Mais um inglês não é mais inglês

A compra de mais um clube inglês por um milionário estrangeiro fez com que somente o Tottenham Hotspur pertença a um inglês entre os virtuais classificados para vagas europeias através da classificação do campeonato atual. Sem dúvida há no fato a participação da globalização, mas não resta dúvida de que a Premier League vai se aproximando de um momento perigoso: metade dos clubes estão nas mãos de empresários estrangeiros sem vínculo com suas raízes.

De antemão: não é que os empresários que entraram no esporte sejam todos suspeitos (veja aqui a quem pertence cada clube na PL). Alguns, como os novos donos do Liverpool (a americana New England Ventures) e o neoproprietário do Arsenal Stan Kroenke, têm interesses em clubes esportivos que vem de algum tempo. Contudo, é arriscado saber se diante de uma oferta rica, não colocarão o clube numa situação incômoda. Um exemplo: no ano passado, o Manchester United fez uma emissão de títulos que aumentou o endividamento do clube para remanejar os débitos anteriores. A família que possui o United diz que está tudo sob controle, mas nos pubs pela Inglaterra, aumentou a quantidade de pulgas atrás da orelha dos torcedores do time. Além disso, há os nomes suspeitos pura e simplesmente como o sheikh Mansour no Manchester City, o russo Abramovich no Chelsea e Mohamed Al-Fayed no Fulham.

No caso do Arsenal, a mudança de dono foi a saída menos pior. O milionário uzbeque Alisher Usmanov tentava fazer um ‘hostile takeover” (quando um acionista se apossa do clube sem o apoio da ‘board’ através da compra individual de ações) há muito tempo e sua fortuna, amealhada na queda da União Soviética, é de origem tão suspeita quanto qualquer outra da mesma fonte: minérios, aço, gás e mídia. Usmanov tinha sido preso em 1980 por corrupção, mas foi “anistiado” em 2000.

O esporte na Inglaterra já está afastado dos princípios puramente esportivos há muito tempo. Contudo, a dissociação vai ficando cada vez mais aguda. Não é segredo para ninguém que o investimento de dinheiro nos clubes ingleses acontece por conta da fragilidade da avaliação da origem do dinheiro (o “fit and proper persons test”, um exame da FA para ter certeza que o comprador do clube não é um bandido qualquer). A Inglaterra está na frente do Brasil, onde se os traficantes do Morro do Alemão quiserem investir, os clubes topariam, mas o exame é falho. E quando naõ há escrúpulo, dinheiro de tráfico é tão bom quanto dinheiro de drogas. Assim, a origem da grana de Mansour bin Zayed bin Sultan Al Nahyan, dono do Manchester City, não importa. O que importa é que ela entre.

Os premierleagueófilos talvez ainda estejam em negação com isso, mas o fato é que a liga inglesa não está deixando de ser viável, mas está ficando perigosamente nas mãos de capital sem interesse no futebol em si, enquanto continuam inflando os custos do sistema. Em outra palavras, dependem do humor de meia dúzia de pessoas. Por exemplo, se Roman Abramovich vendesse o Chelsea hoje, o clube ficaria inadimplente, tendo de vender a maioria de seus jogadores para diminuir a folha salarial. Sob esse prisma, a lei de “fair play financeiro” da Uefa será uma bênção, desde que clubes como City e Chelsea se adequem. Mas o incômodo de ter os maiores patrimônios do futebol inglês nas mãos de gente que não liga para o clube e sua comunidade (torcida e história), esse continua.

4 respostas para “Mais um inglês não é mais inglês”

  1. Lá, pelo menos, o grosso do pessoal se toca que o clube do coração se transformou numa lavanderia de notas de £100. Talvez não seja grande coisa considerando que a tendência não se reverte mesmo assim – mas alguém aí já imaginou uma “firm” cantando “Kia belongs to us”? E olha que a mídia inglesa, percebi mesmo no pouco tempo em que andei por lá, foge a qualquer descrição convencional.

  2. É sempre o risco de acontecer o que os Glazers fizeram com o Manchester, que contraíram empréstimo pra comprar o clube, e repassaram para o clube.

    E a tendência é de com o passar dos anos, surgirem movimentos similares ao que tá acontecendo em Manchester, com o FC United of Manchester, e que começou com os torcedores do Wimbledon.

  3. O grande nó górdio dessa questão está no último parágrafo (“continuam inflando os custos do sistema”). Vamos ver quem será capaz de equacionar isso de maneira civilizada.

  4. Além da questão do vínculo que eles (não) tem com os respectivos clubes, tem a falta de know-how desses caras…

    Eles gastam uma quantidade absurda de dinheiro e inflacionam o mercado para construir uma boa equipe (as vezes nem isso).

    Imaginem o presidente do Sevilla ou do Palermo com o recurso financeiro que o dono do City tem…

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