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E agora, Galo?

Há algum tempo atrás, o editor desde blog, falou sobre a dificuldade de se jogar a Libertadores, torneio onde a disparidade técnica dos times que a disputa, não é exatamente o maior entrave. A logística (altitude/translado) as vezes pode ser um problema maior do que a capacidade técnica do time que se enfrentará; além da sorte na definição dos confrontos de mata-mata. Jogar contra um Santa Fé da vida é menos pior do que enfrentar um time argentino em Buenos Aires.

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O erro de Cuca…

Ao longo de sua carreira de técnico (que começou há 10 anos, no Uberlândia), o novo treinador do Flamengo, Cuca, raramente passou um ano num clube só. Nessa década, Cuca já tem no seu currículo, uma lista de 20 clubes: Uberlândia, Avaí (duas vezes), Brasil de Pelotas, Inter de Limeira, Remo, Inter de Lages, Gama, Criciúma, Paraná Clube, Goiás, São Paulo, Grêmio, Coritiba, São Caetano, Botafogo, Santos, Fluminense e finalmente o Flamengo, também pela segunda vez.

A primeira conclusão que não é difícil de tirar é a de que apesar de um reconhecimento geral de que se trata de um bom técnico, ele não consegue ficar mais de seis meses num clube (menos até do que o irascível Emerson Leão). Só no Botafogo Cuca conseguiu ficar mais de um ano e ainda assim, numa gestão turbulenta, onde o clube ficou consagrado pelo “chororô”, muito pela instabilidade emocional de seu comandante (e também da diretoria, claro).

Em 2008, Cuca teve uma lição da vida: saiu do Botafogo por causa de uma deficiência sua na gestão psicológica (dele mesmo e do grupo) e foi para um Santos despedaçado. Aos amigos, Cuca admitia que estava se arriscando, mas que a proposta financeira do Peixe era boa demais para ser recusada. Fracassou fragorosamente de novo, mas nem assim aprendeu a lição e aceitou um chamado do Fluminense, que também estava na zona do rebaixamento. E não surpreendentemente, ‘flopou’ igualmente, também deixando o Flu na mesma zona de risco. Para configurar definitivamente a sua falta de competência em 2008, todos os três se salvaram depois de sua saída.

O acerto com o Flamengo revela provavelmente um novo recorde: Cuca passou por quatro clubes em 2008. Sim, ele deve estar com uma conta bancária bem abastada. E é bom que seja assim, porque pelo andar da carruagem, em breve ele vai precisar dela para viver, já que não falta muito para que os convites de porte comecem a escassear.

Depois de três fracassos indefensáveis, Cuca deveria fazer o que qualquer um que tomou uma envergada faria: esperar um convite de um clube organizado (ainda que mais modesto), com uma torcida que pressionasse menos no qual ele pudesse passar dois ou três anos e finalmente, mostrar que sabe trabalhar para elevar o clube de patamar. Seu salário provavelmente não seria nababesco como os dos últimos três clubes, mas ele apostaria numa carreira sólida.

Sua opção foi a inversa: deixou-se seduzir por um salário provavelmente alto, mas vai lidar com um time que tem um elenco regular e uma torcida ensandecidamente fanática, bombada por uma mídia rigorosamente cega em relação à própria paixão. Para piorar, tanto a mídia quanto a torcida acham que o elenco é composto de gênios e que deveria ter vencido o Brasileiro com facilidade.

É difícil vislumbrar Cuca dirigindo o Flamengo no fim de 2009. Não há pressão similar à do Flamengo e ele certamente não sabe lidar com pressão (nem mesmo em clubes menores que o Fla). A sua reputação de bom tático (que é justa) há de se afundar por uma reputação muito mais concreta, a de “perdedor”, ainda que em nenhum dos clubes que ele tenha passado, o elenco desse chances para disputas de título. Muito mais que os seus atletas, é ele que precisa de um psicólogo em tempo integral, ou então vai soçobrar.

…e o erro do Flamengo

Diretoria, mídia e torcida flamenguista demitiram Caio Júnior com uma certeza: seus erros tiraram o clube de um título brasileiro certo. (Ao leitor que estranhou a menção à mídia como um dos participantes da demissão de Caio, não estranhe – não é por acaso). Sem ele (talvez com o “Professor Joel”), o Fla teria conquistado seu sexto título brasileiro e não teria sido passado pelo São Paulo. Certo?

Não. O Flamengo tinha um time bom nesta temporada, é fato, mas nem de longe era superior aos seus concorrentes diretos que, não coinidentemente, ficaram com as vagas para a Libertadores. Exemplos: Léo Moura e Juan são bons laterais, mas Eltinho e Luizinho ainda não existem. Dos oito atacantes flamenguistas, nenhum estava à altura do posto com um deles, Josiel, ficando em situação constrangedora pela deficiência técnica.

Caio Júnior não foi o maior culpado (embora tenha suas responsabilidades) pelo quinto lugar do Flamengo (e não, não foi um fracasso, porque o Fla não é melhor que os quatro primeiros do Brasileiro 2008), mas deixemos isso para lá. Uma vez demitido, qual o perfil do técnico seguinte? Certamente um nome com personalidade fortíssima (para controlar elenco e mídia), virtude mais importante até do que a capacidade tática, já que na Gávea, o extra-campo é muito mais problemático do que o que acontece no gramado.

O nome natural era o de Renato Gaúcho. Não sou fã da fanfarronice de Renato, mas admito que nos clubes em que passou ele soube desenhar taticamente seus times e colocou os jogadores na coleira. Além disso, a derrota na Libertadores há de ter ensinado a ele algumas lições sobre como controlar a língua para não se transformar numa vítima dela.

Ao invés disso, é Cuca, provavelmente o treinador mais fragilizado emocionalmente no Hemisfério Sul, o encarregado de comandar o Fla a vencer o seu primeiro título em 16 anos (não, estaduais e Mercosul não estão à altura do Flamengo). Esse jejum faz (ou deveria fazer ) pensar. Se o clube é tão superior, porque tanto tempo sem ganhar?

O clube da Gávea, nos últimos anos, deu sinais de amadurecimento e profissionalismo, mas também deu – como nos inúmeros episódios que levaram às escorregadas no Brasileiro – mostras das velhas presepadas originadas em fanfarronice mediática. Cuca foi um erro da direção do Flamengo e o Flamengo foi um erro de escolha de Cuca. Se algo positivo sair daí, será uma surpresa. A melhor chance do Fla neste ano é a Copa do Brasil, único torneio que pode dar ao técnico a energia para superar as próprias limitações e a pressão rubro-negra.

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