americanos similares é não ser adepto do “cai-caiball”. Desfazer-se de Di Maria, ainda que por uma boa quantia, neste momento é reforçar eventual adversário de Champions League.