Brasil no Mundial 2014: a derrota

A incoerência era gritante na véspera do jogo da semifinal entre Brasil 1×7 Alemanha. Até as quartas de final, toda a crônica esportiva era unânime em apontar que o time de Felipão, vencia mas não convencia. Curiosamente, após a vitória de 2×1 contra Colômbia, nas quartas de final, o Brasil, na opinião dos jornalistas/apresentadores/analistas, jogaria melhor contra a Alemanha.

Antes o Brasil jogava mal com seu melhor zagueiro (Thiago Silva) e seu atacante mais talentoso (Neymar), em campo. Por que cargas d’água o Brasil jogaria melhor contra a Alemanha sem Silva (suspenso) e Neymar (lesionado)?

No aspecto tático, a dupla Felipão/Parreira personificou a falência tática dos treinadores brasileiros. Técnicos sul-americanos estão em alta no futebol mundial, nenhum brasileiro entre eles. A Colômbia montou um time belíssimo com o argentino José Pekerman.

O Chile vem de um planejamento de duas copas do mundo com dois treinadores argentinos em duas copas diferentes, Marcelo “El Loco” Bielsa e Jorge Sampaoli. A Costa Rica fez campanha brilhantemente inesperada com o colombiano Jorge Pinto. O técnico que conduziu o Manchester City ao título da última Premier League inglesa foi o chileno Manuel Pellegrini, que fez carreira no futebol argentino. Onde está o erro?

Particularmente, imaginei Felipão armando um time “retranqueiro”, tipicamente gaúcho, com um terceiro zagueiro (Henrique) na lacuna de Thiago Silva e um terceiro volante (Luiz Gustavo) na lacuna de Neymar. Dante estaria em campo no lugar de qualquer um outro. Estaciona-se o ônibus (Cf MOURINHO, José) na frente da defesa e se ganhasse de 1×0 era goleada.

Felipão no entanto, montou um inexplicável 4-3-3 postando o leve e franzino Bernard, no lugar de Neymar. Luiz Gustavo entrou acertadamente postado na cabeça de área. Mas a inversão de lados entre David Luiz e Dante (substituindo Silva), foi também inexplicável.

Burrice tática, burrice mental.

Bernard nunca foi meia, no Atlético/MG era um segundo atacante pelos lados do campo. Devido a sua baixíssima estatura física, Bernard morreria sufocado pelo trio Khedira, Höewedes e Hummels. Para um atacante jogar pelos lados compondo o 4-3-3 com a posse de bola e, formando o meio-campo num 4-4-2 ou 4-2-3-1 sem a posse, é preciso vigor físico tanto no aspecto de velocidade, quanto de força física. É o que Arjen Robben ou Cristiano Ronaldo fazem tão bem.

A Holanda tem variado do 5-3-2 para o 3-4-3, povoando o campo de defesa, mas tendo por vezes 4 atacantes de ofício em campo. Dirk Kuyt, camisa 9 desde sempre alterna no time holandês pelo lado direito e esquerdo, sem reclamar em jogos as 13 hr no nordeste. É um atacante em fim de carreira e com mais de 30 anos. Mais uma vez, onde está o erro dos brasileiros?

Como o brilhante jornalista Paulo Massini disse no programa 4 em Campo (rádio CBN) na véspera da derrota para a Alemanha, sugira para um Luis Fabiano que ele jogue de lateral direito e o “primeiro que leva um carrinho é o técnico”. No lugar do atacante do São Paulo, imagine qualquer outro em atividade no futebol brasileiro, de Fred a Jô, passando por Diego Tardelli ou Romarinho.

Muito se falou sobre psicologia nos últimos dias, e Bernard a uma temporada sendo reserva no ucraniano Shaktahr Donetsk, não suportaria o peso da camisa. Mentalmente Willian, titular do Chelsea (e na Europa desde o fim da década passada) era um jogador mais apto ao jogo, também na parte física. A única jogada ofensiva do Brasil no primeiro tempo, era o “chutão” para Hulk sair correndo pela ponta esquerda. Isso antes do primeiro gol alemão.

No jogo contra a Colômbia o Brasil se achou em campo com Maicon no lugar de Daniel Alves e a dupla Fernandinho/Paulinho. O coletivo funcionou e seguiria funcionando, desde que não houvessem os desfalques de T. Silva e Neymar. Como diriam por aí, “não era pra ser”…

Quando um reles professor de filosofia perdido no terceiro mundo, enxerga problemas táticos num time de futebol, é porque algo realmente está errado.