Qual o maior estádio do país? O Maracanã? O Morumbi? O Mineirão? A Kyocera Arena? Não. Pela agenda, o maior e mais importante estádio do país é o Bezerrão o Walmir Campelo Bezerra de Brasília. Duas semanas depois de receber Brasil x Portugal, terá no seu gramado a decisão do Campeonato Brasileiro.

A cidade-satélite do Gama tem 5% de seus habitantes com nível superior de educação. No Distrito Federal (incluindo Brasília, porque o IBGE não tem dados exclusivos da cidade satélite), a oferta de atendimentos na saúde pública é 10 vezes menor do que a privada (no Brasil, a média de atendimentos privados é de 41%, números do IBGE). Há somente dois hospitais públicos. Mesmo assim, o governo estadual investiu quase R$ 50 milhões (o Orçamento DF para a Região Administrativa II – Gama é de R$ 77 milhões) para reformar o Bezerrão. Daí, a importância rapidamente adquirida pelo estádio.

Segundo o site do Gama (clube que recentemente esteve “de mal” da CBF por causa do imbróglio que levou à disputa da Copa João Havelange), a reforma foi “acelerada” pelo pedido do então deputado Agrício Braga Filho, curiosamente, o maior distribuidor de revistas do DF, até premiado pela distribuidora da Editora Abril. Fica fácil entender o corre-corre para colocar o Bezerrão no mapa – ainda mais com Brasília se candidatando a ser cidade-sede na Copa de 2014.

O Distrito Federal não existe no cenário futebolístico brasileiro e a quantidade de jogos relevantes que mereçam estádios modernos por lá é igual a zero. Mesmo assim, um governo intimamente ligado à CBF não se acanhou em enterrar um valor que representa mais da metade do orçamento dedicado a esporte e lazer em todo o DF para erigir um elefante branco. Um futebol forte em Brasília seria fantástico, mas antes, questões como saúde e educação têm de vir – mesmo que o povo queira pão e circo (ou só circo).

A CBF diz que o critério da escolha é técnico e que os torcedores do Goiás têm de ter seu interesse tutelado. Mas não são justamente os torcedores que têm de ser punidos pelos incidentes na partida com o Cruzeiro? E se não é o caso, porque não cancelar a suspensão e simplesmente deixar o jogo em Goiânia, num estádio maior e muito mais tradicional?

O futebol no Brasil deu largos passos na sua organização nos últimos anos. Estabelecimento de um formato que não atende só ao interesse da detentora dos direitos de transmissão, obrigação de anúncio do calendário com antecedência, controle mais rígido de públicos e rendas e afins. O resultado é visível: o nível técnico ainda está muito aquém do possível, mas o interesse pelo torneio aumentou radicalmente. Mas a mãozinha da CBF está voltando a aparecer, fortalecida pelo cacife político da Copa de 2014. Mesmo clubes e políticos que faziam oposição a Ricardo Teixeira agora abaixam o tom esperando por “presentes” do cartola na decisão das cidades-sede.

Os riscos são claros. Voltar a ter um campeonato propositalmente bagunçado (e assim, mais manipulável pelos detentores do poder) e uma lista de elefantes brancos como o Engenhão e o Bezerrão, com o nosso dinheiro. E se você acha que o problema não é seu, esconda a cauda e as orelhas em algum lugar, para evitar problemas.