Quando saiu de campo derrotado pela quarta vez no Campeonato Italiano nesta temporada em Genova, no domingo, o treinador interista Luciano Spaletti parecia resignado. “Jogamos bem, mas estamos numa fase em que tudo dá errado”, afirmou o toscano.

“Tudo dá errado” define bem a Internazionale de hoje. Depois da vitória de 3/Dezembro em cima do Chievo, a 12a. no torneio, a equipe fez outros 12 jogos, dos quais venceu somente o penúltimo, contra o Bologna, na rodada anterior. Foram 7 empates, 4 derrotas e só um sucesso, uma média pouco acima do rebaixamento. Filha de um entusiasmo inicial digno de campeonato estadual, uma sub-avaliação das próprias forças e de uma disputa estéril contra Roma e Napoli (as “surpresas” do torneio), a Inter vê o seu rival maior – o Milan – se aproximar depois de ter sido eliminado por ele na Copa Itália. Mas Spaletti deveria focar numa característica comum da Inter pós-Mourinho: a de enterrar as próprias chances na saída do inverno e princípio de primavera.

Todos os antecessores de Spaletti, exceção feita a Leonardo, tiveram pelo menos uma sequência de maus resultados que jogou água na sopa da sorte do clube no Italiano. Silvio Pioli, o antecessor de Spaletti, se enterrou em 8 jogos entre a 29a. e 36a. rodadas, passando de uma esperança sólida de Liga dos Campeões virar uma amarga perda de vaga européia para o Milan de Montella. Na temporada anterior, Mancini se enterrou com 4 vitórias em 11 jogos, acabando num “quase” para a Liga dos Campeões.

Walter Mazzarri, seu antecessor, tinha derretido sua campanha um pouco antes, com 5 derrotas em 10 jogos antes de ser demitido; um ano antes, seu inferno astral tinha durado 10 rodadas, com uma vitória em 10 jogos, de Novembro a Fevereiro. Pior tinha sido o ano antecedente: Andrea Stramaccioni (que Massimo Moratti dizia lembrá-lo de Guardiola, numa das inúmeras tentativas de clubes europeus em promover o técnico da base). O técnico conseguiu perder 14 dos últimos 26 jogos.

Em 2011-12, uma temporada em que o iniciante Giampiero Gasperini deu lugar a Claudio Ranieri que posteriormente deu vaga ao mesmo Stramaccioni, 2 empates e 5 derrotas em Fevereiro arrasaram a temporada interista. Por fim, no primeiro ano sem Mourinho e com Benitez e Leonardo no banco, somente 2 vitórias em 9 jogos – um pouco antes, a partir de Setembro – condicionaram o ano do clube, que chegou ao vice, logo atrás do primeiro Milan de Allegri.

A pergunta é óbvia: se a Inter tem esse handicap tão forte normalmente na segunda metade do torneio, por que razão ninguém faz nada?

Esta resposta é muito mais complexa. É bastante provável que haja algum elemento na preparação física que puxe o freio de mão conforme o fim do ano se aproxima (do ano solar e não da temporada). Contudo, não pode ser só isso. Os treinadores trazem sua comissão técnica (o trio atual chegou com Spaletti no verão europeu). Outros sintomas sugerem que a bucha não está só aí. Nesta matéria da Gazzetta, a força da Inter nos fins de partida era até decntada na imprensa, quando quase metade dos gols do time tinham sido marcados nos últimos 15 minutos.

Ha um fator determinante aí que não pode ser avaliado de maneira totalmente objetiva, que é a de ambiente. A Inter historicamente sofre com um clima de pressão desmedido. Uma seqüência de vitórias faz com que o time seja considerado invencíve; uma de derrotas, faz cobranças desproporcionais. O início de campeonato empolgante levou, por exemplo, a quase uma veneração do zagueiro Skriniar e do capitão Icardi. A má fase atual coloca Spaletti em risco quando seu maior pecado foi somente o de acreditar que a apologia que se fazia de seu time era verdade.

Objetivamente, a Inter tem um grupo bom o suficiente para disputar uma vaga na Liga dos Campeões, espaço que ocupa atualmente na tabela, mas para aí. Com o Napoli lapidado nos últimos anos e a Juventus tradicionalmente competitiva, a Inter não tem um grupo melhor do que Lazio, Roma e Milan e dificilmente escapa do confronto.

A grande e eterna dúvida de Appiano Gentile fica ao redor do nome de Luciano Spaletti. Historicamente, assim como na maioria dos clubes, o treinador paga os erros de todos. A Inter deveria ter mantido a guarda alta até uma parte mais decisiva no torneio, mas é difícil resistir a elogios. Se a tradição se manter, Spaletti fica no cargo, mas começa a temporada que vem sob pressão e na primeira turbulência, cai. O capitão Icardi, cuja lealdade à Inter é similar à de um vendedor de carros usados, deve ser o primeiro a declarar que pode sair. O difícil é encontrar um comprador que tenha os cerca de €70 milhões que ele diz valer. Torcedor da Inter, puxe uma cadeira, porque você terá de ter paciência…