Ritual de passagem

Nem mesmo todo o rancor espanhol e toda a bobagem “defensivista” que se disse sobre o futebol italiano nos últimos dias puderam diminuir a alegria de Carlo Ancelotti. O técnico de Reggiolo foi a figura mais importante na conquista européia do Milan, em Manchester, apesar das três defesas de Dida na disputa de pênaltis.

Para começar, Ancelotti livrou-se do rótulo de “perdedor”, uma bobagem que se repete com seu colega da Inter, Hector Cúper. O treinador já tinha chegado ao vice-campeonato italiano em três oportunidades (duas com a Juventus e uma com o Parma), o que fazia grande parte da crítica italiana menosprezar seu trato afável com os jogadores e uma eventual incapacidade de segurar a barra em momentos decisivos.

Ancelotti fez a bobagem cair por terra com uma campanha ímpar na competição, vencendo todos os jogos que importavam. Antes da semi-final contra os arqui-rivais da Inter, o Milan só não fez três pontos nas partidas onde já estava classificado, além do empate em 0 a 0 em Masterdam, contra o Ajax. Por isso, o argumento das estatísticas negativas que mostravam um mau poderio ofensivo do time prova-se falacioso, pois o time jogou quatro jogos com times mistos. O Milan fez Real Madrid, Bayern de Munique, Borussia Dortmund e Deportivo La Coruña ajoelharem-se. Não é pouco.

Outro feito do ex-companheiro de Falcão foi o de ter posto em prática a sua tese de formatura na escola de treinadores, validando um esquema que não é o seu predileto (o 4-3-1-2), com apenas um homem de marcação, Gennaro Gattuso. Na prática, ‘Carletto’ fez cair outra falácia: a de que um bom meio-campo precisa de vários volantes. Precisa sim, é de marcação implacável de todos, atacantes inclusos.

Mas a grande vitória pessoal de Ancelotti se deu com o sucesso diante da Juventus. O time de Turim o demitiu no início da temporada 2001-2002 porque o considerou incapaz de levar a Juventus aos títulos. Ao bater a Juventus de seu sucessor, Marcello Lippi, Ancelotti aplicou um duro golpe na “Vecchia Signora”, que tinha no troféu europeu a sua prioridade absoluta.

Terceiro homem a conseguir vencer a Liga dos Campeões como jogador e técnico (os outros foram Miguel Muñoz, do Real Madrid, e Johann Cruyff, do Ajax/Barcelona), Ancelotti levantou seu terceiro troféu numa celebração do futebol italiano. A final, como 90% das finais, não foi bonita (não vamos confundir final emocionante com final de qualidade, pois na várzea, vários jogos são emocionantes). Ou melhor, não foi bonita para alguns. Para Ancelotti, foi linda de morrer.