Quem diria? O eterno coadjuvante Zalayeta, juventino por toda uma vida, inesperadamente, reabriu as contas de um campeonato que já parecida com o caixão pregado a favor da Inter. E por uma pequena circunstância – o gol de Javier Zanetti no confronto direto entre Inter e Roma – esta segunda-feira não amanheceu com ares de terror para um time ‘imbatível’ até duas semanas atrás.

Mais do que uma boa partida do Napoli (onde um meio-campo onipotente destruiu as parcas ambições interistas), o que parece seguro afirmar é a existência de uma crise em Appiano Gentile. Antes que o internauta um pouco mais ‘nerazzurro’ possa dizer “Ih, olha lá o corneteiro”, que fique claro: não se trata de uma crise de resultados nem uma crise (ainda) interna, e sim uma crise de jogo.

Exceção feita a alguns trechos de partidas contra adversários mais frágeis e o período do jogo contra a Roma no qual os ‘giallorossi’ estavam com um homem a menos (Mexès tinha sido expulso), a Inter não mostra um jogo fluido durante toda uma partida há tempos. É preciso voltar a 09/12 (Inter 4 x 0 Torino) para se encontrar um jogo no qual a bicampeã italiana justificou o seu pedigree.

Não se pode contudo, falar em crise de resultados para um time que não perdia na Série A há 26 jogos. Em 2008, foram cinco vitórias, três empates e a derrota para ao Napoli. Os seis pontos de vantagem são uma folga considerável – mais ainda se a Inter for eliminada da Liga dos Campeões (as casa de apostas dão preferência de 75% para o Liverpool passar o turno).

A questão psicológica, no entanto, é mais delicada para a Inter. Se, depois de uma derrota que quebrou um tabú de 26 jogos, o time for eliminado da Europa, é difícil saber como o grupo reagirá. A história recente da Inter sugere sempre um clube que entra em ebulição por qualquer razão. Nesta temporada, o objetivo principal do clube é a Liga dos Campeões e uma eliminação teria um peso sensível.

‘Ah, então quer dizer que a Roma vai alcançar a Inter?’. Essa é uma outra questão, porque alem da Inter ter um elenco muito mais extenso e versátil do que a Roma, também o time de Trigoria tem o desafio da Liga dos Campeões. A permanência – ou não – dos ‘giallorossi’ na LC será fundamental para saber quanto o técnico Luciano Spaletti vai medir esforços no campeonato. Se a Inter sair e a Roma não, a líder terá uma competição só para se dedicar, e o inverso também é verdade.

O que não há como negar é que a Inter sofreu dois golpes importantes e a partida contra o Liverpool em San Siro ganhou uma importância extra. Toda a segurança que a Inter tinha até duas semanas atrás pode ir por água abaixo e mesmo o tricampeonato pode acabar sem ter o valor merecido. E se o tri não viesse, então, aí sim, Appiano Gentile pode vir abaixo como os castelos de areia.

Ulivieri demitido; Reggina ‘nei guai’

No momento em que a Reggina decidiu demitir o treinador Massimo Ficcadenti, na 10a rodada da Série A, estava dando um grande passo rumo ao rebaixamento, uma vez que história da Série A mostra que os times que degolam técnicos aumentam suas chances de cair. E quando anunciou o seu substituto, Renzo Ulivieri, deu mais um.

Assim, a demissão de Ulivieri pode até ser a correção de um erro, mas aproxima a Reggina ainda mais de um rebaixamento. Agora, já são 26 rodadas passadas e até a demissão de Ulivieri conta negativamente. A indicação de Nevio Orlandi, olheiro do clube, para o lugar do técnico toscano, soa como um certo ‘conformismo’ do clube calabrês.

Para usar uma imagem cunhada aqui na redação pelo jornalista Ricardo Espina, a Reggina já escorregou na casca de banana, mas a imagem foi congelada antes do choque no chão. Parece que a queda é certa, mas ainda não rolou – pelo menos no papel.

Che Fiore!

O gol de Gobbi contra a Juventus deixou os torcedores da Fiorentina animados, mas a virada juventina no Comunale teve um suspiro de ‘eu já sabia’ por parte das duas torcidas. “Da Juventus, em Turim, não se ganha” (a última vitória da Fiorentina lá tinha sido há 20 anos). Não?

