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Metralharam a Cinderela

A semana passada doeu em várias torcidas. Muito se falou do massacre do Zenit sobre o Bayern de Munique na Copa Uefa e da sofrida eliminação do Liverpool na LC. Mas ninguém – ninguém mesmo – teve uma semana tão infernal quanto a Fiorentina, a equipe mais simpática e promissora da Itália na temporada.

A simpatia da Fiorentina é fácil de explicar: é difícil não gostar de Florença e sua rebeldia organizada e sua cultura tão enraizada. O Artemio Franchi é um estádio com uma atmosfera sensacional, uma torcida apaixonada (ainda que às vezes imbecil na sua violência) e uma independência histórica do eixo Roma-Milão-Turim. E promissora porque nos últimos anos tem contratado os melhores jovens da Itália, como Pazzini, Montolivo, Potenza, Cacia.

Só que em uma semana, o mundo fiorentino ruiu. Antes do jogo com a Sampdoria, a Fiorentina tinha quatro pontos de vantagem sobre o Milan no campeonato, com quatro rodadas para seu final (com uma conseqüente vaga na Liga dos Campeões) e uma semifinal da Copa Uefa para decidir em casa (sem desvantagem para reverter).

Um empate no último minuto, uma derrota nos pênaltis e uma derrota merecida para o Cagliari simplesmente devastaram aquela que, na próxima temporada, poderia ser a Cinderela do futebol europeu, candidatando-se a fixar-se na LC a médio prazo. Com um grupo jovem, as pauladas derrubaram o time e agora é difícil dizer quando – e se – ele vai se recuperar.

O gol marcado por Gastaldello no empate da Fiore com a Samp afetou o grupo, sim, mas foi a desclassificação na Uefa que fez tudo ruir. A Fiorentina se dava como certa na final de Manchester. Ia pegar o Rangers e bastava ganhar de 1 a 0. Aí estava o problema.

O ataque fiorentino, até pela sua juventude (Vieri à parte), é estéril quando a coisa aperta. Pazzini, Vieri, Cacia, Di Carmine, Lepiller, Osvaldo, Papa Waigo, Santana e mesmo Mutu foram incapazes de decidir. E nos pênaltis, tudo foi para o saco. Inclusive Vieri, que ao desperdiçar sua cobrança, sofreu uma distensão muscular e está fora da temporada – e da Fiorentina (que não renovará seu contrato).

O golpe foi forte. Muito forte. Depois do jogo, o zagueiro Ujfalusi praticamente confirmou que está acertado com o Atlético Madrid, o técnico Prandelli admitiu que seu time é jovem demais e rumores de discussões entre os jogadores vazaram na imprensa. No domingo, a pá de cal veio na Sardenha. O Cagliari dominou amplamente o jogo e merecia até um placar mais elástico do que o 2 a 1. Para piorar, Mutu se destemperou e falou o diabo para o árbitro Farina, que o expulsou.

O que mais pesa contra o time toscano é o retrospecto de médio prazo. São 10 derrotas nos últimos 24 jogos. Agora, o Milan depende só de si para ficar com a quarta vaga na LC e a Fiorentina não tem nem Vieri nem Mutu e o jogo contra o Parma é vitam para manter as chances de sonho da LC, a única coisa que faria a temporada não soar como um fracasso.

Para a preocupação da torcida, o grande problema é o momento da crise. A quatro rodadas do fim da temporada, o time poderia se sagrar campeão da Uefa e ter uma vaga na Liga dos Campeões. Agora pode não ter nada e ainda perder jogadores importantes (além de Ujfalusi, o goleiro Frey também deve sair), além de questionar talentos como Pazzini (que o clube gostaria de trocar por Borriello, do Genoa), Montolivo, Kuzmanovic e outros. Quanto isso pode comprometer o projeto de Prandelli? Isso não tem como dizer agora.

O Parma tem seu Capitão Nascimento

Na semana passada, quando o Parma perdeu na Calábria para a Reggina, concorrente direta contra o rebaixamento, um clima de funeral se abateu sobre o elenco. Foi a segunda derrota seguida em um jogo no qual o Parma estava vencendo e tomou a virada depois de uma expulsão (Mariga contra o Napoli e Paci contra a Reggina). O meia Morrone chegou até a deixar o campo xingando o técnico Hector Cúper por ter substituído Cristiano Lucarelli.

