Fernando Haddad e o animal político

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Recentemente o ex-prefeito de São Paulo (SP) Fernando Haddad expressou longo texto publicado pela revista Piauí, no qual ele próprio relata sua experiência na gestão pública municipal da capital paulista, em seu mandato finalizado em dezembro de 2016.

O texto é um long form de difícil assimilação, não pela complexidade da forma de se expressar utilizada por Haddad, na origem um acadêmico de direito, economia e filosofia da Universidade de São Paulo, mas sim porque o ex-prefeito vivenciou teoria e prática, algo que lhe rendeu experiência pessoal áspera.

Como o próprio afirmou e a Piauí manchetou em suas mídias socais, o ex-gestor público “viveu na pele o que aprendeu nos livros”.

O autor deste escrito sobre o depoimento de Fernando Haddad não enaltece o Partido dos Trabalhadores, nem residiu em São Paulo durante sua gestão. Percebeu algum hermetismo no texto de Haddad, única e exclusivamente por comungar de formação acadêmica parcialmente similar ao do ex-prefeito da capital paulista.

Num todo Haddad deixa explícito a ideia de “patrimonialismo” caracterizado nas entranhas da política/gestão pública brasileiras, “patrimonialismo” este demonstrado a partir de exemplos práticos e alguns breves apontamentos teóricos. A movimentação política no país desde 2013 é relembrada, assim como bastidores de problemas com os quais lidou dentre estes a construção da Arena Itaquera, às vésperas da Copa 2014.

Entretanto estas situações não nos interessam aqui. Nos interessa a vivência de Haddad e a revelação da experiência de sua própria filosofia política.

O animal político

Em alguns trechos Haddad alude às suas experiências a partir daquilo que ele mesmo assimilou em âmbito universitário. Em dado momento denuncia a leitura esdrúxula de sua tese de 1989 intitulada “O Sistema Soviético”, feita pelos nominalmente citados por ele, Marco Antonio Villa (historiador) e Reinaldo Azevedo (jornalista).

Segundo o ex-prefeito o intento da tese contida originalmente numa dissertação de mestrado em economia, era afirmar a inviabilidade das pretensões socialistas da antiga União Soviética, ao passo que os citados expuseram falsamente que Haddad vislumbrava defesa do modelo abordado.

Numa única assertiva Haddad expõe que foi vítima de vitupério, o que por tabela depõe contra partidários da esquerda brasileira, os quais acreditam em releituras delirantes de modelos comunistas mundialmente sepultados há mais de 30 anos. Veja bem: a obra citada e mal lida pelos jornalista/historiador, era uma dissertação de mestrado em ciências econômicas. Que tipo de dissertação em economia valida teses comunistas?

Haddad é o caçula de uma geração de acadêmicos da USP que conviveram com o ápice de pesquisas ligadas a obra do alemão Karl Marx (1818 – 1883). Foi minimamente contemporâneo ao outrora acadêmico uspiano e ex-presidente da república, Fernando Henrique Cardoso, que a seu tempo também se debruçou sobre a obra marxiana.

Na gênese da filosofia política clássica o grego Aristóteles cravou a terminologia “animal político”, para definir o homem. Era a maneira que ele Aristóteles, paralelamente considerado um tipo de visionário da biologia, diferenciava o homem animal racional, dos seres irracionais desprovidos da “dianóia” (razão).

No século IV a.C. não havia nenhuma tese aristotélica muito avançada, a não ser a assertiva de que o “animal político” se diferenciava dos outros animais, devido a capacidade de articulação da linguagem.

Real politik tupiniquim

O idioma alemão permite a utilização do termo “Real politik” utilizado por jornalistas de política ou hard news, termo este que corresponde ao modus operandi de políticos e governantes, seja lá de que país forem. Logo não procuramos ressaltar quem está envolvido em escândalos, nem beatificar nenhum dos nomes/partidos citados.

No texto da Piauí Haddad revela uma destreza interpretativa hábil em observar similaridades tanto entre o citado FHC e o ex-presidente Lula, quanto em relação aos seus respectivos partidos PSDB e PT. Haddad cataloga a fragmentação quase esquizofrênica de seu partido, afirmando que o PT carrega em si uma “esquerda socialista” e uma “direita republicana”, ambas em menor escala e sub julgadas a um “centro social-desenvolvimentista”.

A destreza de Haddad enquanto “animal político” o deixa relatar sobre seu hábil relacionamento com a imprensa (dos maiores aos menores conglomerados midiáticos brasileiros), e um relacionamento muito próximo a ícones do PSDB. Haddad relata constantes encontros com FHC, ressaltando que José Serra fora o arauto subestimado do impeachment de Dilma Roussef.

15535077570_7a42cb4dae_cFernando Haddad e Renan Calheiros (PMDB) (Imagem: Senado Federal/Flickr)

O atualmente ministro licenciado José Serra personificou o fator que alinhavou aproximação/afirmação do PMDB do obscurecido vice-presidente Michel Temer, no contexto pré-impeachment entre 2014-2015. Haddad afirma que Lula por sua vez, mostrava-se avesso a qualquer possibilidade de retorno e que a tentativa frustrada de torná-lo Ministro Chefe de Casa Civil em 2016, foi aceita praticamente a contra-gosto do ex-presidente e líder petista.