Jogando com uma determinação ‘juventina’, sem Adrian Mutu, com uma escalação nada empolgante no papel (Ujfalusi, Kroldrup, Gamberini, Gobbi na linha defensiva, por exemplo), a Fiorentina obteve um resultado espetacular vencendo a Juve por 3 a 2 e justificando a confiança de Cesare Prandelli, que disse no fim do jogo: “Esse é um time de futuro”.

Alguém pode argumentar que, exceção feita a Zebina, toda a defesa juventina teve algum tipo de blecaute no domingo. Só que os méritos ‘viola’ vão bem alem disso. Prandelli conseguiu jogar só com um volante (Donadel), um meia adaptado à lateral (Gobbi) e um trio de ataque bem ofensivo. O centroavante Pazzini esteve em péssimo dia, mas provavelmente, só ele. O resto da Fiorentina foi digno de aplausos.

E teve também Papa Waigo. A sua jogada no gol de empate mostrou um faro de gol que os jogadores tem ou não tem – não dá para aprender. O senegalês ex-Cesena se desmarcou de Molinaro e arrematou sem chances para um frustrado Buffon, que deu uma bronca imensa no seu lateral. O Guerin Sportivo já aclamou o atacante e cravou em manchete: ‘Viva il Papa!’, o novo herói de Florença.

Cassano, l’Animale, pela enésima vez…

Numa fase em que está jogando muita bola, mas uma vez – a milésima – Cassano se enfia numa confusão por causa de seu comportamento. Depois de uma falta erradamente marcada pelo árbitro Pierpaoli, Cassano reclamou selvagemente e recebeu um amarelo – o segundo – e foi expulso. Para não bater no juiz, Cassano teve de ser contido pelo meio-campista Barone, do Torino.

“Cassabo acaba de perder sua chance de jogar a Euro”, disse o técnico Eugenio Fascetti, o homem que o descobriu em Bari. “Ele precisa entender que certos comportamentos não são aceitáveis. Se eu fosse seu treinador, estaria furioso”, disse Fascetti. “Cassano não é um grande jogador. Ele precisa entender que mesmo com nossa ajuda, corre o risco de ter sua carreira condicionada por atos assim”, afirmou Beppe Marotta, diretor de futebol da Sampdoria e um dos maiores defensores do jogador em Genova.

É realmente uma pena ver um jogador com tamto talento chegar aos 26 anos sem ter conquistado nada. Ele podia ser o herdeiro de Totti na Roma e ter ajudado a Roma a ter um segundo jogador fora-de-série, mas ao invés disso, perdeu um ano e meio em Madri, ganhou o apelido de gordo e não tem a confiança de quase ninguém. Se a Samp quer mesmo recupera-lo, precisa manda-lo a um psicólogo com urgência. O comparativo com Edmundo se faz cada vez mais concreto.

Curtas

A renovação de Kaká com o Milan é bem sintomática de como está o humor do elenco.

Mesmo com o time na 5a colocação, o craque renovou até 2013, o que revela sem dúvidas uma certa confiança nos planos da direção para o futuro.

Do time titular do Milan, o único jogador com contrato a vencer antes de junho de 2010 é Paolo Maldini, que encerra a carreira em três meses.

A Lega Cálcio anunciou que trabalha com as hipóteses de novos horários de jogos para o Italiano seguindo o modelo inglês.

Ou seja: partidas nas noites de segunda-feira e ao meio-dia de domingo.

Dados os problemas defensivos no setor esquerdo da Juventus, começa-se a pensar em alternativas para a temporada que vem.

Além de mais um central (Legrottaglie e Grygera estão ameaçados), é quase certa a chegada de um lateral: Pasqual (Fiorentina) e Taiwo (Olympique-FRA) estão cotados.

Esta é a seleção Trivela da 27ª rodada:

Kalac (Milan); P. Cannavaro (Napoli), Portanova (Siena), Canini (Cagliari); Santacroce (Napoli), Hamsik (Napoli), Aquilani (Roma), Dossena (Udinese); Lavezzi (Napoli), Diamanti (Livorno) e Papa Waigo (Fiorentina)