Mas antes que a balbúrdia reinasse em Collechio, o CT do Parma, o presidente do clube, Tommaso Ghirardi, tomou as rédeas e assumiu seu lado Capitão Nascimento. Depois de uma bronca violentíssima no time, ainda na Calábria, Ghirardi ganhou pontos com a torcida ao adotar uma disciplina draconiana no clube.

“É mentira que eu vá deixar o clube [n. Do e.: Ghirardi comprou o Parma há dois anos]. Também não é verdade que eu esteja aborrecido com Cúper”, disse Ghirardi. “Saímos da Calábria no máximo da humilhação e me sinto envergonhado como torcedor”, disse o dirigente.

Depois de poupar o técnico e a torcida, Ghirardi não poupou munição. “Também tenho orgulho e sofrer os insultos e cuspidas que eu sofri não é fácil. Mas que todos saibam: não deixarei de dar meu apoio moral nem financeiro, mesmo caso acontecesse uma desgraça esportiva que rebaixasse o Parma”, afirmou à agência italiana Ansa.

“Mas não é justo que eu pague a conta sozinho: os responsáveis por esse possível rebaixamento – os jogadores – sofrerão as eventuais penas do inferno junto comigo e com o Parma e terão de comer o pão que o Diabo amassou e coisas muito piores. E garanto: todo o elenco ficará em caso de rebaixamento, até que o Parma seja recolocado na sua posição devida”, disse o empresário.

Ghirardi assumiu a responsabilidade por parte dos erros, dizendo que errou em apostar nos jovens e em um técnico fora do “circuito” (Domenico Di Carlo). “Mas é que eu queria fugir dos nomes de sempre e fazer crescer jovens identificados com o clube”, afirmou. No domingo, o preço do ingresso em Parma foi reduzido em 75% e o estádio estava lotado, ajudando o time a superar um difícil Genoa. Contra Fiorentina e Inter, o Parma terá de comer a grama como fez no domingo. Caso contrário, segundo garante Ghirardi, passará toda a próxima temporada com coisas piores do que capim no prato.

Os duelos dos desesperados

Todos os focos estarão voltados para San Siro no próximo fim de semana. É ali que debe acontecer a partida que definirá o campeão italiano. A Internazionale enfrentará um Siena que já se salvou do rebaixamento matematicamente precisando de uma vitória simples para assegurar-se o título.

Contudo, Livorno e Reggio Calábria hospedarão jogos que significarão muito mais para os times envolvidos. Na Toscana, o time ‘amaranto’ pega o Torino, enquanto na Calábria, a Reggina receberá o Empoli. Em disputa nas duas partidas, seis pontos envolvendo quatro ameaçados diretos pelo rebaixamento. Nas duas partidas, quem perder, cai. Ou quase.

Com 30 pontos, o Livorno está praticamente rebaixado, já que o Catania – primeiro time hoje fora da zona de rebaixamento – tem cinco pontos a mais. A única coisa que pode soar como positiva de alguma forma é o fato dos dois últimos adversários serem rivais diretos na luta contra a queda: Torino e Empoli. A última vitória do Livorno na Série A ocorreu no começo de março, há dez rodadas (1 a 0 no Catania).

O Torino, adversário ‘livornese’ na próxima rodada, tem quatro pontos a mais do que o primeiro da zona de rebaixamento, mas antes do sucesso contra o Napoli, tinha sofrido quatro derrotas seguidas (a última vitória também tinha sido sobre o Catania). Jogando numa retranca quase sórdida, é pouco provável que o ‘Toro’ dê ao Livorno alguma sobrevida depois do próximo jogo.

No Oreste Granillo, a Reggina pode definir a sua premanência na Série A e fechar o caixão do Empoli. A ressurreição da Reggina se debe basicamente aos dois ‘trequartistas’ do time, Cozza e Brienza, que deram um novo ânimo ao time. No Empoli, nem o bom jogo de Giovinco sugere uma salvação.

Outros dois jogos são fundamentais para a decisão das vagas: além da já citada Fiorentina x Parma, em Florença, também a viagem do Catania a Turim para pegar a Juventus é vital. Se Parma e Catania não vencerem, dificilmente escapam na última rodada. Pelas circunstâncias e calendário, Livorno, Catania e Empoli parecem, hoje, os mais ameaçados.

Curtas

– Na semana passada, a Gazzetta Dello Sport se referiu a Filippo Inzaghi como “descontrolado” ao fazer gols sem parar “para levar o Milan sozinho à Liga dos Campeões”.

