Submissão (Michel Houellebecq – 2015)

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No último dia 07/01 completaram-se dois anos dos atentados à redação do jornal satírico francês Charlie Hebdo, então localizada em Paris (França). O ocorrido vitimou 12 pessoas, tendo sido promovido por dois irmãos terroristas de inclinação religiosa muçulmana, os quais acabaram mortos pela polícia francesa.

A publicação politicamente incorreta é muito famosa na França e ainda se vê em atividade. Além de charges que retrataram a figura do profeta Maomé de forma debochada nos últimos anos, a última edição do CH publicada antes de 07/01/2015, deu destaque ao livro “Submissão” do escritor Michel Houellebecq.

(reprodução)

(reprodução)

Naquela ocasião “Submissão” estava sendo lançado em território francês. A capa daquela edição do periódico trouxe escrachada ilustração, onde um muçulmano e um jornalista trajando uma camiseta do Charlie Hebdo, se beijam na boca (imagem ao lado).

O autor

A edição brasileira de “Submissão” saiu pela editora Alfaguara ainda em 2015, meses após o atentado. O episódio acabou garantindo uma publicidade “maldita” à obra, cuja trama empreende curiosa ficção política que se desatrela exatamente após as eleições presidenciais francesas de 2017.

Aparentando valer-se de uma visão pessoal extremamente cartesiana, Michel Houellebecq parece ser alguém que desvincula plenamente a razão de suas próprias emoções. O escritor parece desdenhar discretamente de seus entrevistadores, com um olhar penetrante e um desenho labial que confunde o interlocutor. Não se sabe se ele está sério ou sorrindo com escárnio.

Houellebecq (divulgação)

Houellebecq (divulgação)

Houellebecq passa impressão de tomá-los como ingênuos, se jornalistas, como entrevistadores que acabaram de apanhar mil detalhes superficiais sobre ele, para entrevistá-lo frivolamente cinco minutos depois. Mais além Houellebecq faz chacota da psicologia e teorias da administração/economia, descrevendo-os enquanto “conversa fiada”.

Submissão

A trama de “Submissão” é protagonizada por François, um professor universitário de literatura francesa que narra o clima tenso na França ficcional, pré-eleições presidenciais de 2022. Houellebecq permeia a descrição do indiferente e alienado professor, a relatar resquícios de conflitos de guerra civil, dada expansão de imigrantes muçulmanos. Isso além de iminente dissolução do sistema de ensino superior francês.

Tal qual na atual realidade francesa os partidos de esquerda e centro-esquerda se veem em desvantagem perante a Frente Nacional de Marine Le Pen, representante da extrema direita, retratados literalmente como tal, na ficção. Os paradigmas políticos franceses entretanto, parecem desgastados.

François descreve um forte candidato que pode superar as velhas ordens. Trata-se de Mohammed Ben Abbes, representante ficcional da também fictícia Fraternidade Muçulmana, um distópico partido imaginário de orientação islã. A Fraternidade Muçulmana será o trunfo dos partidos da esquerda francesa, perspectiva com a qual se aglutinarão.

O insight de Houellebecq vislumbra de forma fria a alienação política e isenção de senso de praxis da comunidade universitária francesa, algo não muito diferente do percebido em departamentos de universidades públicas no Brasil. François vai constatando aos poucos que toda a classe docente universitária ao seu redor, será excluída.

A Fraternidade Muçulmana adequará o sistema universitário francês aos valores muçulmanos, assim apoderando-se da base educacional que garantirá sua perpetuação no cenário político. Em contraparte o dinheiro dos petrodólares árabes transformados em investimento, os mesmos petrodólares que gerem times de futebol milionários como o Paris Saint-Germain, comprarão as universidades do estado francês. Ou seja, o islã privatizará o ensino superior. Tal qual no Brasil, na França impera o ideal de ensino superior público gratuito.

A análise de realidade empreendida por Houellebecq e tornada ficção apocalíptica, é engenhosa. Enquanto muitos se desesperam com vitórias possíveis de partidos de extrema direita pela Europa, o autor questiona se tal opção seria mesmo tão ruim, frente a um partido muçulmano. Vislumbra-se o momento da improvável ocidentalização do islã.

A questão que a obra coloca é uma só: o que é pior, o demônio branco caucasiano ou o deus pagão?

Dados da obra: HOUELLEBECQ, Michel. “Submissão”. Rio de Janeiro, editora Objetiva/Alfaguara. 2015.

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