Na recém encerrada data FIFA a seleção da Alemanha teve apenas um compromisso pelas Eliminatórias EURO, uma vitória imposta sobre a Estônia no último domingo (13 de outubro). O Nationalelf está no grupo C das Eliminatórias, ocupando a vice-liderança. Os alemães ostentam os mesmos 15 pontos da líder Holanda, por sua vez à frente em critérios de desempate.

O técnico Joachim Löw tem lidado com alguma inconstância desde a eliminação na fase de grupos do último Mundial na Rússia, situação que perpassa pelo “rebaixamento” na Liga das Nações da UEFA, disputada no segundo semestre de 2018. Entretanto as raízes de alguns problemas vão além do que se pode fazer em campo.

Grupo em reconstrução

Para esta data FIFA de outubro Löw seguiu convocando um grupo jovem. O único remanescente do grupo tetracampeão mundial 2014 é o goleiro/capitão Manuel Neuer de 33 anos. O segundo atleta mais velho é o volante Sebastian Rudy (Hoffenheim) de 29 anos. Löw ainda lidou com corte de Toni Kroos pouco antes da apresentação para esta data FIFA, devido a lesão sofrida pelo meia em partida em compromisso pelo Real Madrid.

Os problemas físicos tem sido constantes num quadro em que o treinador busca renovação obrigatória. Além de Kroos a convocação feita para este mês incluía Ginter, Hector, Stark além do criticado e jovem Jonathan Tah, zagueiro que protagonizou más apresentações durante a data FIFA de setembro. Estes quatro defensores também foram cortados por problemas físicos.

A situação obrigou Löw a utilizar o volante Emre Can (Juventus) na linha defensiva, tanto no amistoso contra Argentina (2×2 em 09 de outubro), quanto na partida contra a Estônia. Diante dos estonianos Can atuou por míseros 14 minutos, tendo sido expulso. O 3×0 germânico foi obtido com 10 homens em campo por mais de 76 minutos. Dois gols de Ilkay Gündogan, sim um volante que sai para o jogo, um meio-campista que faz o “box to box”.

Num mundo ideal Löw com certeza contaria com Thilo Kehrer (lateral), Julian Draxler (meia) e Leroy Sané (atacante). Kehrer e Draxler estão entregues ao departamento médico do francês PSG. Sané se lesionou gravemente tão logo a temporada do Manchester City se iniciou em agosto. O atacante teve problemas de ligamento cruzado num dos seus joelhos, na decisão da Supercopa da Inglaterra.

É bom que se diga que o mundo ideal dos alemães já não tem mais nomes como Lahm (aposentado), Klose (aposentado), Schweinsteiger (aposentado) ou Özil (retirado da seleção).

Mundo real e mundo das ideias

Há algumas datas FIFA’s Joachim Löw dá mostras de que não pretende se desvencilhar de seus conceitos. A opção pela utilização dos volantes “box to box” tem feito com que Kroos, Gündogan (Manchester City) e Joshua Kimmich (lateral de origem/FC Bayern) se revezem na cabeça de área alemã.

Sem um miolo de zaga confiável (veteranos como Jerome Boateng e Matts Hummels clamam por peças de reposição) a defesa pode ficar desprotegida. Tragédias como os 4×2 impostos pela Holanda (data FIFA de setembro), em pleno estádio do Hamburgo, são passíveis de eclodir.

Em todo caso os números estão a favor de Löw. A Alemanha anotou 20 gols e sofreu apenas 6 tentos na campanha destas Eliminatórias EURO. Seus números são superiores aos da Holanda (19 anotados, 7 sofridos). A liderança dos holandeses se dá no confronto direto. No turno a Alemanha venceu por 3×2 em solo holandês. No returno foi derrotada por 4×2.

A pergunta que aqui se faz é: qual problema em utilizar um volante de contenção convencional ao invés dos “box to box spieler”? Vale lembrar que os alemães não traduzem o termo “box to box” do inglês, respeitando sua acepção original (“box” é “grande área” na terminologia do futebol inglês. Meio-campista “box to box” corre verticalmente da sua área a área do adversário). No bom português: ao invés dos volantes que “saem para o jogo”, qual o problema em optar por um “volantão” que joga feio, na frente da defesa?

Kroos, Kimmich e Gündogan garantem posse de bola mas não são defensores natos. Sebastian Rudy por exemplo, seria um ladrão de bola eficaz no referido setor. Löw tenta fazer com que Kimmich tenha desenvoltura como meio-campista, algo que funcionou com Phillip Lahm, um fora de série. Kimmich não é Lahm. Kroos é atleta decisivo e liderança nos vestiários. Porém os espanhóis sempre disseram que pode haver um oceano nas costas de Kroos. O Real Madrid tem Casemiro. A Alemanha não.

Talvez falte a Löw algum pragmatismo defensivo que por exemplo, o holandês Louis Van Gaal (ex-FC Bayern) não se envergonhava de utilizar, ao montar times super defensivos com objetivo de não perder (Holanda 2014 em 5-3-2). Löw poderia utilizar Rudy fixo a frente da linha de quatro defensores, usando Kimmich de lateral-direito sobressalente.

Possível formação com Rudy e Kimmich de volta a lateral-direita

Com Kimmich na lateral o time pode variar 4-3-3 e 3-4-3. Se perder a posse de bola, terá cinco homens no campo de defesa. Kroos pode atuar de forma mais ofensiva, como fez no início da carreira, no próprio FC Bayern. Gündogan pode continuar sendo o “box to box” spieler (ou “box to box midfielder” como querem os ingleses), até pelo fato de Gündogan ser atleta treinado por Pep Guardiola em seu clube. Löw não precisa abolir por completo o volante “box to box”.

Joachim Löw parece carregar alguns dilemas clássicos da filosofia alemã. Um atrelamento convicto a conceitos enquanto os fenômenos da praxis clamam por outra abordagem.

Imagem dos atletas alemães contra a Estônia: Reuters

Confira os melhores momentos de Estônia 0x3 Alemanha

der Elfmetterschuss

– A modesta seleção da Estônia é a lanterna do grupo C das Eliminatórias EURO. Com apenas 1 ponto ganho, os estonianos foram goleados por 8×0 pela Alemanha no turno das Eliminatórias, em junho.

– Mencionamos o “rebaixamento” da Alemanha na Liga das Nações, algo que foi alterado pela UEFA no início de setembro. A entidade ampliou o número de times das ligas A, B e C de 12 para 16 seleções. A Alemanha retorna para o “grupo de elite”. A atual campeã da Liga das Nações é a seleção de Portugal.

– A seleção alemã retorna a campo na data FIFA de novembro para compromissos contra Bielorrússia e Irlanda do Norte.