Em suma Haddad revela um senso de “Real politik” lúcido, relatando que para ele era clara a necessidade manutenção das forças vigentes (PT/PMDB/PSDB), caso desejasse que seu projeto se prolongasse por mais um mandato municipal, via a re-eleição que não houve.

Haddad expressa com clareza a visualização da própria campanha 2016 em que acabou derrotado por João Dória (PSDB). Ao lado do agora ex-prefeito, Marta Suplicy (dissidente do PT) surgiu em nome do PMDB, ao passo que ainda havia Celso Russomano entre os candidatos de maior expressão.

Haddad responsabiliza a candidatura de Luiza Erundina no blefe imaturo do PSOL, enquanto ponto de irrupção da possibilidade de ascensão concretizada por Dória. Com a preferência de adeptos da esquerda se fragmentando, o candidato dito outsider sem passado na gestão pública e trajando estandarte do partido que representa a elite, não só pareceu ter mais credibilidade, como venceu o pleito.

Sem apologias a Habermas na era sofística da “pós-verdade”

Um ponto crucial da vida prática atual é ressaltado por Haddad, sendo este ponto também determinante para vitórias em campanhas políticas. Haddad enfatiza a importância determinante da internet no tempo das redes sociais. Enquanto jornalistas esmurram seus teclados tentando teorizar de forma pretensa as nomenclaturas “fake news” ou “pós-verdade”, Haddad explicitou algo por ele vislumbrado nos clássicos.

O ex-prefeito enfatiza a “teoria da ação comunicativa”, sem exatamente nomeá-la, sendo esta teoria do filósofo alemão Jürgen Habermas possibilitada a partir da contraposição a um aspecto oferecido pelo sociólogo Nicklas Luhmann (1927 – 1998). Ironicamente Haddad desnuda de forma sagaz uma não apologia a Habermas que foi incensado pela intelligentsia do Brasil, após inusitada manifestação publica a favor do PT no decorrer de 2016.

Para Haddad a era das redes sociais está mais próxima do vislumbre de Luhmann, para o qual nas palavras de Haddad, permite “ruptura radical entre emissão” e “recepção da mensagem”. Haddad afirma que para Luhmann há uma “ideia contra intuitiva”, numa época em que “tudo se tornou instantâneo e tudo parece interligado”. Habermas estaria num segundo plano, muito atrelado ao século XX.

14298470142_c32c585d0a_zO filósofo alemão ainda vivo Jürgen Habermas (Foto: Flickr)

O ex-prefeito afirma que para o sociólogo alemão “reputação do emissor” e “origem da informação”, perderam relevância. Citando literalmente Luhmann, Haddad ressalta que a técnica permite uma anulação da “autoridade da fonte”, substituindo-a por um “irreconhecível da fonte”.

Haddad consegue parir plenamente algo que jornalistas andam reduzindo a discursos moralistas acerca de que “verdade” o espectador deve acreditar. Segundo o ex-prefeito a citada ruptura entre “emissão/recepção da mensagem”, foi erroneamente subentendida pela esquerda brasileira, enquanto a possibilidade de reduzir o poder da “indústria cultural”.

A lacuna foi ocupada pela distopia caótica de informações em grande escala, que podem ou não ter procedência. Sem o que Haddad descreve como “força da tradição” (imprensa, jornalismo confiável, estudos acadêmicos) não há filtro ou “anteparo das instâncias costumeiras de validação”. Segundo o ex-prefeito deste vão prospera a dita “pós-verdade”. Para a filosofia “pós-verdade” e “fake news” não são diferentes de um sofisma e aquele que os entoa/expressa, não é diferente de um sofista.

Em termos acadêmicos da filosofia no Brasil, Nicklas Luhmann é um autor minimamente obscuro, tido como apêndice indesejável daqueles que se especializam na obra de Habermas. Muitos habermasianos tomam nota da contraposição a Luhmann por obrigação.

O currículo lattes de Haddad é público na internet na plataforma do site da CNPQ. Sua tese de doutorado em filosofia tinha como enfoque apontar um exaurimento da perspectiva da obra de Marx, oferecendo a leitura de Habermas enquanto alternativa teórica. A tese de 1996 ainda tinha em sua época o invólucro vanguardista das leituras em Habermas, as quais atualmente não representam exatamente uma grande novidade.

Alguns círculos acadêmicos brasileiros parecem atrelados a uma crença mediúnica em Marx, que os faz desprezar outras leituras e crerem numa “entidade esquerda”. Fernando Haddad não parece ser daqueles idiotas marxistas que nunca leram Marx, por mais que eu discorde de sua visão partidária. Enquanto acadêmico ele também não se assemelha a um “pastor” de igrejinha de autor x ou y.

Epílogo

Haddad inicia seu relato à Piauí relatando a dificuldade em estabelecer conversação com a ex-presidente Dilma Roussef, sendo que ambos vestiam a legenda do mesmo Partido dos Trabalhadores. Haddad se refere à ex-presidente com respeito, sem esconder a existência de discordâncias. A formação erudita pode intimidar, falo por experiência própria.

Por fim o autor deste texto duvida do real entendimento de muitos que dizem ter lido o longuíssimo escrito de Fernando Haddad, gostem eles ou não de sua figura. E teme pelo grande número de idiotas que possam vir a apreciar este escrito aqui, sem se desvencilhar de suas imbecilidades e preferências partidárias. Haddad quer dialogar. Eu não.

Imagem de Haddad: Flickr