Papel de vítima

O primeiro tempo foi morninho; chato até. Para frustração dos mais de 60 mil espectadores presentes ao San Paolo, ninguém marcou. Mas com menos de 60 segundos da etapa final, Del Piero recebe de Palladino e coloca a Juventus na frente num dérbi que é sempre aguardado pela torcida napolitana e tudo parece mais ou menos como antes: Juventus faz três pontos visitando o Napoli.

Mas os partenopeus estavam menos convencidos. O uruguaio Gargano, menos de dez minutos depois, devolve a igualdade ao placar e o jogo ganhou vida. Sete minutos mais tarde, numa entrada de Chiellini em Lavezzi, o árbitro Bergonzi vê pênalti e Domizzi confere: 2 a 1. A Juve reclama – com razão – e não é pouco. Mas o pior ainda viria, pois Bergonzi, 12 min depois, viu mais um pênalti numa saída de Buffon para evitar que Zalayeta chegasse com a bola ao gol. Nenhum contato físico nem falta, mas o juiz deu um segundo penal. Domizzi novamente marcou, Napoli 3 a 1 e final de jogo.

Final de jogo, mas as reclamações piemontesas estavam apenas começando. Incomumente colocada no papel de vitima, a Juventus fez um escarcéu contra o genovês Bergonzi, dizendo que as arbitragens agora estavam apitando contra a Juventus ainda como reflexo do escândalo de ‘Calciopoli’. “Não tomaremos nenhuma medida, mas lamento que os 60 mil torcedores que vieram hoje ao estádio viram um resultado falseado”, reclamou o presidente juventino, Cobolli Gigli, à RAI, depois do jogo.

Algumas coisas não há como negar: a Juventus teve a chapeleta escalavrada, sim e como há algum tempo não aconteceria. Isso é um bom sinal no sentido de que a submissão da arbitragem à equipe piemontesa parece mesmo ter sido desfeita. Como diretoria e torcida ‘bianconera’ não conheciam o evento “erro arbitral contra”, a coisa deve ter doído um pouco.

Na Itália, que naturalmente trata o assunto com uma paixão clubística similar à nossa brasileira, houve quem falasse em “é hora da Juventus sentir na pele”, mas sem dúvida é um argumento imbecil. Erros de arbitragem fazem parte do jogo e Bergonzi errou como juízes erram. A Juventus não pode nem deve ser punida ‘ad infinitum’ pelos erros de diretores passados, pois a Justiça italiana já definiu a punição (se essa punição foi adequada ou não, esta é outra história e essa avaliação não cabe a árbitros nem jornalistas, mas à sociedade).

Em termos de tabela, nem é um drama tão grande assim, já que a Inter empatou em Palermo. A quatro pontos da líder, a Juve não foi afetada pelo erro arbitral em termos de chances de campeonato. O escândalo do ano passado não fez da Juventus um clube pequeno, mas parece simplesmente ter tirado dela um nefasto poder que ela tinha sobre a correção das partidas. Isso é algo para se comemorar. Aleluia!

Vitória arrancada na foice

Parma e Livorno fizeram no Ennio Tardini o jogo do ‘risca-faca’ neste domingo. Mesmo com só nove rodadas, o Italiano já deixou os dois times com a corda no pescoço e com uma cara de luta contra o rebaixamento que só vendo. E jogando em casa, se o Parma não vencesse, estava morto. Venceu, mas na bacia das almas.

Embora ainda não seja possível ter certeza, o Livorno que foi a Parma já pareceu mais ‘time’, possivelmente por causa da mão do neotécnico Camolese. O 3-5-2 fechadinho estava lá, mas ainda que contra um adversário não exatamente fantástico, ao menos deu trabalho.

Alem da vitória, o time do Parma vencedor no domingo teve alguns outros pontos interessantes. Primeiro: nove dos 11 jogadores que começaram a partida são italianos (um indicador da filosofia do clube); outro foi a entrada no time de Domenico Morfeo durante o jogo, o que poderia ser uma evidência de uma mudança de posição do técnico Di Carlo em relação ao melhor jogador do time.

No Livorno, pela primeira vez o atacante Tavano deu uma mostra do que pode ser capaz, como nos tempos de Empoli. Ao lado de Bogdani (um ‘operário), que jogava em sua função, Tavano se esfalfou na frente diante de um meio-campo destinado muito mais a fechar a defesa do que apoiar. O Livorno segue último, disparado e só uma série de contratações podem tornar o time capaz de reagir.

O sucesso do Parma foi sofrido, mas merecido. O gol de Morfeo talvez tenha saído fruto de um erro arbitral (a bola teria saído de campo antes do cruzamento), mas o Parma era melhor naquele momento (quando persistia o empate de 2 a 2). Di Carlo precisa armar um esquema em volta de Morfeo e defender melhor. Se fizer isso (e tem condições para tanto), pode melhorar bastante ainda.

Brescia super, Pisa cai

Caso a promoção à Série A fosse indicar os três primeiros colocados hoje, Brescia, Chievo e Pisa estariam subindo. E com todos os méritos, diria Fernando Vannucci. Mesmo com o tropeço diante do Grosseto, o Pisa segue como sensação, mas é o Brescia que dá a impressão de poder ir mais longe na ‘serie cadetta’.

A razão para o moderado favoritismo do clube lombardo é a presença do bizarro Serse Cosmi (‘bizarro’ porque à careca coberta pelo boné e o pescoço milimétrico, Cosmi adicionou um cachecol e um par de óculos escuros que definitivamente o transformaram em um personagem de ‘mangá’ japonês).

Pelo que indicou nestas primeiras rodadas, Cosmi tem um time bastante reativo às suas solicitações. Depois de perder na quarta-feira passada, para o Mantova, o Brescia bateu a Triestina com um sonoro 4 a 1, sem jamais perder as rédeas da partida. Chievo e Pisa também vão bem (além de Bologna, Lecce e o surpreendente Albinoleffe), mas a promoção imediata tem cheiro de Lombardia nesta temporada.

Curtas

– É desnecessário dizer o tanto que o Milan está afundado numa crise e que pensa em alternativas.

– O retorno de Grimi, externo defensivo emprestado ao Siena e o sérvio Ivanovic estão na mesa da diretoria como possíveis soluções.

– Esta é a seleção Trivela da 9a rodada:

– Ballotta (Lazio); Cicinho (Roma), Domizzi (Napoli), Aronica (Reggina) e Grimi (Siena); Gargano (Napoli), León (Genoa) e Foggia (Cagliari); Morfeo (Parma); Tavano (Livorno) e Vucinic (Roma)