– Com o gol contra a Inter, já são nove em cinco jogos.

– A boa fase é tamanha que o Milan até começou a declarar que não está mais interessado em Ronaldinho Gaúcho.

– Claro que ainda está, mas com um Inzaghi assim, o Barcelona terá de pedir menos do que os €35 milhões desejados.

– Nesta segunda-feira, o francês Mathieu Flamini já fez testes em Milão e já é jogador do clube de Kaká.

– Na antepenúltima rodada do Italiano, nenhum empate: seis vitórias dos mandantes e quatro dos visitantes.

– Seleção Trivela da 36a rodada:

– Doni (Roma); Motta (Torino), Nesta (Milan), Padoin (Atalanta); Adriano Ferreira Pinto (Atalanta), Cossu (Cagliari), Ambrosini (Milan), Sammarco (Sampdoria), Kaká (Milan); Inzaghi (Milan), Amauri (Palermo).

Temporada estilhaçada

“As desculpas se acabaram. Essa partida é para ser esquecida”. Essa foi a frase do técnico Carlo Ancelotti, referindo-se a um dos resultados de Série A mais sentidos pelo Milan nas últimas temporadas. O 1-2 imposto pela Atalanta (última vitória bergamasca fora de casa contra o Milan desde 1991, quando Evair fez o gol do 1-0) não foi um resultado de azar, embora de fato o árbitro tenha anulado um gol legítimo e não marcado uma falta clara que invalidaria o primeiro gol atalantino. Não há mais desculpas. A crise está aberta e agora Milanello calcula como será a próxima temporada.

É difícil fazer uma crítica do Milan diante da Atalanta porque não há setores ou jogadores menos culpados. Exceção feita a Ambrosini, que comeu a grama por 90 minutos, fez um gol e sofreu uma penalidade máxima (desperdiçada por Pirlo). Todo o resto teve uma performance indefensável.

O discurso do clube de que não haverá revoluções para a próxima temporada caiu por terra. Não é possível imaginar um Milan no próximo campeonato sem que haja uma série de contratações, dispensas e mudanças no elenco. Até mesmo Carlo Ancelotti, confirmado pelo clube mesmo na possibilidade de não-classificação para a Liga dos Campeões, começa a correr riscos.

O irônico é que Ancelotti é certamente o menos culpado pela forma terrível do Milan 2007/08. Com um time titular excelente, mas de idade média alta, Ancelotti teve de disputar quatro torneios com um elenco no qual há pouco mais de cinco alternativas realmente válidas no banco de reservas. Jogadores como Ba (zero presenças na temporada), Digão (três jogos), Simic (quatro aparições), Serginho (10), Cafu (13) não são alternativas válidas para quem quer ganhar títulos. Mesmo assim, é a cabeça do técnico de Reggiolo que pode entrar no rolo.

Os rumores cercando o treinador ainda são inconsistentes, mas a atual forma não deixará alternativa à diretoria. O campeão mundial Marcello Lippi é o substituto ideal, com Luciano Spaletti, José Mourinho (aparentemente mais próximo da Inter – leia abaixo) e Roberto Donadoni bem cotados na bolsa de apostas.

Além disso, há jogadores de primeira linha cujo rendimento está muito abaixo da média, por questões técnicas ou físicas. Ronaldo devia ser o principal atacante do Milan na temporada, mas fez só oito jogos. Gilardino não marca gol pela Série A em San Siro há mais de um ano. Inzaghi limitou-se a 19 partidas (5 gols) por causa de lesões seguidas. Casos semelhantes acontecem com Jankulovski (11 jogos na Série A), Emerson (20 aparições, a maioria entrando no segundo tempo) e até o legendário ‘capitano’ Maldini (17 jogos).

Sem nenhum exagero, é possível afirmar que o Milan não tem como entrar na próxima temporada sem ao menos oito reforços: um goleiro, dois zagueiros, um lateral, dois meio-campistas e dois atacantes. Muito? Não, se levarmos em conta que os destinos de Gilardino (a caminho de Florença), Gourcuff (provável empréstimo para o Ajax), Ba e Simic já parecem claros, enquanto os de Cafu, Serginho, Ronaldo e Emerson sugerem divórcios iminentes.

