No último sábado tivemos a final do Mundial de Clubes da FIFA, disputada entre Liverpool e Flamengo, respectivamente campeões das últimas edições da Champions League e Taça Libertadores. No Brasil o confronto teve amplo destaque, e em tempos de redes sociais, vimos as mais diversas reações sobre a derrota rubro-negra por 1×0.

A grande imprensa não se furta a incensar de forma desmedida o trabalho do técnico português Jorge Jesus, que em termos de futebol sul-americano, apresentou resultados (título do Brasileiro e Libertadores). Entretanto não foi apenas sua presença que ocasionou mudanças de panorama no futebol brasileiro em 2019, uma vez que o vice-campeão brasileiro Santos, teve um argentino (Jorge Sampaoli) a sua frente.

Esse choque em relação a trabalhos de técnicos estrangeiros demorou a acontecer por aqui. Imaginava-se que caso um surgisse e conseguisse se impor ocasionaria algum tipo de revolução. Se por um lado isso depõe contra treinadores brasileiros longevos, alguns ultrapassados (Felipão, Luxemburgo, Abel Braga), por outro isso não pode eclipsar técnicos em início de trajetória (Fernando Diniz, Rogério Ceni, Antônio Carlos Zago, Jair Ventura, etc).

Os erros de Jorge Jesus

Consta-se que o Flamengo não teve convicção na busca por Jesus, que por sua vez esteve no Brasil no primeiro semestre deste ano de 2019 para falar com emissários do rival rubro-negro, o Vasco da Gama. Por acaso, ou por pura provocação de rival, alguém na direção flamenguista resolveu procurar por Jesus, pouco depois.

No aspecto tático podemos enfatizar os dois gols sofridos pelo Flamengo, na final da Libertadores contra o argentino River Plate (placar 2×1 para os brasileiros) em novembro, e na vitória contra o árabe Al Hilal (3×1 para os brasileiros) já nas semifinais do Mundial de Clubes, há quase uma semana.

Gols do River e Al Hilal, foram idênticos, anotados em cerca de 15 minutos de bola rolando. O Flamengo virou o jogo nas duas situações. Os gols dos argentinos e da equipe árabe, surgiram de jogadas pelo flanco direito dos seus ataques, nas costas do lateral-esquerdo Filipe Luís. Com a bola passada para o centro da área flamenguista, os centroavantes adversários deslocaram os zagueiros rubro-negros para um elemento surgir de trás e finalizar. 

No último sábado, com cinco minutos de partida, o Liverpool obteve três chances claras de gol com Firmino, Naby Keita e Alexander Arnold, em jogadas construídas pelo flanco direito, a procura de espaço pelo centro da área rubro-negra. Jesus foi precavido e parecia ter orientado seus comandados a ter 1) Filipe Luís como lateral-esquerdo defensivo e 2) dupla William Arão/Gérson fixa na cabeça de área.

Filipe conseguiu anular o atacante red Mohamed Salah que não fez boa partida. Mostrou-se um lateral realmente lapidado pelo defensivista Diego Simeone, em seus tempos de Atlético Madrid. Arão e Gérson nunca foram exímios volantes de contenção, valendo ressaltar que Gérson é meia ofensivo recuado. Com ele preso no plano tático defensivo, o Flamengo perdeu em criatividade ofensiva.

Por que não manter Cuellar no plantel?

Em agosto o Flamengo negociou o volante colombiano Gustavo Cuellar, que foi exatamente para o árabe Al Hilal. Jorge Jesus passa a impressão de não ter entendido a tipologia do “camisa 5” sul-americano. O típico volante na América do Sul é exímio no desarme e na recomposição se dispõe a alinhar-se a linha defensiva, junto aos zagueiros (laterais sul-americanos sempre avançam muito).

O “camisa 5” sul-americano também pode exercer pressão psicológica (catimba) ao oponente e em muitos casos, oferece um bom primeiro passe com a bola recuperada. Ou seja, dotado de boa visão de jogo, o volante sul-americano é aquele que inicia uma boa jogada de ataque. Cuellar foi adquirido pelo Flamengo no começo de 2016, a pedido do então treinador (e hoje comentarista) Muricy Ramalho, que se notabilizou por montar fortes sistemas defensivos.

Na final da Libertadores a própria emissora que transmitiu o confronto no Brasil, mostrou durante o intervalo, a dupla Arão/Gérson “batendo cabeça” no lance do gol do River Plate. Na final contra o Liverpool, o gol de Firmino surgiu no minuto 99 da prorrogação, após lançamento longo proveniente de jogada de alívio na área inglesa. Se ainda jogasse pelo Flamengo, Cuellar talvez estivesse na cobertura de Rodrigo Caio, além de Rafinha e o lance fatal poderia ter configurado três homens, tentando desarmar Firmino.

A seleção portuguesa tem um modo de jogo “feio” e defensivo. Desde a época de Felipão na metade da década passada, Portugal se vale de volantes exclusivamente defensivos como Costinha, ou mais recentemente William Carvalho, na equipe lusitana vitoriosa na final da EURO 2016. Jorge Jesus parece não compreender esse conceito.

Mais além, o elenco do Flamengo tem apenas dois atletas em alto nível europeu, o goleiro Diego Alves (ex-Valencia) e o meia Bruno Henrique (ex-Wolfsburg). Diego Alves foi o grande responsável pelo placar não ter sido amplo. Dentre os outros atletas incensados por torcida/imprensa, Arrascaeta e Everton Ribeiro não suportaram 90 minutos de partida (jogaram por 77 e 82 minutos, respectivamente) contra o Liverpool.

Por fim, Gabigol é um jogador que não conseguiu ser titular em alto nível, nem na Internazionale e nem no Benfica. Nesse aspecto Jesus tem utilizar aquilo que está ao seu alcance.

Imagem: Getty Images