Escutando as discussões sobre a importância do Estadual, sinto que realmente, mesmo os jornalistas sérios, acabam se entregando àquilo que o torcedor quer ouvir. E ele quer ouvir que, sim, o time dele tem condição de ser campeão estadual – por menos que isso signifique.

Só que alem de não significar nada, ainda pode ser o prelúdio de um ano bem mala. Numa contagem dos últimos 18 anos, se pegarmos os campeões estaduais dos regionais menos patéticos (SP, RJ, MG e RS), nos damos conta de que só seis deles conseguiram bisar o título estadual com o Brasileiro: o São Paulo de Telê (1991), o primeiro Palmeiras de Luxemburgo (1993/1994), o Grêmio de Felipão (1996), o primeiro Corinthians de Luxemburgo (1999) e o Cruzeiro de Alex e Luxemburgo (2003). Ou seja, os autores das proezas foram os melhores times que esses clubes tiveram nos últimos 20 anos.

Os Estaduais também não se refletem na Copa do Brasil: das 18 edições da Copa entre 1990 e 2008, só em cinco delas o campeão estadual levou a taça nacional (Inter em 1992, Corinthians em 1995, Cruzeiro em 1996 e 2003, Grêmio em 2001).

O preocupante para quem está louco para poder comemorar o triunfo de seu time sobre o Democrata ou sobre o Mirassol é ver que 34 dos títulos estaduais no período (são 72 ao todo, contando quatro títulos por ano nos quatro estados) ficaram com times que, no fim do mesmo ano, amargariam uma colocação da 10ª para baixo no Brasileiro no mesmo ano, sendo que 14 deles terminariam o Nacional em posição que hoje equivaleria ao rebaixamento.

Há conclusões possíveis? Creio que sim. O título estadual é decidido num momento em que a preparação física e tática do time ainda é precária. Mesmo assim, imprensa e torcida (especialmente no Rio de Janeiro) colocam uma grande pressão para que seus times vençam, minando qualquer possibilidade de estabilidade, vide o que acontece no Rio hoje, onde exceção feita ao campeão estadual, quem perder vai balançar. Renê Simões mesmo já foi vítima desta pressão.

Outra conseqüência, esta pior para a torcida, é que o sucesso no Estadual cria falsas ilusões, com raras exceções (basta ver que os times que conseguiram títulos estaduais e brasileiros no mesmo ano eram muito fortes mesmo). Exemplos não faltam: o Palmeiras do “mago” Valdivia, o Atlético-MG que goleou o Cruzeiro na final de 2007 ou do Corinthians de “Mestre” Geninho em 2003.

O colunista da BBC, Tim Vickery, faz uma pintura clara do que são os Estaduais: um torneio anacrônico que têm um único e exclusivo motivo para existir: sustentar o status quo do futebol – leia-se as federações, confederações e todo tipo de cartolagem. Graças a ele não podemos ter um calendário melhor, menos (mas melhores) jogos e temos de sustentar ficções clubísticas como Macaé, Resende e Barueri. Claro que “gostar” ou não do Estadual é uma questão de opinião e por isso, indiscutível. “Defendê-lo” como tendo ele sendo benéfico ao futebol do país como um todo, é outra coisa.

Mudou de idéia em relação a vencer o fantástico estadualzão? Ou aquele clássico com o Mesquita ainda te seduz?