‘Calciomercato’ de verdade

Alguns nomes são dados como certo pelos bons órgãos de imprensa da Itália. Didier Drogba era desejado pela diretoria milanista, mas um pedido de €8 milhões anuais de salário afugentaram o clube. Outro ‘Chelsea-boy’, o filho pródigo Shevchenko já estaria certo com o clube, segundo o La Repubblica e a Gazzetta Dello Sport. Sem Gilardino, até um segundo nome poderia chegar.

Para o gol, o franco favorito é o francês Frey, da Fiorentina, com o polonês Boruc bem-avaliado. Mexés (Roma), Barzagli e Zaccardo (Palermo) fazem parte da lista para a zaga, enquanto o francês Flamini (cujo contrato com o Arsenal acaba em junho) é o único meio-campista citado de maneira mais sólida.

Claro, e tem Ronaldinho Gaúcho. A fase macabra do brasileiro no Barcelona tornam uma tranferência sua muito mais viável para o clube catalão do que há um ano e sua chegada seria muito cômoda para o elenco, uma vez que ele tanto pode atuar como atacante quanto na posição de Kaká, para que o ‘Ballon D’Or’ possa descansar quando necessário.

O verão europeu deste ano deve ser o primeiro desde 2000 no qual o Milan investe pesado. Naquele ano, chegaram Pippo Inzaghi e Rui Costa num custo conjunto de €60 milhões. Se o clube for atrás do que realmente precisa (mesmo sem nenhum exagero), não debe gastar menos do que isso. A auto-suficiência do clube ao sempre achar que o elenco estava perfeito nas últimas temporadas ia fazer com que um preço fosse pago mais cedo ou mais tarde. Agora é a hora.

Inter-Mourinho: dado como certo

No domingo passado, o respeitável dominical britânico The Observer publicou em matéria que José Mourinho estava acertando detalhes de sua contratação pela Inter e que estaria em Milão para tanto. Os dois negaram, mas o agente do técnico confirmou o encontro, embora tenha dito que se tratava de “outro assunto”. Nesta semana, outra reunião entre treinador e dirigente aconteceu, desta vez em Paris. E para surpresa de todos, soube-se que na verdade teria sido a terceira conversa – a primeira fora em Portugal.

Não há mais na Itália quem creia na permanência de Roberto Mancini depois do fim desta temporada, com ou sem ‘scudetto’. O atrito criado pelo técnico com sua “demissão” depois da eliminação na Liga dos Campeões azedou o ambiente de uma tal forma que seu desligamento só não aconteceu imediatamente para não colocar em risco um título virtualmente ganho.

O entrave no acerto Mourinho-Inter está na condição número um imposta pelo português: controle total sobre o futebol interista, indo de preparação física a contratações, passando pelo setor médico. Mourinho sabe da fama que a Internazionale tem de ser uma grande reunião de feudos e que isso já derrubou muita gente boa (como Marcello Lippi e Hector Cúper, por exemplo). O presidente Massimo Moratti hesita em dar tal liberdade a Mourinho. Moratti gosta de ter poder nas contratações e por isso as confia a tarefa a Marco Branca e Gabriele Oriali – seus braços-direitos.

Para a Inter, Mourinho seria uma contratação fantástica. É um treinador muito capacitado, disciplinador e que não tem medo de meter o pé no balde que estiver atrapalhando. Certamente é o que Roberto Mancini gostaria de ter tido há quatro anos.

– Mais um torcedor morreu no final de semana na Itália, como se sabe e o jogo entre Juventus e Parma foi adiado por causa disso.

– A pergunta muito pertinente feita por Ubiratan Leal na redação da Trivela foi:

– “Por que razão se deve-se adiar uma partida por causa de um membro de uma torcida organizada que estava caçando outra em um posto de beira de estrada?”

– Alberto Malesani caiu depois da derrota do Empoli para a Sampdoria; em seu lugar, retorna Luigi Cagni.

– Para a partida entre Fiorentina e PSV pela Copa Uefa, a polícia de Florença proibiu avenda e consumo de bebidas alcóolicas das 12h às 20h na cidade e das 17h às 21 nas imediações do estádio Artemio Franchi.

– Seleção Trivela da 31a rodada:

– Manninger (Siena); Lukovic (Udinese), Mexès (Roma), Konko (Genoa), Adriano Ferreira Pinto (Atalanta); Tissone (Atalanta), Inler (Udinese), Hamsik (Napoli); Quagliarella (Udinese), Floccari (Atalanta), Rosina (Torino)

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